Festa do Jazz no S. Luiz, 8 de Abril de 2014

Festa do Jazz no S. Luiz

Montra portuguesa

fotografia Carlos Paes texto Rui Eduardo Paes

O Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, voltou a encher para mais uma edição, a 12ª, do festival que é a principal montra do jazz português. Miguel Moreira Sexteto, João Hasselberg, Jacob Sacks Ensemble e Powertrio protagonizaram os melhores concertos…

Na sua 12ª edição, a Festa do Jazz no S. Luiz voltou neste início de Abril (dias 5 e 6) a fazer o retrato do jazz que se faz em Portugal, com incidência no “mainstream” mas incluindo igualmente algumas propostas mais experimentais ou fora do comum. Como vem sendo habitual, foi uma enchente de público, com uma numerosa componente de estudantes de jazz que lá estiveram, sobretudo, para assistir às actuações do concurso de Escolas de Música, mas não deixaram de espreitar os 10 concertos agendados – cinco em cada dia, numa estonteante sucessão.

Este ano, o director artístico do festival, Carlos Martins, introduziu uma inovação no programa: em vez de apenas ter dois ou três convidados estrangeiros a interagir com os músicos nacionais, convidou duas figuras de relevo do jazz norte-americano (Jacob Sacks) e europeu (Steffen Schorn) para montarem novos projectos em residência artística. O saldo foi, mais uma vez, entusiasmante, com boa música a acontecer e a menos boa a nunca passar abaixo da mediania. O que é um sinal claro de saúde, num país que convida a cruzar os braços… 

Daniel Bernardes Trio +1

Daniel Bernardes 

Daniel Bernardes Trio +1

Em apresentação esteve o disco “Nascem da Terra”, num concerto que aliou uma perspectiva lírica do trio de piano jazz, muito inspirada em Bill Evans, com aspectos da música erudita do período impressionista. Com pouco espaço para a improvisação, o foco esteve nas composições do pianista Daniel Bernardes, caracterizadas por um pronunciado e melancólico melodismo. O violoncelo de Raquel Merelho pouco mais fez do que acrescentar uma cor e reforçar as conotações clássicas, com a dupla rítmica constituída pelo contrabaixo de António Quintino e pela bateria de Joel Silva a garantir a sincopação jazzística. Ainda que muito formal e presa nas suas próprias estruturas, a proposta convenceu pela sua elegância e pelas atmosferas criadas. Soube, de qualquer modo, a pouco…

Miguel Moreira Sexteto

Miguel Moreira 

João Mortágua

Num dos melhores momentos desta edição da Festa do Jazz, o Miguel Moreira Sexteto casou com inteligência a qualidade das composições, muito “rifadas” e energéticas, com solos improvisados particularmente afirmativos e soltos, sobretudo da parte do líder, o guitarrista Miguel Moreira, e dos dois saxofonistas, João Mortágua – um músico a que precisaremos de estar atentos no futuro – e Mário Santos. De resto, a acção combinada desta dupla de sopros, em uníssono ou contraponto, mais parecia em certas ocasiões toda uma secção de sopros de um “ensemble” maior. Os temas eram os do álbum “Câmbio”, uma edição da Porta-Jazz que mais uma vez vem confirmar a solidez e o dinamismo do jazz que se toca no Porto. 

Nuno Ferreira Septeto

Nuno Ferreira 

Luís Cunha

Estreia de um novo projecto com uma música que, apesar de muitíssimo bem tocada – ou não estivessem no palco improvisadores como Luís Cunha, João Mortágua ou João Hasselberg –, se assemelhou demasiado a mil coisas já ouvidas. Nuno Ferreira é um guitarrista exímio e intrigante, utilizando o seu instrumento quase na vertical, mas está demasiado colado à linguagem de um John Abercrombie para realmente fazer a diferença. Foi um concerto longo e aborrecido que nada acrescentou e nada arriscou, apenas se ficando por demonstrar perícia técnica individual e sentido de conjunto. O jazz é, no entanto, criatividade e não a preguiçosa reprodução de modelos estafados. 

João Hasselberg “Whatever it is You’re Seeking, Won’t Come in the Form You’re Expecting”

João Hasselberg 

Diogo Duque

Em outro dos pontos altos do festival do S. Luiz, o contrabaixista e compositor João Hasselberg recriou ao vivo o que lhe tínhamos ouvido no álbum que lançou em 2013 e conquistou um lugar em várias listas dos melhores discos do ano. Para quem não conhecia este, dadas a sua quase estruturação como uma suite e o seu carácter conceptual, terá sido algo complicado compreender a sequência lógica das peças, mas os resultados compensaram a dificuldade. Boas ideias composicionais, revelando um autor de grande personalidade, combinaram-se com préstimos instrumentais merecedores do maior aplauso, a começar pelo saxofonista alto Ricardo Toscano, pelo trompetista Diogo Duque e pelo próprio Hasselberg, executante de mão cheia. Foi muito, muito bom. Até na perspectiva de que entrar pelos domínios da pop não significa necessariamente uma banalização do jazz. 

Jacob Sacks Ensemble

Jacob Sacks 

João Barradas, Diogo Duque e Ricardo Toscano

Se a 12ª Festa do Jazz tivesse sido apenas este concerto bastaria para ter um balanço positivo. O pianista norte-americano Jacob Sacks esteve numa semana de residência artística em Lisboa com seis finalistas e recém-formados do curso de jazz da Escola Superior de Música de Lisboa, a saber Ricardo Toscano, Diogo Duque, João Barradas, Pedro Branco, Romeu Tristão e João Pereira, e daí saiu algo de extraordinário e que só é possível descrever como tendo estado na vizinhança do Miles Davis do período de transição para a fase eléctrica e da aplicação por George Russell do seu Lydian Chromatic Concept. Com base numa enorme economia de notas e na obsessiva repetição de motivos e sua minimalista variação, o que se ouviu ilustra bem a qualidade desta novíssima geração de músicos, bem como a sua abertura a situações diferentes. Sacks ria-se, maravilhado a ouvir o que fizeram Barradas no acordeão, Toscano no sax alto e Duque no trompete. Cinco estrelas. 

Powertrio

 

Eduardo Raon

Joana Sá

Foi excelente, também, a prestação do Powertrio de Joana Sá, Eduardo Raon e Luís José Martins. Improvisou-se livremente, improvisou-se dentro de composições do grupo e interpretou-se uma peça da compositora erudita Constança Capdeville. O facto de não haver jazz no ADN do projecto fez com que alguns ouvidos deformados não percebessem que estava a fazer-se grande música e comandaram os passos para fora da sala, mas a perda foi só deles. Num registo suave e hipnótico, com preparações do piano (Sá) e da harpa (Raon) e processamento electrónico desta e da guitarra (Martins), aquilo a que assistimos teve quase sempre uma dimensão liliputiana e de “bricolage” sonora, com múltiplos e pequenos elementos a cruzarem-se no ar sem se perceber, por vezes, de onde vinham. Simplesmente magnífico. Não era jazz? E depois? 

Liftoff

Jeffery Davis 

Nelson Cascais

As composições deste quarteto co-liderado por Óscar da Graça e Jeffery Davis eram francamente desinteressantes, porque muito redondinhas, herméticas e sem pinga de identidade própria. E no entanto, que fabulosos músicos tivemos ali. Graça, Davis, Nelson Cascais e Alexandre Frazão conseguem fazer de quaisquer materiais, por mais pobres que pareçam, um banquete. Foi o melhor dos exemplos de como a execução pode esconder ou mesmo menorizar a partitura, apesar de as estantes de música estarem muito visíveis diante dos intervenientes. São instrumentistas virtuosos, mas no sentido em que já ultrapassam o aprumo técnico, transformando-o em capacidade de argumentação e de imaginação. Não fora a limitada escrita e teria sido perfeito… 

André Fernandes

André Fernandes 

Inês Sousa e Demian Cabaud

Um dos nossos mais cativantes guitarristas, compositores e líderes de grupo estreou na Festa do Jazz um novo “opus” de pop-jazz, “Wonder Wheel”, que não está ao nível do que nos habituou. Os temas são composicionalmente ricos, com recursos por vezes surpreendentes nos contextos em causa, mas o problema parece estar no modo como se aplicou o formato. Tudo gira à volta da voz de Inês Sousa, e esta não revelou a força, a projecção, que a música pedia. Também a escolha dos efeitos de guitarra não ajudou: esta manteve o mesmo registo adocicado em todo o concerto, mesmo quando a envolvência implicava outros usos. Demian Cabaud e Frazão estiveram impecáveis, mas seria de esperar mais dos solos de Mário Laginha. O alinhamento incluiu uma sentida versão de “Lilac Wine”, de Jeff Buckley, músico rock especialmente talentoso que desapareceu demasiado cedo… 

Ficções

"Dudas" 

Guto Lucena

Estava há algum tempo adormecido, este projecto de Rui “Dudas” Pereira que se estreou há mais de 20 anos. A receita de fusão do jazz com as sonoridades mediterrânicas e ibéricas teve desfechos desiguais ao longo da actuação, desde o apenas curioso até ao óptimo. O guitarrista deu espaço solístico a João Paulo Esteves da Silva, que o utilizou brilhantemente ao piano (afinal, o universo sefardita é aquele em que se move), e a um Guto Lucena que, apesar de parecer perdido, nos ofereceu alguns preciosos momentos nos saxofones soprano e alto. O que implicou que “Dudas” surgisse pouco, apesar dos três cordofones que o rodeavam – além da seis-cordas, uma guitarra de 12 e um oud, o ancestral alaúde árabe que tocou numa suite de tributo à Palestina. 

Steffen Schorn & Universe of Possibilities

Steffen Schorn 

Universe of Possibilities

O festival fechou com a prova final de outra residência artística, conduzida pelo multi-instrumentista alemão Steffen Schorn e envolvendo músicos de jazz e clássicos. O estranho é que, se estes últimos estavam envolvidos para darem dimensão orquestral ao projecto, sem qualquer função improvisativa, a participação de um instrumentista com comprovadas capacidades nesse âmbito, o clarinetista Paulo Gaspar, limitou-se ao acrescento de uma cor – todos os solos de sopro que não do próprio Schorn estiveram entregues a João Guimarães (que, por sinal, esteve bem). Um desperdício incompreensível, pois. Os conceitos aplicados foram, “ipsis verbis”, os da tendência third stream, e soaram irremediavelmente a velhos. Foi tudo demasiado certinho e germânico – mesmo quando se mergulhou na música brasileira –, contrastando apenas a improvisação em clarinete contrabaixo do visitante.

Escolas de música: resultados da competição

Foram estas as escolhas do júri constituído por Paulo Barbosa, Carlos Barretto e Leonel Santos para vencedores da competição de escolas de música… Melhor Combo: Escola de Jazz Luís Villas-Boas / Hot Clube de Portugal (menção honrosa para o Conservatório de Música de Coimbra); Melhor Instrumentista (piano): Ruben Almeida (da Interartes Cascais, com menção honrosa para a cantora Liliana Fartaria, da Escola de Luís Villas-Boas).

Na secção de Escolas Superiores, o prémio de Melhor Instrumentista foi para Eduardo Cardinho (vibrafone), da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, com menção honrosa para o baterista Guilherme Melo, da Escola Superior de Música de Lisboa. O Melhor Combo foi o da Universidade Lusíada de Lisboa.