Carlos “Zíngaro” / Fred Lonberg-Holm / Chris Corsano, 15 de Julho de 2014

Carlos “Zíngaro” / Fred Lonberg-Holm / Chris Corsano

Com o tempo certo

texto Nuno Catarino fotografia Silvana Torrinha

No segundo concerto de uma edição do Jazz no Parque que está a definir-se pela diferença, o trio luso-americano estreou-se da melhor maneira com peças curtas e a surpresa adicional de “Zíngaro” e Lonberg-Holm terem tocado guitarra eléctrica, para além dos seus respectivos violino e violoncelo.

Reformulado na sua essência, o Jazz no Parque ganhou uma nova vida nesta edição de 2014. Promovido pela Fundação de Serralves, o ciclo continua a apresentar concertos de jazz no campo de ténis de Serralves nos fins-de-semana de Julho, mas a orientação estética é agora significativamente diferente. Sob a direcção artística de Rui Eduardo Paes (ensaísta, editor da jazz.pt), que substituiu o antigo programador António Curvelo, o evento do Porto lança novas ideias: promete maior ênfase ao jazz europeu, promove o encontro de músicos nacionais com internacionais e dá especial atenção aos projectos do Porto.

O Jazz no Parque arrancou no dia 5 de Julho com a actuação do grupo Pata Generators de Norbert Stein – por causa do mau tempo, esse primeiro concerto não pôde acontecer ao ar livre, tendo decorrido no auditório do Museu de Serralves duas horas depois. Já para o segundo concerto estava um calor imenso, o que tornava a permanência ao sol quase desconfortável. Ainda assim, foi em número razoável o público que se deslocou a Serralves para assistir à actuação do inédito trio de Carlos “Zíngaro”, Fred Lonberg-Holm e Chris Corsano.

“Zíngaro” (violino), Lonberg-Holm (violoncelo) e Corsano (bateria) são três extraordinários improvisadores, com riquíssima experiência em universos musicais muito díspares. Para este encontro a curiosidade estava ancorada na capacidade de adaptabilidade, diálogo e comunicação entre os três músicos. O grupo teve um arranque coeso, com as cordas interligadas - violino e violoncelo em diálogo tranquilo - e a bateria a entrar delicadamente. O primeiro tema foi curto (menos de 5 minutos), com os músicos talvez ainda a “apalpar terreno”, com uma postura mais contida e sem grande risco, mas globalmente interessante e eficaz.

Ao segundo tema passámos para o nível seguinte: de início, o violoncelo de Lonberg-Holm arrancou sons estranhos, com o arco a passar directamente na madeira; em contraste, o violino de Zíngaro desenhava linhas mais claras, numa tentativa de estruturação. Violoncelo e violino evoluíram depois para uma interacção de cordas, com Corsano a entrar depois, tranquilamente, nas vassouras, quase sussurrando. Já em trio, chegou um crescendo não demasiado explícito, que se desvaneceu na altura certa.

Chegados à terceira improvisação surgiu a maior surpresa do concerto (e um dos seus pontos altos): Carlos “Zíngaro” e Fred Lonberg-Holm trocaram os seus instrumentos por guitarras eléctricas... 

Tensão crescente

 

Esta foi uma novidade no caso de “Zíngaro”, que nunca se tinha apresentado em público com aquele instrumento. A dupla de guitarras foi particularmente curiosa e complementar: por um lado, Fred Lonberg-Holm usou a guitarra servindo-se da mais pura distorção; em contraponto, Carlos “Zíngaro” optou por uma versão pontilhística, explorando um dedilhar mais artesanal (seria abusivo evocar John Russell ou Derek Bailey, ou terá lembrado algo a meio caminho entre os dois?). Entre as guitarras e a bateria o grupo procurou uma direcção comum e convergiu numa natural evolução de tensão crescente. Mais para o final, “Zíngaro” regressou ao violino.

A seguir entrou Corsano a solo, esgaravatando percussões menos habituais, com o arco a “serrar” no prato (um recurso que já se tornou uma das suas imagens de marca). Também Lonberg-Holm fugiu à previsibilidade, primeiro usando o violoncelo para percussão, depois mimetizando cantos de pássaros. Com “Zíngaro” e Corsano a massa sonora foi progredindo num trajecto comum, incluindo um momento de pergunta-resposta entre violoncelo e violino. Neste momento a intervenção da percussão, comedida, fazia-se notar sem se sobrepor às cordas.

A formação mostrou inteligência ao trabalhar temas concisos, que demoraram o tempo certo, sem se perderem em divagações desligadas.

Para o quinto e penúltimo tema, voltou a serenidade (ainda que apenas de forma temporária). O começo foi calmo e mais exploratório, ancorando-se nas ideias da bateria - atenção aos discos a solo de Corsano (por exemplo “The Young Cricketer” e “Blood Pressure”), que mostram não só a sua técnica prodigiosa como a sua versatilidade. O trabalho de Chris Corsano era complementado pela guitarra eléctrica de Lonberg-Holm (regressada, cheia de distorção) e o violino agora endiabrado de “Zíngaro” - e pelo céu passou mais um avião a complementar o “drone”. Apesar da sujidade sonora e da aproximação ao rock, estranhamente esta peça acabou com o trio a encontrar-se em uníssonos quase perfeitos.

Para o final, “Zíngaro” tomou a iniciativa da liderança, depois secundado pelo violoncelo, desde logo acompanhados por Corsano. Aqui entrou-se num ambiente mais delicado e “Zíngaro” aproveitou para mostrar a sua faceta clássica, desenhando cornucópias melódicas, num registo que foi evoluindo para formas mais rugosas. Explorando também o pizzicato, o violinista conduziu depois a música do trio para um final grave. Após os aplausos, o trio regressou ao palco para um “encore”: abrasivo, tenso e curto (cerca de três minutos).

O Jazz No Parque prossegue nos próximos dois fins-de-semana. A 19 de Julho actua o Cuarteto Europa de Baldo Martínez (com Dominique Pifarely, Samuel Blaser e Ramón López). A 27, o ciclo fecha com a actuação do novo grupo Branches, que reúne músicos das associações portuenses Porta-Jazz e Sonoscopia.