Eduardo Raon, 16 de Novembro de 2013

Eduardo Raon

Enxame de abelhas

texto Nuno Catarino

Foi de forma muito original, e com projecções vídeo, que o harpista apresentou no Maria Matos, em Lisboa, o seu disco a solo sobre insectos e acções impulsivas. Houve zumbidos e até picadas (leia-se: surpresas).

A harpa tem sido um instrumento raro, em qualquer género musical. Na última década, numa meritória excepção, Joanna Newsom apresentou o instrumento a um público generalista, com o seu indie-folk transversal. No jazz, salvam-se os exemplos de Dorothy Ashby e Alice Coltrane, e na música improvisada destacaram-se Zeena Parkins, Rhodri Davies e Hélène Breschand. Em Portugal, tem-se notabilizado a harpista Angelica Salvi (ainda que oriunda de Espanha). Contudo, continuam sendo raros os exemplos.

Eduardo Raon é, assim, um músico muito peculiar, inclusive por atravessar géneros - do jazz à livre-improvisação, passando pelo pop-rock – em projectos tão diversos quanto Powertrio, Bypass, Hipnótica ou Maria João & Mário Laginha.

O mote para o concerto do passado dia 12 de Novembro foi o lançamento de "The Drive for Impulsive Actions", trabalho a solo editado na “label” Shhpuma, subsidiária da Clean Feed. No palco do Teatro Maria Matos (com bancada adaptada, para lotação mais reduzida), Eduardo Raon começou por apresentar-se sozinho. Como companhia tinha apenas a harpa, dispositivos electrónicos e vários objectos - entre eles um estranho instrumento inventado por Hans Reichel, o “daxofone”.

Servindo-se sobretudo da harpa, Raon criou diversos ambientes sonoros, alternando entre um dedilhar obsessivo (produzindo cascatas de notas), com alguns momentos abrasivos (de enorme intensidade enérgica), e uma entrega de maior subtileza e delicadeza melódica.

Tratou-se de um espectáculo “intermedia”, pelo que em paralelo com a música assistiu-se a uma projecção vídeo, também da autoria de Raon - alternando textos (frases, diálogos) marcados pelo humor com animação visual.

Riso, suspiro e bocejo

 

O concerto foi seguindo uma articulação lógica (a mesma do disco). Partindo de um fascínio sobre os insectos e os seus comportamentos, este projecto inclui episódios sobre o riso, o suspiro e o bocejo. E há ainda espaço para o “Episódio Rua Conde Almoster”: há alguns anos, na referida rua de Lisboa, dois condutores envolveram-se numa discussão por uma questão de trânsito. Um deles pegou numa arma de fogo e disparou sobre o outro condutor.

Partindo destas premissas, a música de Raon propõe-se como uma metáfora, atravessando desde os comportamentos típicos até aos mais absurdos - a tal força para as acções impulsivas referidas pelo título do álbum. Assim, se por vezes a estrutura da música é a mais lógica e previsível, em outras ocasiões os caminhos seguidos surpreendem.

Nesta apresentação ao vivo, o dedilhar de Raon foi seguindo a lógica do argumento, numa contínua lógica de tensão-distensão. Numa fase mais adiantada do concerto entrou em cena José Salgueiro, munido de um “kit” de bateria reduzido, acrescentando a sua percussão (quase marcial) à harpa, numa parceria rítmica impecável.

Embrulhado num completíssimo embrulho conceptual, Raon conseguiu apresentar um dos mais originais e personalizados espectáculos que passaram pelos nossos palcos nos últimos anos.

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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