Timespine / Lana Trio, 2 de Dezembro de 2013

Timespine / Lana Trio

Um “nós” que transbordava

texto Bernardo Álvares fotografia Nuno Martins

A loja de discos Trem Azul estreou-se como bar no passado dia 29 de Novembro com dois concertos. Nem o frio desmotivou a enchente de gente que quis comemorar esta nova etapa com o lançamento de um novo disco da Shhpuma e a actuação de um grupo norueguês.

No discurso de abertura da noite, Pedro Costa, o “boss” da lisboeta Trem Azul e da sua editora de jazz, Clean Feed, referiu-se a um “nós” alusivo à classe de interessados e curiosos (músicos, críticos, espectadores, etc.) do circuito musical em que se insere a empresa, loja de discos e, a partir do passado dia 29 de Novembro, também bar. Costa justificou a abertura deste com a junção de duas das coisas que “nós” mais gostamos: música e copos.

Mas, se por um lado pode ser um regalo ver uma sala cheia e em festa para concertos como os que se ouviram, por outro, devido à natureza detalhística destas práticas sonoras, a música ao vivo pode ter sido prejudicada pela participação especial de Caixa Registadora nas percussões e de Público nas vozes. 

Chegámos lá

Timespine 

O primeiro concerto esteve a cargo dos Timespine, que assinalavam o lançamento do seu CD homónimo pela Shhpuma, parte da santíssima trindade da qual também fazem parte a Trem Azul e a Clean Feed. O trio constituído por Adriana Sá (zither, electrónica), Tó Trips (dobro) e John Klima (baixos) constrói uma música verdadeiramente multicultural, a começar pelo “background” dos seus elementos e pela escolha de instrumentos.

O dobro utilizado pelo músico conhecido, sobretudo, pelo seu duo de fado-western Dead Combo é um instrumento inventado por um “luthier” eslovaco-americano na busca (da qual mais tarde nasceria a guitarra eléctrica) de ampliar a projecção sonora da guitarra. O zither (ou cítara, na tradução portuguesa) é tradicionalmente encontrado na Europa Central e de Leste, mas com família directa na Ásia, sendo o koto e o zheng, respectivamente, dos instrumentos mais utilizados nas músicas tradicionais do Japão e da China.

Fiel a uma linguagem muito própria e bem consolidada, Tó Trips pontuou o concerto com apontamentos harmónicos quase a soar a uma estética definível, mas sem nunca o serem. Americano imigrado em Portugal e antigo membro do grupo pop Presidents of the United States of America, John Klima criou linhas de baixo que, noutro contexto, poderiam ser um bom acompanhamento de rock ou música electrónica. Neste contexto, Klima acrescentou uma coerência e um sentido ao som geral, apenas para perpetuar a peculiaridade esquisita conquistada. A artista multidisciplinar Adriana Sá foi o elemento desestabilizador, a líder dissonante deste trio. Entre dedilhações folk “new-weird-America” e um trabalho de arco perfurador e perturbador, a música transportou o som do grupo para a contemporaneidade. Chegámos ao futuro. 

Som Clean Feed

Kjetil Jerve 

O segundo concerto da noite esteve a cargo do Lana Trio, constituído por Andreas Wildhagen (bateria), Kjetil Jerve (Fender Rhodes) e Henrik Munkeby Nørstebø (trombone). Não existe propriamente um “som Clean Feed”, nem os Lana gravam para a editora portuguesa, mas ainda assim, e como referiu Pedro Costa no discurso de abertura, o som deste trio da Noruega é muito idêntico à estética Clean Feed. Grande parte da responsabilidade de ter sido mais fácil catalogar esta formação do que a primeira deve ser atribuída a Kjetil Jerve, que mostrou o quão “jazzy” pode soar um piano eléctrico Fender Rhodes.

A transgressividade na arte deve ser vista de acordo com o contexto cultural. Tirando o fogo de Mats Gustafsson e outras excepções associadas às editoras Rune Grammofon e Smalltown Superjazz, é normal não se sentir no jazz escandinavo a mesma necessidade de afirmação nos sopros que em países onde não é transgressivo atirar uma beata para o chão. Aquilo que é, no entanto, mais interessante na abordagem de Henrik Munkeby Nørstebø ao trombone não é a inventividade, mas sim o controlo. Embora o espaço em festa da Trem Azul possa ter dificultado a concentração da audiência, a contenção do trombonista pautou a actuação (lembremos que Nørstebø gravou um álbum a solo para a editora Creative Sources, associada ao “near-silence”).

Um dos grandes momentos do concerto deu-se com Nørstebø a gritar controladamente com o trombone e Jerve a jogar com alterações de ritmo contrapostas nas teclas mais graves. Muita desta música exploratória vive da exploração (perdoe-se a redundância) dos instrumentos. Poderá, no entanto, ser interessante pensar a relação desta exploração com instrumentos emprestados, como acontece regularmente a músicos com instrumentos de grandes dimensões a tocar longe de casa. Andreas Wildhagen pareceu, literalmente, estar a explorar a bateria de que se serviu, brincando recorrentemente com a estridência da tarola e desenhando farpas no som dos colegas. Embora tendencialmente mais desconstrutivo, Wildhagen ia deixando uma cauda sonora a vibrar depois dos ataques.

Se a prestação dos noruegueses pode ter pecado pela longa duração, o “encore” energético compensou tudo. Fosse como fosse, era apenas parte daquilo que marcou esta festa de (re)inauguração: um “nós” que transbordava para a Rua do Alecrim.