Ken Vandermark / Paal Nilssen-Love + Yaw Tembe, 16 de Março de 2014

Ken Vandermark / Paal Nilssen-Love + Yaw Tembe

Lição de postura

texto Bernardo Álvares fotografia Nuno Martins desenho Rita Draper Frazão

Em mais um duplo concerto da ZDB falado na língua do jazz e da improvisação, o saxofonista norte-americano, o baterista norueguês e o trompetista swazi mostraram como os formatos de duo e solo não têm necessariamente de ser “introspectivos”…

Coube a Yaw Tembe abrir a noite na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. O jovem luso-swazi tem-se vindo a afirmar enquanto uma das grandes promessas da cena musical portuguesa, colaborando com muitos dos grandes da praça e cimentando os seus projectos Sirius, Zarabatana e, a solo, Círculo de 3 Pontas. Sem a parafernália electrónica de Círculo de 3 Pontas, Yaw estreou-se a solo em nome próprio.

O músico que também é escultor apresentou-se no passado dia 14 de Março com trompetes preparados: o primeiro a escorrer água das tubagens e o segundo, de bolso, com tubos embrenhados nos pistões.

Yaw Tembe

Naquilo que foi uma lição de postura, Yaw Tembe dominou os elementos água e sopro, qual artista xamã guardião do sentido da vida. Aqueles que têm vindo a acompanhar o ainda curto percurso deste trompetista puderam notar algumas características particulares da linguagem que tem vindo a desenvolver, mas nem por isso foram menos espantosos os sons que ninguém acreditaria poderem sair de um trompete.

Deixámo-nos levar pelo som para no fim ficar a sensação de que o concerto merecia ter-se prolongado.

Ken Vandermark e Paal Nilsen-Love trouxeram, por sua vez, um bailinho free ao aquário da ZDB. Com clarinete, saxofones tenor e barítono e bateria, Vandermark e Nilssen-Love puseram a audiência a abanar a cabeça com um enorme rol de influências musicais, explorando uma abordagem algo surpreendente que fez lembrar as marchas estilo “second line” numa versão pós-bop com muito funk à mistura.

Ken Vandermark

Paal Nilssen-Love

Foi particularmente interessante ouvir o trabalho de Nilssen-Love sem baquetas e o enorme poder do clarinete, um instrumento cujo som pode ser associado a delicadeza, mas que nas mãos de Ken Vandermark, mesmo sem amplificação, se torna num instrumento diabólico.

Com um som híbrido entre aquilo que estes músicos nos têm habituado, dos efémeros 4 Corners a Spaceways Inc., pode ainda ter sido uma surpresa ouvir estes músicos a brincarem com as dinâmicas de volume, vindo por vezes “respirar” a territórios mais calmos.

Mesmo com uma compreensível gestão de esforço (com muitas datas que se avizinham), incapazes de tocar mal, estes gigantes deram um grande concerto.

Yaw Tembe

Ken Vandermark