Egberto Gismonti, 8 de Março de 2014

Egberto Gismonti

Tudo em cima

texto Nuno Catarino

Os anos avançam, mas o guitarrista e pianista brasileiro continua no topo das suas faculdades musicais. No CCB, protagonizou mais um concerto inesquecível.

Com uma ligação histórica à editora ECM, o multi-instrumentista brasileiro Egberto Gismonti é um dos rostos mais familiares da “label” de Manfred Eicher. Contudo, a sua música não se fixa nas características típicas do jazz. É verdade que já trabalhou com nomes como Jan Garbarek e Charlie Haden, mas a música de Gismonti assenta, sobretudo, numa delicada fusão: há uma natural raiz brasileira, que se combina com uma matriz clássica, cruzada com elementos jazzísticos.

O Centro Cultural de Belém encheu a 7 de Março para receber o veterano, que na noite anterior tinha actuado na Casa da Música, no Porto, com outra plateia bem preenchida. Vestido de preto, lenço vermelho na cabeça e o habitual cabelo longuíssimo. O concerto foi dividido em duas partes: uma primeira dedicada exclusivamente à guitarra e uma segunda ao piano.

Com a sua guitarra de 10 cordas, ou «violão para quem gosta de tocar piano», como já lhe chamou, Gismonti consegue ampliar a panóplia de soluções. Egberto Gismonti revelou nessa primeira parte o seu incrível virtuosismo, que não se ficou pelo malabarismo técnico – funcionou sempre ao serviço da música, sem exageros. O brasileiro atravessou vários temas do seu repertório, passando por alguns clássicos.

Além da agilidade técnica, revelou enorme criatividade pela forma como se servia da guitarra, e não apenas pelo dedilhar. Por vezes, entre o desenho da melodia e a regularidade do baixo, parecia que estavam a ser tocadas duas guitarras diferentes. Num dos temas (talvez “Dança dos Escravos”?) usou a mão direita como percussão sobre o corpo da guitarra, enquanto a mão esquerda era aplicada sobre as cordas.

Na segunda metade do espectáculo Gismonti sentou-se ao piano. Ao contrário do que fez com a guitarra – com ela abordou, sobretudo, temas rápidos, assentes em ritmos oriundos da tradição brasileira -, houve ao piano espaço para peças mais lentas e tranquilas, com maior ênfase na melancolia. Foi também então que se ouviram alguns dos mais entusiasmados aplausos da noite.

Apesar de não se ter dirigido ao público durante quase todo o concerto, na parte final aproveitou para compensar e estabeleceu uma conversa (monólogo) com o público durante alguns minutos, referindo a sua especial ligação com Portugal, e contou uma divertida história sobre a sua composição “Palhaço”. Muito aplaudido, Gismonti não fugiu à obrigatoriedade do “encore”. Com esta apresentação voltou a confirmar-se como um senhor de magnífica técnica que merece sempre ser visto e aplaudido.