Chick Corea, 2 de Junho de 2014

Chick Corea

A solo é que a gente se entende

texto António Branco

O antigo líder dos Return to Forever regressou a Portugal para se apresentar no mais intimista dos formatos e não desiludiu ninguém. Breves notas a propósito de um concerto inclassificável, com o qual o pianista deixou todos mais felizes.

Ponto prévio: se há informação que considero despicienda no exercício de perfilar um dado músico é o número de Grammys ou de prémios similares obtidos. E tanto mais assim é quanto mais significativa for a obra desse músico. Não considero que a relevância artística de alguém se possa aferir pelo número de galardões de qualquer espécie atribuídos pela tantas vezes nebulosa “indústria” musical e do espetáculo.

Músico com um percurso semi-centenário mais do que reconhecido – desde que, na década de 1960, tocou antes de Thelonious Monk no Apollo Theatre (época a que chamou “universidade”) e desbravou mares elétricos nunca antes navegados, ao lado do capitão Miles – Chick Corea tem explorado uma miríade de diferentes contextos.

Não faria sentido algum exaltar aqui os seus pergaminhos e virtuosismo. É um histórico e escutá-lo (porventura ao contrário de outros da mesma geração...) jamais se revela inócuo ou banal. Corea sabe como poucos concentrar as múltiplas dimensões estilísticas numa abordagem única e eclética, reiterando o absoluto domínio da(s) tradição(ões) e, ao mesmo tempo, o firme propósito de não se deixar balizar por ela(s).

Foi, sobretudo, esta notável capacidade de efetuar uma síntese a partir de elementos de proveniência distinta – no mais intimista dos formatos – que sobressaiu do concerto que o pianista norte-americano deu na noite do passado sábado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. 

Entrada com “smartphone”

Entrou em palco sorridente, tirou fotografias do público (que esgotou a sala) com o seu “smartphone”, agradeceu, pediu para ajustarem as luzes. Preencheu a primeira parte do recital com peças de pianistas/compositores que o marcaram, de uma forma ou outra, guiando-nos numa excursão pelos alicerces da sua visão pessoal da música e do instrumento.

Deu a sensação de que ia seleccionando o repertório em tempo real, em função da concatenação que no momento lhe surgia como mais adequada. Começou por si próprio, com a toada soalheira de “Armando's Rhumba”, dedicada ao seu pai (Armando é também o seu nome próprio). Passou por Jobim (“Desafinado”) e pelo velho “standard”, de Jimmy Van Heusen, “It Could Happen to You” sem que algo de muito especial realmente acontecesse.

Mais interessantes foram a mutação que operou em “Sophisticated Lady”, de Ellington, a bela leitura de “Waltz for Debbie” (Bill Evans), e, sobretudo, a exploração das harmonias angulosas de “Work”, de Monk. Surpreendeu quando juntou “Pastime Paradise” de Stevie Wonder à Mazurka em Lá menor op. 17 n.º 4 de Fryderyk Chopin, aproximando dois universos que só a presunção (e a ignorância) teimam em separar.

Na segunda parte apresentou apenas composições suas, como “Continuous”, esquecida na gaveta vai para 20 anos e redescoberta na preparação desta digressão a solo, e “The Yellow Nimbus”, que com o seu aroma andaluz fez recordar Paco de Lucia. 

Parada e resposta

 

Tal como tem vindo a ser hábito nesta série de recitais, Corea chamou ao palco dois jovens pianistas: o Vítor e o Dinis não desperdiçaram a oportunidade e, à vez, partilharam as 88 teclas com o mestre, momentos que certamente jamais esquecerão. O pianista tocou ainda uma seleção de “Children´s Songs” e regeu, como também tem vindo a fazer, um diálogo de parada e resposta com um público que apreciou a manobra.

As características essenciais do seu pianismo permanecem intactas: a elegância melódica, a gestão rigorosa de articulações e dinâmicas, a fluidez consequente na improvisação.

Chick Corea continua a saber reinventar-se a cada nota, sobretudo improvisada. No último concerto desta digressão de dois meses a solo, o pianista transformou o Grande Auditório do CCB numa sala intimista com um recital diversificado, como é seu apanágio, que deixou mais feliz quem a ele assistiu. Convenhamos que nos tempos que correm já não é nada mau.