John Scofield Überjam Band, 22 de Novembro de 2013

John Scofield Überjam Band

Jazz from hell

texto Pedro Cravinho fotografia Vítor Medeiros

O guitarrista que ouvimos com Miles Davis passou pela Casa da Música e entusiasmou o público com a sua mistura eléctrica de jazz, rock e blues. Parafraseando Monk, «it just happened».

Após Berlim, Amesterdão, Istambul, Paris, entre muitas outras cidades europeias, foi a vez de a Casa da Música, no Porto, acolher neste mês de Novembro a John Scofield Überjam Band.Incluído na digressão europeia de apresentação do novo trabalho discográfico de Scofield, “Überjam Deux” (Decca/EmArcy, 2013), lançado em Julho passado, o concerto encerrou o Ciclo Jazz Sonae Set – Dez 2013.

Uma década após o lançamento de “Überjam” (Verve, 2002), seguido de “Up All Night” (Verve, 2003), e do continuado contacto de Scofield com os membros da Überjam Band, resultou este novo trabalho discográfico, no qual o guitarrista norte-americano é acompanhado pelos músicos Avi Bortnick (guitarra e “samplers”), Andy Hess (baixo) e Louis Cato (bateria), regressando mais uma vez a uma multiplicidade de sonoridades que se fundem a partir do jazz, do rock e dos blues.

Na Sala Suggia, perante o abundante público presente (apesar de não ter conseguido encher a sala), e um som excepcional (Scofield fez questão de agradecer o magnifico trabalho do seu técnico de som no final do concerto), para além de exibir as suas competências técnicas enquanto solista, o antigo músico de Miles Davis levou-nos consequentemente a reflectir sobre a influência recíproca entre o jazz e outras “músicas”. O jazz, tal como aconteceu no século XX, talvez continue a ser um dos géneros musicais que melhor nos podem ajudar a compreender as múltiplas transformações da cultura ocidental neste século (Ruesga, 2010).

Ao longo da noite, às composições do “Überjam Deux”, como “Snake Dance”, “Cracked Ice”, “Jungle”, “Al Green Song”, “Curtis New”, “Dub Dub”, todas elas com utilização de múltiplos «”grooves” de dança, [...] provindos da diáspora africana: rhythm and blues, afro-beat, reggae, house, todos eles com um carácter “funky”» (Scofield, 2013), juntaram-se ainda “Jungle Fiction” e “Tomorrow’s Land”, do primeiro disco.

Versatilidade e intuição

John Scofield

Louis Cato

A partir dos padrões rítmicos contínuos accionados pelos “samples”e “loops”de Bortnick, soberbamente ancorados na coesa e dinâmica dupla Hess-Cato, Scofield demonstrou mais uma vez a sua versatilidade e a sua intuição, possuindo uma habilidade singular na utilização de linhas melódicas fortemente marcadas pelos blues, ainda que fora do contexto das estruturas harmónicas convencionais.

Um destaque especial para o jovem baterista Louis Cato (nascido em Lisboa), dotado de uma capacidade técnica e de uma sensibilidade invulgares, o que se verificou não só pela sua qualidade enquanto solista, mas em particular devido à capacidade de manter um complexo diálogo rítmico simultâneo com a guitarra de Scofield e a electrónica de Bortnick.

John Scofield e a sua Überjam Band conseguiram (mais uma vez) criar uma “ponte” entre o passado e o presente,não só em termos geracionais, mas também no que diz respeito ao resultado sonoro obtido, como que de uma amostragem se tratasse, reflectindo a multiplicidade de propostas que constituem o jazz na actualidade,respondendo simultaneamente aos novos desafios “potenciados” pelas novas tecnologias. Incentivado por um público vibrante em aplausos, no final de (quase) duas horas de espectáculo, o grupo regressou novamente ao palco, para terminar a actuação com um “obrigada” e com “Tommorow’s Land”, tema da autoria da Avi Bortnick.

Um concerto que nos fez retomar uma reflexão proposta por Thelonious Monk: «I don’t know where jazz is going. Maybe it’s going to hell. You can’t make anything go anywhere. It just happens.»