Martial Solal, 30 de Março de 2014

Martial Solal

Adeus, Lisboa

texto António Branco fotografia Hervé Hette

O pianista francês despediu-se do público lisboeta com um memorável concerto a solo. Assistimos emocionados e já com saudades do toque de génio de um dos nomes europeus mais relevantes da história do jazz.

Todos quantos rumaram – e foram muitos – na noite da passada sexta feira ao Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, estavam preparados para uma noite de despedida. Martial Solal está prestes a completar 87 anos e decidiu retirar-se dos palcos (sabe-se que está a recusar propostas de concertos para 2015). Apenas cinco meses depois de se ter apresentado na mais recente edição do Guimarães Jazz com a sua Decaband, esta foi, certamente, a derradeira oportunidade para o escutarmos ao vivo em Portugal.

Todos o compreendemos e aceitamos, ele e nós, ainda que renitentemente. Mas as despedidas nunca são fáceis. Solal entendeu que o adeus deveria ser um solo absoluto, cara a cara com o seu público, num momento pessoal, sentido e íntimo, usufruindo de um oásis de liberdade. O motivo da anunciada decisão passa pela assunção de que as condições físicas já não lhe permitem o desempenho musical de outrora, sendo que, porém, nada disso evidenciou. Antes pelo contrário.

O pianista francês nascido em Argel apresentou-se com aspeto jovial e em boa forma, mostrando uma intacta coordenação cérebro-atuadores, o longevo gosto pela ousadia e pelo risco e o seu proverbial humor (apesar de pouco ter comunicado verbalmente).

Solal ainda está na posse de muitas das faculdades pianísticas que fizeram dele um gigante do jazz europeu, o que não será alheio à disciplina férrea a que se entregou ao longo da sua carreira, visto dizer que pratica hoje muito menos do que noutros tempos. 

Em torrentes

 

Partindo de uma abordagem claramente norte-americana (embora seja relativamente pouco conhecido nos Estados Unidos), Solal – para quem não existe um “jazz europeu” – continua detentor de uma pessoalíssima e desafiante visão do jazz, que conflitua com a própria história do género, cruzando a herança de pianistas dos anos vinte/trinta (Hines, Tatum, Waller, Wilson) com a mais visionária música erudita (Stravinsky, Schoenberg), elementos que interagem numa matriz com intenso travo bebop (Monk, Powell), o subgénero em que se fez músico.

Na música que brota em torrentes da mente de Solal continuam a esboroar-se as noções de velho e de novo, de tradicional e de moderno. Permanece angulosa, imprevisível, fragmentada, contrastante, multicolor.

E sim, está lá a notável capacidade para fazer dos “standards” algo seu, ainda que deixe pistas claras para o seu reconhecimento por parte do público. Notáveis as transfigurações que operou em “Caravan” (velho tema do porto-riquenho Juan Tizol, popularizado pela orquestra de Ellington em plena era do swing), “Well You Needn´t”, píncaro “monkiano”, e o luminoso “Corcovado”, de Jobim.

Um concerto transbordante de emoção, onde pontuais traços de cansaço foram sempre implacavelmente superados pela força da música. Parafraseando Shakespeare, foi uma despedida, mas tão doce que eu escutá-lo-ia até que amanhecesse o dia. A nota solitária com que Martial Solal disse adeus ecoa-me na cabeça desde então.