Hugo Antunes / Carlos “Zíngaro” / Miguel Mira, 3 de Novembro de 2013

Hugo Antunes / Carlos “Zíngaro” / Miguel Mira

Uma matiné muito especial

texto Bernardo Álvares fotografia Nuno Martins

Depois de o contrabaixista ter tocado em duo, separadamente, com o violinista e com o violoncelista, foi no final da tarde do passado dia 31 de Outubro a vez de actuarem a três em mais um concerto do Espaço APAV & Cultura. Ouviu-se grande música.

Há uns meses, Hugo Antunes (contrabaixo, foto acima) convidou Carlos “Zíngaro” (violino) e Miguel Mira (violoncelo) para dois duos nas MagaSessions, uma sala de concertos a desafiar o limite entre o público e o privado com sessões mensais e intimistas em plena Avenida da Liberdade. Desta vez, Antunes convidou os dois músicos para se apresentarem em trio no Espaço APAV & Cultura. Apesar de poder parecer um local improvável, os mais atentos já repararam que a APAV tem funcionado, também numa lógica mensal, como mostra do circuito nacional de jazz e improvisação (mas não só).

Na tradição erudita ocidental, o quarteto de cordas é uma das formações mais recorrentes, tanto pelo seu estatuto como pela extensa obra que foi escrita com o propósito de ser interpretada por esse conjunto. Na música contemporânea e improvisada, é normal estabelecerem-se comparações entre pequenas formações exclusivamente compostas por cordas e esse quarteto clássico. Mas a comparação acaba aí: nada nos poderia preparar para tal destruição dos papéis clássicos associados a esta classe de instrumentos, a não ser o próprio historial dos músicos em questão.

Carlos “Zíngaro” é, definitivamente, um dos nomes mais incontornáveis da música improvisada. Precursor do género em Portugal e colaborador recorrente de alguns dos mais interessantes músicos que o mundo já viu nascer, “Zíngaro” tem desenvolvido um trabalho sempre coerente e relevante na música mais criativa. Miguel Mira, contrabaixista na pele de um violoncelista, é um dos instrumentistas mais requisitados na cena free portuguesa, desdobrando-se em inúmeras colaborações, sendo a mais notória com Rodrigo Amado. De Portugal para Bruxelas para o mundo, Hugo Antunes tem sido uma peça muito importante da nova geração de músicos criativos.

O concerto começou com um apalpar de terreno muito normal em colaborações raras, como foi o caso. Os músicos foram dando espaço à música que ia sendo criada, respirando sem pressas, mas já com todo o virtuosismo à vista. O trio optou durante grande parte do concerto pelo uso dos arcos (levando mais longe a (in)comparação com os quartetos de cordas clássicos), mas nem assim Miguel Mira quis controlar os seus instintos mais “baixos”, jogando à baliza para manter as bolas dos colegas dentro do campo. 

Na mesa dos adultos

Carlos "Zíngaro"

Miguel Mira 

Sempre inventivo, Mira funcionou como aglutinador capaz de contextualizar os muitos discursos chutados por “Zíngaro” e Antunes. Este último foi ainda responsável por algumas fintas ao mestre “Zíngaro”, com todo o respeito intergeracional, mas a afirmar com toda a segurança o seu lugar “na mesa dos adultos”.

Se (mais uma vez), ao ouvir um quarteto de cordas clássico, somos imediatamente remetidos para o espaço europeu, uma das características mais atraentes da música exploratória é a sua capacidade de imaginar e criar novas geografias. Um dos momentos mais bonitos desta matiné aconteceu precisamente quando os músicos trocaram os arcos por um pizzicato repetitivo e quebrado. Música tradicional de um grupo étnico essencialmente dedicado à pesca proveniente da Costa Este da Atlântida, de Braavos ou qualquer outra civilização perdida.

A figura austera de “Zíngaro” emana concentração, como se cada concerto fosse o momento mais importante da sua vida. Ainda assim foi possível vislumbrar, no final das músicas, breves instantes de sorriso na sua cara, porque por mais experiente que seja o músico é sempre possível surpreender-se.

O concerto manteve-se enérgico até ao fim, sendo ainda de destacar o arrasador trabalho de arco de Antunes a soltar múltiplos gritos das suas cordas. No final contrastava o ar impecável do contrabaixista com o seu arco (com inúmeras crinas partidas) vandalizado pela intensidade da música que ali aconteceu.