Akira Sakata / Giovanni Di Domenico, 13 de Janeiro de 2014

Akira Sakata / Giovanni Di Domenico

Veludo vermelho

texto Bernardo Álvares fotografia Nuno Martins

O concerto do passado dia 10 de Janeiro na Culturgest juntou dois “irmãos”: um japonês já em idade madura que foi um pioneiro do free jazz no seu país e um italiano que é uma inquietante promessa da música europeia…

O mais recente concerto do ciclo Isto é Jazz?, realizado a 10 de Janeiro na Culturgest, marcou também o lançamento do álbum “Iruman”, editado pela portuguesa Mbari, que reúne Akira Sakata e Giovanni Di Domenico. O primeiro é uma lenda viva do (free) jazz japonês, tendo igualmente marcado a história do jazz europeu e americano com colaborações notáveis com Manfred Schoof e Bill Laswell, entre outros.

Di Domenico é um jovem pianista italiano, sediado em Bruxelas mas com inúmeras ligações a Portugal. Recentemente, pudemos vê-lo tocar na ZDB com o trio The Eggstream (acompanhado por Pak Yan Lau e Norberto Lobo) e com o colectivo Hassan El Gadiri & Trance Mission (do qual também faz parte João Lobo, baterista de Lisboa radicado na Bélgica). Com Hugo Antunes, outro português dentro da cada vez mais digna de atenção cena musical belga, gravou recentemente o álbum “Posch Scorch”, com ilustres como Nate Wooley, Daniele Martini e Chris Corsano.

Juntos, fazem jus ao título escolhido para o CD (“Iruman” é uma palavra japonesa derivada do Português “irmão”), funcionando como dois irmãos intergeracionais e transnacionais. O facto de não partilharem a mesma língua materna (quer literal quer musicalmente) não os impediu de encontrarem num jazz em sentido muito lato um espaço de diálogo.

Numa altura em que se fala do regresso de “Twin Peaks”, não podemos deixar de reparar no ambiente lynchiano para o qual fomos transportados pelas cortinas de veludo vermelho do Pequeno Auditório da Culturgest. Se as primeiras notas melosas saídas do saxofone alto de Akira Sakata poderiam fazer lembrar as composições de Angelo Badalamenti, o universo de David Lynch foi oscilando com tantos outros mundos muito distintos entre si.

Por vezes evocando um classicismo europeu desalinhado com qualquer tendência ou estilo, Di Domenico dedicou-se a “atirar” para o som do duo elementos de diversas linguagens. Um dos momentos mais interessantes da noite deveu-se ao seu trabalho pontilhístico no piano (a lembrar a escola de improvisação inglesa, mas com laivos (ar)rítmicos que se poderiam ouvir nas cerimónias Sufi), em resposta aos “gritos” do saxofone de Sakata.

Os quatro temas tocados (contando com o “encore”) foram repartidos entre dois Akiras. O primeiro, munido de sax alto, englobava em si uma cultura nipo-euro-americana a emanar Ayler e Brötzmann, numa abordagem decerto que “old school”, mas ainda a soar a nova. O segundo Sakata presenteou-nos com uma junção atípica de clarinete, percussão e voz, esta em monstruosas vocalizações que contribuíram para a criação de situações de absurdo musical, que é aquilo de que tanto gostamos.