MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 7 de Junho de 2014

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Improvisos & sardinhada

texto Bernardo Álvares e Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

E vão cinco. O “congresso” dos improvisadores teve mais uma edição no fim-de-semana que levou Maio para Junho, com uma maratona de concertos que teve ainda mais participantes, nacionais e estrangeiros, do que em anos anteriores. Foi uma festa.

Na sua 5ª edição, o MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia mostrou mais uma vez o porquê de ser o Natal da família da improvisação. Aquilo que começou como um pequeno encontro de amigos é hoje um fim-de-semana que se alastra em vários eventos pré e pós-MIA, a aproveitar a mais ou menos fugaz estada em Portugal dos improvisadores internacionais que se deslocam a Portugal para viverem esta experiência única no mundo que, este ano, juntou cerca de 70 músicos.

O dia zero das programações oficiais contou com um “workshop” orientado por Carlos “Zíngaro” que resultou num concerto com todos os participantes. Depois, Maria Radich e Luísa Brandão cantaram em duo na Igreja de São José. Para o assumir da festivalização do MIA contribuiu a “jam session” no Armazém dos Tubos, que avançou pela madrugada até os músicos não aguentarem mais.

Nos dias 31 de Maio e 1 de Junho esteve na entrada do Auditório da Sociedade Filarmónica uma exposição de José Félix da Costa com fotos das primeiras quatro edições do MIA. 

Porque hoje é sábado

Albert Cirera 

Fernando Simões

Christophe Berthet

Naoto Yamagishi

O primeiro momento musical de sábado foi um concerto do grupo multidisciplinar italiano Lessintellective Audiovisual Ensemble. O projecto reúne os percussionistas Dario Nitti e Antonio Valente, acompanhados na ocasião por José Bruno Parrinha no saxofone alto, e um fotógrafo, Claudio Nitti, que fez projecções em tempo real. O LAE não conseguiu, no entanto, afirmar-se como uma proposta convincente, com as partes pouco oleadas entre si.

Os grupos sorteados que ocupam a maior parte das tardes são a representação máxima do espírito deste encontro e foi para esse contexto de risco máximo que se saltou de seguida., Formaram-se pequenos combos entre todo o pote de músicos presentes para que cada um improvisasse sem rede por cerca de 10 minutos. O que se ouviu foram “as músicas (im)possíveis hoje” de que tratara “Zíngaro” no seu “workshop”, tocadas por bandas que só o acaso podia imaginar. A gestão sonora fez-se sob uma aura anarquista de sensibilidades musicais em harmonia ou confronto.

O nível médio das improvisações resultantes foi alto, embora algumas combinações menos felizes tivessem puxado a qualidade para baixo. Essa é uma inevitabilidade, quando músicos menos fluídos nestas linguagens partilham o palco com outros já bem rodados. O certo é que o MIA tem um propósito pedagógico e os principiantes, ou os menos experimentados, só têm a ganhar neste raro convívio com mestres da improvisação.

Aliás, é essa uma das vertentes deste encontro, servir como mostra internacional de talento. Será importante destacar o incrível trabalho demonstrado por músicos como o baterista/percussionista Naoto Yamagishi, o trombonista Carlo Mascolo, o trompetista Giuliano di Cesare, o escultor de instrumentos Marco Scarassatti, o clarinetista Noel Taylor ou o saxofonista Albert Cirera (catalão que tem sido uma peça muito importante na cena lisboeta nos últimos meses). Entre as forças da natureza portuguesas são de assinalar as presenças de Miguel Mira e Abdul Moimême, bem como de uma nova geração em processo afirmativo, caso dos membros da Associação Terapêutica do Ruído.

Mas como não só de formações aleatórias é feito o MIA, no jardim da Casa da Tauria assistiu-se à prestação de uma fanfarra que não foi tão bizarra como estava anunciado e tão-pouco se pode considerar uma verdadeira fanfarra. Seja como for, a Fanfarra Bizarra deu um grande concerto no final da tarde de sábado. O destaque natural foi para os trombonistas. Fernando Simões contagiou toda a secção de sopros (completada por dois percussionistas, Carlos Godinho e Pedro Castello Lopes, e pelo violinista Gil Dionísio) com o andamento bem-disposto de quem toca melhor em boa companhia. Carlo Mascolo, o outro trombone pilar desta “big band”, não deixou cair a dinâmica e lançou-a em direcção a lugares muito interessantes.

Para o primeiro concerto da noite de sábado tivemos a Camerata Nocturna de Carlos “Zíngaro”, Maria do Mar, Christophe Berthet, Fernando Guiomar e Maria Radich. A vocalista foi a responsável pelos momentos de maior interesse desta actuação, nas suas tentativas de empurrar os outros músicos para fora de um enquadramento na música de câmara.

O programa da noite fechou com outro dos momentos mais esperados desta iniciativa realizada no concelho de Peniche: os chamados Ensembles MIA, dedicados à prática da improvisação dirigida. No sábado, coube a Paulo Curado, Maria do Mar e João Pedro Viegas a direcção das orquestras. Cada um com o seu estilo pessoal e com maior ou menor nível (dentro do pouco ou muito pouco) autoritário, foram eles que sugeriram os caminhos a ser percorridos.

A “jam session”, que se prolongou mais uma vez pela noite fora, deu para ouvir num contexto informal os músicos mais resistentes. (B.A.) 

Domingo de sardinhas

Red Ensemble 

Marcello Magliocchi

Matthias Boss

Pedro Castello Lopes

Após a já habitual sardinhada regada a tinto de domingo, já bem entrada a tarde, a música recomeçou com um dos pontos altos do MIA de 2014 – o quarteto de guitarras e baixos D.O.M.S., constituído por Abdul Moimême, Paulo Leal Duarte, Louis Schild e Raphael Ortiz. A distorção eléctrica pode mesmo ser esculpida, e foi isso o que aconteceu. A salva de palmas no final da intervenção não podia ter sido mais entusiástica.

As apresentações em sorteio seguintes tiveram frutos desiguais, como seria de esperar, com um destaque muito especial para o grupo que juntou no palco os trombones de Fernando Simões e Carlo Mascolo – com ambos a picarem-se um ao outro – e o saxofone alto de José Bruno Parrinha. Foram uns minutos intensos, mas com um apurado sentido de construção a equilibrar a projecção de energia.

Num regresso à Igreja de S. José, um acontecimento muito especial. Sob a direcção de Manuel Guimarães, o Red Ensemble juntou as crianças que tinham estado num “workshop” de invenção de instrumentos aos seniores Carlos “Zíngaro”, Paulo Curado, Marco Scarassatti, Ricardo Ribeiro, Alvaro Rosso, Miguel Falcão e João Parrinha. A interacção com os mais novos foi proveitosa, e a excitação de um dos miúdos acabou por tornar a “performance” ainda mais divertida. Riam-se os músicos e ria-se o público.

Já à noite, começou por actuar o quarteto Instant Chamber Music, com Marcello Magliocchi, Maresuke Okamoto, Matthias Boss e Paulo Chagas. Foi um exemplo de como também com grandes músicos uma improvisação pode correr menos bem. Muito devido à insistência de Okamoto em continuar, ignorando as deixas dos seus companheiros para uma conclusão a preceito. Com o problema adicional de que nada o contrabaixista japonês tinha para acrescentar, cavando círculos atrás de círculos numa prestação que se tornou monótona.

O termo do encontro chegou com mais três Ensembles MIA, indicando a entrega de todos os envolvidos uma comum percepção de que a festa estava a acabar. Isso apesar de a leitura dos cartões de Gloria Damijan, que conduziu uma das orquestras, obrigar a uma concentração redobrada. Para o ano haverá, com certeza, mais, até porque algo como o Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia é para preservar. (R.E.P.)