Hugo Alves Trio, 4 de Novembro de 2013

Hugo Alves Trio

O melhor do Algarve em Lisboa

texto António Branco fotografia Hervé Hette

O grupo do músico algarvio apresentou-se no passado dia 2 de novembro no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, ocasião para confirmar, se necessário fosse, que se trata de um dos mais relevantes trompetistas nacionais de jazz.

Estivesse Hugo Alves baseado em Lisboa e a visibilidade do seu trabalho seria, decerto, diferente. Com quatro discos editados na condição de líder e outros dois à frente da Orquestra de Jazz do Algarve (OJA) – uma criação sua –, Alves tem igualmente ganho considerável reputação enquanto docente e pedagogo, nomeadamente à frente do AJMMA – Atelier de Jazz e Música Moderna do Algarve, com sede em Silves, e como produtor e dinamizador cultural.

Poucas semanas depois de ter pisado o palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) – como um dos elementos mais destacados da orquestra liderada pelo maestro Jorge Costa Pinto –, o trompetista lacobrigense regressou à casa de espetáculos à beira do Tejo para um concerto com o seu trio.

De alguma forma retomando o Taksi Trio de boa memória (formação que incluía Zé Eduardo no contrabaixo e Jorge Moniz na bateria), fez-se acompanhar desta feita pelo contrabaixista Hugo Santos e pelo baterista Filipe Sequeira, dois músicos que consigo colaboram há já alguns anos, designadamente integrando a secção rítmica da OJA, e que beneficiaram de estadas em Bruxelas durante as quais cresceram como músicos. 

Abordagem pessoal

 

Embora apoiado num conhecimento profundo da história e da tradição do jazz, com um acentuado cunho da linguagem hard-bop, Hugo Alves não se limita à sua mera revisitação nostálgica, antes cinzelando uma abordagem pessoal que frutifica particularmente em formatos mais intimistas – pois permitem-lhe uma maior liberdade de movimentos –, expondo à evidência a sua musicalidade, a beleza do seu timbre, a clareza do seu ataque. E nota-se que está a fazer o que lhe apetece...

O trio esteve coeso e revelou conhecimento mútuo, o que tornou despicienda a presença de um instrumento harmónico. O concerto abriu em alta rotação com uma versão sinuosa de “Kelo”, original de J. J. Johnson, icónico trombonista bop. Este foi o único tema alheio da noite. Se outros certamente aproveitariam a ocasião para fazer uma espécie de “concerto de consagração”, olhando para trás, Hugo Alves arriscou e mostrou, em estreia, peças originais novas, procedimento que, aliás, sempre seguiu em projetos anteriores. Enalteça-se a reiterada ousadia.

Entre as composições novas, firmaram memórias o travo “bluesy” de “Sky Fly High!” – com a abordagem relaxada de trompetista e contrabaixista a contrastar com o frenesi rítmico do baterista –, a mais tranquila “Hamlet’s Missed Take” (com Alves no fliscórnio), o “swing” luminoso de “Another Slice” (que incluiu o melhor dos vários solos de Sequeira) e a solenidade de “Hymn for Three”, introduzida pelo som cavo de Hugo Santos. Espera-se que estes temas venham a integrar disco novo, que já tarda.

Um concerto que consolidou Hugo Alves com um dos mais interessantes trompetistas nacionais de jazz. Alguém que merece, sem margem para dúvidas, um reconhecimento mais amplo das suas qualidades.