Wayne Shorter Quartet, 11 de Junho de 2014

Wayne Shorter Quartet

Sem rasgos

texto Paulo Alexandre Jorge

Foi uma máquina demasiado bem oleada que se apresentou a 8 de Junho na Casa da Música. Tudo se fez com grande competência, mas tudo também soou igual e não se correram riscos. Sobretudo, houve Wayne Shorter a menos…

Sala esgotada na Casa da Música para assistir ao concerto do Wayne Shorter Quartet, no passado dia 8 de Junho. Visita rara ao Porto de um dos grandes intérpretes da história do jazz. As expectativas eram muito altas. Curiosa a intergeracionalidade do público, de gente muito nova a alguns dos habituais maduros frequentadores dos concertos de jazz na cidade. Ouviram-se seis temas relativamente longos e ainda houve um “encore”, em hora e meia de concerto.

Há um elemento que aparece como fundamental no jazz, a improvisação. Há ritmos jazz, há progressões harmónicas jazz, há formas jazz, há um “feeling” jazz e há a improvisação. É esse elemento que distingue, decididamente, o jazz de outros géneros musicais. Os blues aproximam-se: a forma dos blues considera, em determinado momento, a possibilidade de alguém criar algo de completamente novo. No jazz, a própria forma pode ser inusitada. No jazz a improvisação é a constante.

Como encontrar o caminho a partir do acaso sonoro, como fazer caminho a partir do desconhecido e em direcção do desconhecido? Conhece-se o esforço do músico de jazz para não morrer na improvisação. É essa a grande motivação, no entanto, para continuar vivo.

No concerto percebeu-se que o quarteto de Wayne Shorter é uma máquina, e de resto uma máquina muito bem oleada. Demasiado bem oleada. A forma é a fórmula. A fórmula permite que os momentos de improvisação aconteçam com segurança. Percebo a criação dessa fórmula como modo de encarar o medo. Cria-se a fórmula, cria-se a lógica e tudo pode acontecer com segurança, tudo pode resultar, até a aparente improvisação livre. Faltou, no entanto, o risco, o inusitado, o imprevisto. Faltou a sensação de morte e de transcendência.

A fórmula: introduções feitas pelo piano de Danilo Perez (oferecendo a harmonia que será a base de toda a música que nos próximos minutos se fizer e escutar, e oferecendo igualmente notas chave e melodias chave), seguidas de um reforço de Patitucci no contrabaixo, ao qual se junta Brian Blade nas percussões e na bateria. Wayne Shorter soará mais tarde, depois de a base estar segura e relativamente desenvolvida.

Foi deste modo durante toda a actuação. Introduções feitas pelo piano de Danilo Perez (oferecendo a harmonia que foi a base de toda a música que se fez e escutou), seguidas de reforço por Patitucci no contrabaixo, ao qual se juntou Brian Blade nas percussões e na bateria, soando Wayne Shorter mais tarde.

Nesta fórmula, houve demasiado Perez e demasiado piano. Cabendo-lhe estender o tapete sonoro e musical para toda a banda, foi ele também o responsável pelas transições entre os momentos musicais que dentro dos temas organizadamente surgiam. Sem grandes alterações de andamentos, sem grandes contrastes rítmicos, sem grandes surpresas de exploração harmónica e quase sempre no mesmo registo, o piano de Perez tornou-se monótono. Os temas sucederam-se com eficácia mas sem grandes rasgos, dando a sensação de um concerto todo igual. E foi um concerto longo.

Brian Blade é o nervo do quarteto. Um nervo inquieto. De elevada qualidade no tratamento sonoro das peles e dos metais, usou com exactidão e expressividade diversas baquetas, cuidou do modo de abafar ou destapar peles e metais. De vez em quando, utilizou várias percussões ao longo da sessão. Ritmicamente nervoso, passaram por Blade alguns dos poucos períodos de maior tensão e exaltação. Tem uma batida de caixa e de “crash” poderosíssima.

Houve dois momentos de aplauso a solos durante o concerto e Blade esteve nos dois. Quando já a prestação ia no terceiro tema, decorridos cerca de 50 minutos e após uma explosão de ritmos e volumes que quase o fez sair do banco, e durante o tema seis e no final deste, na sequência de um crescendo fabuloso de toda a banda.

Com um som cheio, Patitucci reforçou a harmonia que Perez ofereceu. Jogou no plano rítmico com Blade. Não tocou sempre. Parou e assistiu à música que os colegas faziam. Foi competente. Fez parte de um todo, enquanto peça da tal máquina muito bem oleada. 

Positivos e negativos

 

Dado positivo: o quarteto respirou sempre em conjunto, como um único ser. Foram impressionantes os desenvolvimentos dos temas no que diz respeito à contenção conjunta e às alterações de dinâmicas (passando lenta e consistentemente de “pianos” a “fortes” – seguidos de habituais cortes súbitos para, novamente, o “piano”).

Outro factor positivo: o quarteto não tem líderes. Mas tem Wayne Shorter a menos. Pode compreender-se a opção; pode entender-se a procura nesta fase da vida do saxofonista. Mas o certo é que tem pouco Shorter.

Wayne Shorter diluiu o seu saxofone no som do projecto. Surgiu sempre depois de o tapete estar estendido. Iniciou a actuação no tenor. Apenas ao terceiro tema passou para o saxofone soprano. No sax tenor surgiu com um som rugoso, feito de muito sopro e grão, uma surpresa inicial. E com uma abordagem minimal, tocando espaçadamente apenas notas simples do acorde. Vieram depois pequenos farrapos de melodias incompletas, sugerindo as presentes no último disco da banda, “Without a Net” (Blue Note).

Quando passou para o soprano, o seu som ficou limpo, cristalino. Shorter aumentou a velocidade de execução ascendendo a registos tensos. Mais tarde voltaria ao saxofone tenor numa exploração muito parecida com a realizada na abertura, com mais ar, mais grão, mais sujidade. Terminou em soprano (tentando atingir os altíssimos por três vezes na noite) e terminei eu com a sensação de que foi mais interessante a sua execução no tenor.

Ovação de pé no final do concerto. Em consideração a Wayne Shorter, decerto. Em consideração à elevada qualidade da máquina, penso. E porque por cá ainda se conhece pouco do jazz.

“Encore” e nova ovação de pé. Porque ainda se conhece pouco.