Sun Ra Arkestra, 5 de Junho de 2014

Sun Ra Arkestra

Viagem espacial

texto Nuno Catarino fotografia Vera Marmelo

A mais cósmica das “big bands” veio a Lisboa homenagear Sun Ra no seu 100º aniversário, e também os 90 anos de Marshall Allen. O saxofonista ainda mantém toda a genica – Herman Blount não podia ter melhor herdeiro nos comandos da sua nave…

O clube B.Leza acolheu a actuação da Sun Ra Arkestra, de regresso a Portugal depois de ter actuado no festival de Vilar de Mouros em 1982, no Jazz em Agosto em 1985, ena Casa da Música em 2005. No ano em que se celebra o 100º aniversário do fundador Sun Ra (nascido Herman Blount) e o 90º aniversário de Marshall Allen, actual líder da formação, o concerto está integrado naquela que é apresentada como uma “Jubilee Tour”. Este concerto em Lisboa foi organizado pela produtora Filho Único, no seguimento da passagem pelo festival Primavera Sound de Barcelona e um dia depois da actuação no Serralves em Festa.

Na amena noite de segunda-feira, 2 de Julho, o espaço do Cais do Sodré encheu para receber a Arkestra. Liderada pelo veteraníssimo Allen, e mantendo o espírito do fundador já desaparecido, a orquestra espacial reúne um conjunto alargado de músicos: uma voz, quatro saxofones, três metais (trompete, trompa, trombone), guitarra, piano, contrabaixo, bateria e dois músicos nas percussões. De Marshall Allen partiam as indicações, no papel de maestro, que apesar da idade demostrou desde logo uma improvável genica. O saxofonista Knoel Scott coadjuvava na função directiva, sempre que necessário.

A música do grupo assentou num ritmo alicerçado em “groove”, sobre o qual os instrumentistas foram trabalhando cada tema de forma dinâmica. Por cima dessa estrutura estável os sopros improvisaram com alta intensidade, no melhor estilo saturniano. O som da sala não estava perfeito e registou-se um desequilíbrio, sobretudo ao nível dos metais, que ficaram algo escondidos - destes teria valido a pena destacar principalmente a trompa. Individualmente foram dignos de nota alguns solos dos saxofones.

Sem a capacidade de outrora, mas com um sorriso permanente, Marshall Allen serviu-se do sax alto para emitir rugidos, mas com uma energia inesperada. Além do alto, Allen utilizou também um instrumento de sopro electrónico com efeitos psicadélicos (o Steiner EVI), o que contribuiu para aprofundar a viagem espacial em curso.

Ao longo quase duas horas de concerto, sempre vivido numa toada festiva, o grupo atravessou composições muito diversas, passando por temas como “Angels and Demons at Play”, o “standard” “Stars Fell on Alabama” e “Swirlin’”. O final aconteceu com os músicos a saírem do palco enquanto tocavam e cantavam “We Travel the Spaceways”. Atravessaram a plateia em procissão e regressaram ao palco para aí receberem a merecida ovação final. Foi uma bela homenagem a Sun Ra, cuja música continua viva.