Guimarães Jazz, 20 de Novembro de 2013

Guimarães Jazz

Verão de São Martinho

texto Gonçalo Falcão fotografia Guimarães Jazz

Um dos mais importantes do País, o festival de Guimarães teve na sua edição de 2013, na primeira metade de Novembro, tão bom jazz quanto aquele a que nos habituou. Foram dias de sol e noites de música…

O Festival Guimarães Jazz tem dois argumentos de peso para ser forçoso: Guimarães e Jazz. Como o próprio nome indica, a coisa é simples - propostas musicais de grande interesse e uma cidade que nos faz sentir magnificamente. Quem compra o bilhete continua a poder usufruir de um espectáculo extraordinariamente bem planeado, que vai da programação ao som de palco, ao extremo bom gosto da iluminação e da cenografia, à qualidade gráfica dos materiais, ao conforto, à simpatia e à pontualidade. Tudo funciona na perfeição e a máquina que planeia e produz o Guimarães jazz é um exemplo de competência.

A cidade continua uma das mais extraordinárias do País e parece melhorar ano após ano: clara, densa e viva, com escala humana. Não temos a sensação de entrar num local parado no tempo, embalsamado, mas sim de partilhar a vida da cidade que se oferece tranquilamente ao visitante, cheia de uma luz fria própria do Verão de São Martinho. 

Forte e intenso

Andrew D'Angelo 

Julgamos que devido a problemas orçamentais, só foi permitido à jazz.pt fazer a cobertura da segunda semana do festival. Atrasados para o primeiro concerto (por via de uma embraiagem não colaborante), pudemos ainda assim ouvir uma performance notável daquele que era uma das maiores expectativas da programação deste ano: Andrew D’Angelo. O jovem saxofonista é uma das apostas de Ivo Martins, que o trouxe pela segunda vez e desta feita com uma banda formada propositadamente para o festival.

Música fantástica, com o quarteto a tocar forte e de forma intensa. D’Angelo sopra com imensa desenvoltura desafiando classificações (clássico/free). Conhecíamo-lo em trio com Trevor Dunn e Jim Black e o grupo que veio a Guimarães mudou completamente a forma como a música soa: destaque para o contrabaixo de Ben Street (que também regressou a Guimarães) e a bateria de Allan Mednard, que veio em substituição de Gerald Cleaver. O trombone de John Egizi foi menos entusiasmante, duplicando o sopro do líder e solando sem brilho especial.

D’Angelo dividiu-se entre o saxofone alto - com um som muito interessante e original, que de alguma maneira pega na força e no ataque de Ornette Coleman mas retira-lhe o lamento “bluesesco” – e o clarinete, com uma expressão também própria e reconhecível. É impossível classificar o jazz de D’Angelo – a sua música poderia figurar num festival mais radicado nas vanguardas jazzísticas e o certo é que em Guimarães não teve confronto. 

Pouca vida

Don Byron 

Jack DeJohnette

A quinta-feira trazia dois grandes nomes, o que é uma das matrizes deste festival: a presença de figuras cimeiras da história do jazz. E Jack DeJohnette é um baterista incontornável na história mundial deste idioma: presente no “Bitches Brew” de Miles Davis, no Keith Jarrett Trio e em outras formações estruturais, é um músico inteligente, elegante, com um uso original dos pratos da bateria. Não é, porém, um compositor, ou melhor, não escreve de forma refinada, e não é um arranjador cuidado: compõe de forma simples e directa na procura de melodias interessantes. Os seus discos são feitos em grande parte pela qualidade dos grupos que monta para os tocar e esse terá sido um dos problemas do concerto de Guimarães: o seu grupo actual tem George Colligan no piano e nas teclas (também já fora convidado pelo Guimarães Jazz para apresentar a sua música) e Jerome Harris no baixo eléctrico, mas nem um nem outro são particularmente excitantes.

A inclusão de Don Byron era um argumento acrescido e razão mais do que suficiente para conduzir durante uns bons quilómetros: o clarinetista (e também saxofonista) é um músico de excepção, arrojado, anguloso, sofisticado. Contudo, mesmo com Byron em palco a música soou lenta, mole, com pouca vida. Em parte porque DeJohnette não estava nos seus dias e também porque a banda não inseria carga na música. O sopro parecia o único a querer puxar pelo grupo na tentativa de criar intensidades.

Harris deu-nos pouco: foi competente, sem dúvida, mas faltou-lhe expressividade. Daquele baixo não saem diamantes e quando vocalizou foi igualmente vulgar. Colligan dividiu-se entre várias teclas, oferecendo sons que vão do piano clássico à electrónica retro (tipo Weather Report), com algumas escolhas de registo duvidosas. DeJohnette foi lento, sem força, solando de forma muito pouco criativa. Com músicos como o baterista ou Byron é quase impossível a música ser mveis de qualidade que a grandeza dos nomes poderia fazer esperar.o, sem carga, solando de forma muito pouco criativa. Com mo e ná, mas também foi claro que aquela foi uma das tais noites. Assistiu-se a um concerto apenas suficiente, sem chama. Um duo com Don Byron teria sido certamente outra coisa. 

Acessível, mas inteligente

Kenny Werner 

David Sanchez

Alguns programadores portugueses são respeitados pelos músicos, que os ouvem e que valorizam a sua opinião. Esta deferência dos músicos reconhece os programadores que não se limitam a “comprar” espectáculos já montados. Assim se explica que músicos como Ken Vandermark aceitem estrear em Portugal um novo grupo ou que o palco do Centro Cultural Vila Flor seja o cenário escolhido para a “première” de dois grupos novos: depois do concerto inaugural da segunda semana em que Andrew D’Angelo inaugurou o seu quarteto, foi a vez de o mundo ouvir pela primeira vez o Kenny Werner / David Sanchez Quintet e assim brindar o público do festival com este prelúdio.

Sanchez e Werner são dois músicos com algumas semelhanças na vontade de fazer música dulcíssima e muito acessível, sem com isso sacrificarem a inteligência dos solos. São também contrastantes: Sanchez usa elementos simples e concisos, enquanto Werner prefere o adorno e a procura dos múltiplos ângulos das melodias. Os temas pareceram precisar de algum polimento e foco, e foram por vezes demasiado longos: estavam a criar o seu território em frente de uma plateia de quase 800 pessoas, o que impressiona (somado ao facto de todas estas presenças se darem em noite de selecção de futebol).

A bateria de Henry Cole fez um segundo solo pobre e cheio de ideias feitas, enquanto o contrabaixo de Johannes Weidenmueller não solou durante duas horas e foi pena, porque parecia poder ter interesse. Na percussão, o brasileiro Edson “Café” da Silva coloriu timbricamente o grupo, com uma imensa variedade de sons, ora enchendo demasiado os espaços livres, ora acentuando bem os movimentos da música. “Café” da Silva é um músico com uma carreira enorme, que vai de Chico Buarque e Milton Nascimento a David Byrne, Mick Jagger e Stevie Wonder, ou a Dave Liebman e Randy Brecker. Tem uma linguagem brasileira polida e o seu solo não apresentou novidade. Bom concerto de uma banda em formação mas com material musical com qualidade. 

Cultura são couves

John Abercrombie 

E porque há certas coisas que, felizmente, não mudam, a noite de encerramento apresentou uma “big band”: a HR Big Band da Rádio de Frankfurt, conduzida por Jim McNeely, tendo como solista convidado John Abercrombie. Os países ricos têm uma política cultural e isso traduz-se na existência de entidades como teatros, bibliotecas, orquestras, etc. E quando dizemos existência, usamos a palavra na sua acepção mais rica e não apenas enquanto ser, estar e permanecer: são forças vivas e dinâmicas que permanentemente procuram soluções para melhor servirem os seus propósitos.

Um erro português é pensar-se que os ricos têm orquestras porque são ricos, quando a realidade há muito que demonstra o contrário: são ricos porque, entre outras coisas, têm orquestras. É a formação que faz o país e não o contrário. Nós somos pobres porque temos três auto-estradas que passam em Lousada e porque, mais do que aprender, nos importa o piche que alisa os caminhos. Cultura são couves.

A orquestra trouxe até Guimarães um projecto musical que junta o trabalho do compositor e magnífico orquestrador Jim McNeely (que começou por se destacar, ainda muito novo, como arranjador da Mel Lewis Jazz Orchestra e mais tarde com a Carnegie Hall Jazz Band, a DR Big Band e a Metropole Big Band) às composições e à eloquência solística de Abercrombie. Conta ainda com a grande qualidade técnica e de colectivo dos seus executantes e as boas capacidades solísticas de alguns deles.

Um conjunto de instrumentistas rigoroso, alinhado até à perfeição, estruturado sobre uma grande secção de metais (13 sopros com quatro trompetes, quatro trombones e cinco saxofones/flautas) que sustenta todo o seu som, muito metálico. Somando-se o contrabaixo, a bateria, o piano e a guitarra eléctrica ficamos com uma ideia desta máquina sonora.

Não é particularmente swingante nem ritmicamente muito animada, mas é capaz de construir várias camadas que se vão envolvendo, trocando, sobrepondo, na entrega das melodias. Sofisticada, muito contemporânea, não é uma orquestra bailante, mas sim um grupo jazzístico inteligente e complexo. Os excelentes arranjos de McNeely garantem música interessante sem resvalar para o hollywoodesco, com um enorme bom gosto nos arranjos.

Abercrombie estava espartilhado pela escrita e pela orquestra (que não é uma unidade flexível, nem pode ser), mas teve bons momentos. Não é o contexto ideal para se ouvir a sua fluência na guitarra, mas foi interessante observar a releitura dos seus temas, integrando o seu som no grupo.

Alguns dos membros da HR foram bastante interessantes a solar, sendo que a maioria se limitou a cumprir com a sua função, o que já não é mau. Fechou em grande a 22ª edição do Guimarães Jazz, um festival incontornável não só em Portugal mas num contexto mais alargado, que passa também pelo país vizinho. Esperemos que nunca acabe.