Jazz im Goethe Garten, 21 de Julho de 2014

Jazz im Goethe Garten

Edição especial

texto Rui Eduardo Paes, Nuno Catarino, Bernardo Álvares e Tiago Varela fotografia Luísa Ferreira e Nuno Martins

Foi a uma edição (a 10ª) muito especial do evento organizado pelo Goethe Institut que se assistiu este mês de Julho em Lisboa. Ouviu-se óptima música, atestando o elevado grau de saúde do jazz europeu. O destaque máximo vai para as prestações do Émile Parisien Quartet, dos Weisse Wande e do Rodrigo Amado Motion Trio com Rodrigo Pinheiro…

A 10ª edição do Jazz im Goethe Garten teve um programa especial – ao todo foram 11 os concertos que tiveram lugar no jardim do Goethe Institut, em Lisboa, em finais de tarde que não dispensaram as já famosas salsichas e cervejas alemãs do festival. Num dos dias entrou-se mesmo pela noite, pois a oferta foi em dose dupla. Sem sombra de dúvida, o melhor cartaz de sempre concebido pelo director artístico do evento, Rui Neves, com a maior parte das prestações muito, muito acima do nível médio da qualidade. Sim, o jazz europeu está em alta.

 

Rodrigo Amado Motion Trio & Rodrigo Pinheiro

Rodrigo Amado 

Rodrigo Pinheiro

Foi um Motion Trio bem diferente do habitual aquele que abriu o Jazz im Goethe Garten no ano em que se realizou a sua décima edição. Em parte porque o convidado «muito especial» (no dizer de Rodrigo Amado) foi o pianista Rodrigo Pinheiro, mas também porque o timoneiro da formação, Amado, estava claramente apostado em seguir por vias menos habituais para o grupo. Se este é conhecido pelas suas explosões de energia, numa bissectriz que vai do pós-bop para o free e, por vezes, até para os abstraccionismos próprios da música improvisada, nesta circunstância passou com alguma demora pelos tempos lentos, por uma produção sonora suave e, inclusive, por melodismos de belo efeito.

A actuação acabou por entrar pelo tipo de atmosferas “cósmicas” do John Coltrane tardio e do jazz criativo que, na década de 1960, iniciou toda uma nova escola com referentes espirituais. Se bem que a inclusão do piano de Pinheiro em nada se assemelhasse com o estilo de um McCoy Tyner. O músico do Red Trio foi igual a si próprio: prenhe de ideias, oportuno nas suas introduções e respectivos desenvolvimentos, ora evidenciando o seu gosto pelas linhas fragmentárias de um Thelonious Monk e a percussividade de Cecil Taylor, ora cruzando essas perspectivas com o seu compêndio de – muitas vezes com alcance poético – elementos da música contemporânea. Rodrigo Pinheiro ampliou o campo de acção do Motion Trio e introduziu novos equilíbrios.

Rodrigo Amado teve boa oportunidade para dar largas ao seu particular estilo de intervenção – criar uma música integralmente improvisada com um discurso estruturado e melódico que mais parece composto. Fê-lo de forma muito afirmativa, com um seguro “estou aqui” que faz falta a muito do jazz nacional, mas também com um lirismo que poucas vezes, antes desta actuação, tinha sido tão evidente e tão assumido. As suas duas filhas estavam sentadas no chão, diante do palco, e entre sopros ele sorria-lhes.

Miguel Mira foi uma âncora de incrível solidez no seu violoncelo com função contrabaixística, mantendo “grooves” fixos habitualmente estranhos à estética do free jazz, e Gabriel Ferrandini esteve em dia particularmente feliz, jogando com as dinâmicas da sua bateria, numas ocasiões rendilhando, texturando, noutras impondo polirritmias e arritmias de enorme influência para os resultados finais. Portugal esteve representado da melhor maneira na mostra do jazz hoje feito na Europa que é o JiGG, e tanto assim que, nas contas finais, acabou por ser um dos melhores dos 11 concertos programados por Rui Neves. Jardim cheio, com toda a gente a aplaudir, de pé. (R.E.P.) 

Weisse Wande

 Christian Reiner

A prestação dos austríacos Wasse Wande foi a grande surpresa de todo o festival. Deram mesmo a entender porque é que o nome do trio é Parede Branca: começam a partir do zero e predispõem-se à imprevisibilidade. Se o texto de apresentação prometia um cruzamento entre declamação e música, nada faria supor o vendaval que ia acontecer. O actor e escritor Christian Reiner não lê propriamente poesia, faz das palavras vocalizações com tanto valor musical quanto dramático. E mais: as torrentes do seu “spoken word” não são um exercício de memória – tudo o que disse foi improvisado, e fluiu sem hesitações, num incessante, incansável, poderoso “stream of consciousness”. Este crítico não compreende a língua alemã, mas os germano-falantes que estavam presentes no concerto riam-se e iam comentando o carácter surrealista e sarcástico das intervenções.

Os dois instrumentistas que estavam com Reiner eram igualmente surpreendentes. Karl Ritter é um guitarrista de mão cheia. O seu instrumento acústico estava “micado” ao extremo, permitindo-lhe evocar e controlar toda a ordem de “feedbacks”. Ou seja, combinava as vantagens pontilhísticas de uma guitarra de caixa com os efeitos eléctricos de uma guitarra “solid body”. Tratava-se, muito obviamente, de um virtuoso, mas a sua atitude era deliciosamente autodestrutiva – de resto, tocou o último tema enquanto arrancava, uma a uma, todas as cordas. Já inutilizado, o “bicho” continuava a emitir som.

Foi igualmente intrigante ver Herbert Pirker tocar tanto quanto ouvi-lo, sobretudo quando tocava bateria com uma mão ao mesmo tempo em que, com a outra, retirava linhas de baixo e fundos paisagísticos de um computador. Pirker ora desenrolava mantos percussivos concretistas, ora encarrilava por motivos pulsativos muito próximos do punk mais desbragado, revelando uma assombrante flexibilidade. Foi mais um exemplo de como se está a fazer música desafiante, por estes dias, na Áustria, com o público totalmente rendido à excelência do projecto. Obrigado, Rui. (R.E.P.) 

Umberto Petrin

 

O vento soava algo agitado por entre as árvores ao terceiro dia de jazz no jardim do Goethe Institut, e nem por isso os fantasmas se fizeram rogados. O piano de Umberto Petrin abriu-lhes as portas e tudo foi insólito e belo. Sucederam-se pequenas histórias de um livro de contos que se devoram numa assentada; histórias concisas, autónomas e intensas, cada uma com o seu universo e o seu enredo próprios, a fluir sempre com uma singular clareza discursiva.

Aqui e ali a forma conto deu lugar a um longo poema. Ainda sem nome porque tudo nasceu ali mesmo (como referiu o próprio Petrin, ao terminar o primeiro tema improvisado). O concerto começou assim, num rompante de improvisação livre com um léxico avassalador: era preciso captar a atenção dos ouvintes para o que se ia suceder, desviar-lhes a mesma do rumor das árvores e preparar campo para a voz dos fantasmas que iriam surgir logo no segundo tema (“Traces and Ghosts”, assim se chama o último álbum deste membro da Italian Instabile Orchestra, editado pela inglesa Leo Records). Em “Lugosi” acalmou-se a música, mas não os ânimos (que, aliás, se mantiveram ao longo de toda a actuação) e no meio do mistério instalado pela banda sonora de um filme de terror o próprio vento esteve incluído. Mesmo a sirene da ambulância que passou ao largo, direita a São José, foi parte integrante.

A esplanada estava rendida: em “Metal D”, a terceira peça, soou um combo, concretamente um trio. Ouviu-se claramente a percussão, numa batida obsessiva, depois um baixo virtuoso e inventivo e a pungente voz principal. Umberto Petrin sabe, como não muitos pianistas, usar a independência de mãos em fraseados que se justapõem na vasta tessitura do instrumento. De um lado e do outro com idêntica destreza e liberdade e com uma mão esquerda verdadeiramente impressionante.

A técnica e o virtuosismo ao serviço de uma fórmula simples e muito antiga: o recuo até à música que se desenvolve na horizontal, com vozes que se cruzam, livres ainda da descoberta (do peso) da harmonia. A linguagem jazz do piano de Petrin apodera-se desta herança ao mesmo tempo que usufrui das liberdades intrínsecas à improvisação dos conquistadores do free, contribuindo claramente para o enriquecimento da vertente europeia do jazz. 

Virou-se mais uma página e eis que surgiu nova surpresa: desta vez o tema era repescado de um trabalho anterior em torno da obra e das ideias de Joseph Beuys. Agora era de um manifesto que se tratava: música completamente orquestral, sons contínuos, imensas notas suspensas pelo pedal. A massa sonora desenvolveu-se num arco de “crescendum” e “decrescendum”, para dar vez a uma conversa amena e introspectiva, por via de uma linguagem mais clássica e que culminou num pianíssimo até ao silêncio da pausa final.

Seguiram-se composições de Ornette Coleman intercaladas por improvisações livres, menos estruturadas, mas sempre com a preocupação de juntar à performance um novo fragmento singular. “Street Woman” retomou o fulgor e a capacidade inventiva que aparecera logo na primeira intervenção. Já em “Lorraine”, a melodia da exposição temática, nostálgica e bela na tonalidade menor, em vez de ser desenvolvida apareceu como intrusa, um recorte de memória que, de súbito, deu lugar a um discurso contrastante por via de uma abordagem tendencialmente polifónica.

As histórias de fantasmas não são para adormecer, não necessitam de uma voz harmoniosa e harmonizada a condizer. Estas histórias são mesmo para ser assim, contadas a várias vozes que se sobrepõem e nos transportam para outras paragens. (T.V.) 

Mikko Innanen & Innkvisitio

 

Quarteto oriundo da Finlândia, este Innkvisitio mostrou-nos uma formação pouco habitual: sem contrabaixo e com dois palhetistas. O líder, Mikko Innanen, já nos tinha visitado recentemente como membro dos Free Moby Dick de Stefan Pasborg - fazendo revisões jazz de clássicos rock, passaram pelo Jazz ao Centro, pela Culturgest e pela SMUP (Parede).

Envolvido em múltiplos projectos, o jovem saxofonista finlandês conseguiu mesmo estabelecer um trio com os enormes William Parker e Andrew Cyrille. Neste quarteto, mostra as suas ideias na condição de líder, trabalhando o saxofone alto e o clarinete. O experiente Fredrik Ljunkvist (numa função por vezes ocupada pelo ascendente Liudas Mockūnas) foi o destaque natural do grupo. Nos saxofones tenor e soprano, o sueco Ljunkvist trabalhou solos intensos que, mais do que complementarem o sopro do líder, roubavam os holofotes a Innanen, acabando este por ser remetido para a sua sombra.

Um dos argumentos mais curiosos deste quarteto era o sintetizador de Seppo Kantonen, que ora por vezes se remetia a mimetizar a função de baixo/contrabaixo, ora se explanava na produção de sons electrónicos alienígenas. Já o baterista, Joonas Riippa, cumpriu o seu papel, sem se expandir.

Sempre com intensidade média-alta, neste concerto não se ouviu a habitual participação da natureza (os passarinhos, o vento nas árvores). O único factor externo que nos chegou foi só o ruído de um helicóptero, que até se interligou muito bem com o som forte da banda. (N.C.) 

4s

 

Do Luxemburgo chegou o grupo 4s, que juntava Pol Belardi (baixo eléctrico), Jerôme Klein (piano), David Fettmann (saxofones) e Niels Engel (bateria). Liderada pelo baixista Belardi, sempre discreto, a banda trabalhou uma música que balançava entre os tempos lentos e médios, numa permanente toada tranquila. Ouviam-se pontuais crescendos, mas sempre controlados.

O piano de Klein foi uma peça central no quarteto, uma âncora estável que segurou a música do grupo. Entre o saxofone alto e o clarinete baixo, Fettmann foi desenvolvendo uma boa interligação com os seus parceiros, embora tivesse sido pouco expansivo.

O concerto incluiu a versão de um tema dos noruegueses psicadélicos Motorpsycho, mas passou sobretudo por originais, como o óptimo “Delusions of Grandeur” (de um novo disco, a sair muito em breve) ou “I Like Airports Much Better Than Train Stations” (óptimo título). O público gostou e pediu um “encore”, que se fez com "Resolution Revolution". (N.C.) 

Konstrukt

Kohran Futaci 

Foi a primeira vez que um grupo da Turquia veio ao JiGG. Aliás, terá sido mesmo a primeira vez que tivemos um grupo turco de jazz em Portugal. Por vezes fazendo lembrar o húngaro Akosh S na inclusão de pequenas percussões e flautas de madeira na sua reciclagem do free jazz para o século XXI, o quarteto de Kohran Futaci, Umat Caglar, Ozun Lista e Kohran Arguden apresentaram um sabor etnicista sem entrarem pelos territórios da chamada world music. Esses recursos serviram para um acrescento de exotismo, o que pode não ser uma boa ideia, mas resultaram de forma natural e agradável.

O sax alto de Futaci tinha claras referências em saxofonistas do free hoje menos procurados como inspiração, designadamente Noah Howard ou Charles Tyler, e tal contribuiu para a diferente abordagem que testemunhámos. O que lhe ouvimos parecia alimentar-se de si mesmo, ganhando sempre novas consequências, numa lógica discursiva algo distinta da que temos no Ocidente europeu. O problema da actuação dos Konstrukt foi a decisão de tocar um único longo tema durante todo o concerto: o que se intencionou como um caudal criativo, de desenvolvimento lento apesar do balanço acelerado, acabou por cansar os ouvintes.

Se Kohran Futaci é um magnífico soprador, sentimentos mistos provocaram-me os outros elementos do quarteto. Caglar pareceu-me bem mais interessante no teclado MIDI (regra geral utilizado como piano eléctrico e sintetizador) do que como guitarrista, tendendo nesta vertente para situações demasiado expectáveis. Lista tocou contrabaixo, em vez do seu normal baixo eléctrico, e achei-o demasiado rígido, enquanto o veterano Arguden pecou à bateria por alguma falta de enfoque.

Seja como for, foi interessante assistir a um entendimento da música como um novelo que se desenrola, muitas vezes culminando em passagens de intensidade elevatória, como se se tratasse de um ritual. Foi uma estreia decente, mas podia ter saído melhor. (R.E.P.) 

Cortex

Thomas Johansson e Kristopher Alberts 

Uma característica do jazz europeu, e muito em particular do nórdico, é o equilíbrio procurado entre composição e improvisação. Originários da Noruega, os Cortex recordaram mais a associação de John Zorn e Dave Douglas do que propriamente aquela em que têm matriz e que reivindicam, a do quarteto fronteado por Ornette Coleman e Don Cherry. A escrita do grupo é algo maneirista, mas é quando os desenvolvimentos e os solos surgem que está a magia do grupo. São estes que dão maior relevo às estruturas (e lá emergiam estas quando menos se esperava, somando interesse), não o contrário.

O trompetista Thomas Johansson e o saxofonista alto e tenor Kristopher Alberts são músicos exímios, e ao longo do concerto pareciam desafiar-se um ao outro, para cada vez melhores desfechos. Mas o que faziam não teria acuidade se não fosse a magnífica secção rítmica que tinham a suportá-los. Ola Hoyer (contrabaixo) e, sobretudo, Gard Nilssen (bateria) constituem o coração do projecto e mantêm a chama viva.

Com uma abordagem enraizada na história e uma sonoridade a condizer, o certo é que esta formação acrescenta alguns pontos mais ao que já foi feito com este modelo instrumental. É actual e fresca, que nunca revivalista, celebratória e muito menos passiva no que respeita ao seu alinhamento estético. (R.E.P.) 

Silo Trio

Christophe Berthet 

Silo Trio com Rui Neves

A representar a Suíça, o JiGG recebeu no dia 14 o Silo Trio. Vinz Vonlathen, na guitarra e na voz, comandou as hostes, contando com Christophe Berthet nos saxofones alto e soprano e com Julian Sartorius na bateria.

O início do concerto foi contido, com o saxofone de Berthet entre uma função de acompanhamento e um desenhar de melodias fantasma a evocar um imaginário tropicalo-suíço. Vonlathen, que começou por explorar sons graves, auxiliado pelos seus muitos pedais, foi progressivamente remetendo-se a uma posição mais característica, tomando o saxofone as rédeas de uma melodia improvisada com referências no free jazz e no rock progressivo.

O uso da voz fez por vezes lembrar os vocalismos de Arto Lindsay no seu período no-wave, enquanto em outras ocasiões introduziu um ambiente de fusão étnica. Essa instabilidade de Vonlathen empurrou, em ocasiões, o grupo para desenlaces menos bem conseguidos. Foi, no entanto, ele o responsável pelo momento mais intenso da performance, com um efeito de guitarra a simular mau contacto. Os “loops” intrometidos que ia lançando foram, no entanto, um exemplo do seu uso excessivo da tecnologia.

O som geral ganhava outro brilho quando Vonlathen assumia um papel mais parecido com o do baixo (a assegurar as notas graves). Quem beneficiou disso foi Berthet, que assim ganhava mais espaço.

Sempre atento às dinâmicas do trio e a explorar timbres muito interessantes, Sartorius revelou-se como o músico mais constante da formação, e a grande surpresa do dia. O “groove” que o baterista resgatou no final do concerto fez acordar a audiência e proporcionou um bom final. (B.A.) 

Baloni

 

Apresentados como vindos da Bélgica, por ser esta a nacionalidade do seu líder, os Baloni são, na verdade, um grupo transnacional, reunindo músicos da Bélgica, da França (um franco-japonês) e da Alemanha (um franco-alemão, na verdade). O trio é constituído por Joachim Badenhorst (clarinetes soprano e baixo, saxofone tenor), Frantz Loriot (viola) e Pascal Niggenkemper (contrabaixo). Este concerto serviu de presentação do disco “Belke”, o segundo do grupo em edição da Clean Feed (o título significa “pequeno sino” em Dinamarquês, e é também o nome do gato de Badenhorst).

O trio teve um arranque tranquilo, explorando os sons dos instrumentos de forma controlada, até a viola começar a desenhar a melodia, posteriormente acompanhada pelos outros dois intervenientes, evoluindo para um diálogo entre viola e clarinete.

Ao segundo tema, um dos melhores momentos da tarde, Niggenkemper foi começando por explorar o contrabaixo com objectos. Do clarinete Badenhorst passou para o saxofone tenor: a música ganhou força e o grupo chegou a soar a uma marcha ayleriana (da fase com Michel Samson no violino). Outro dos melhores conseguimentos aconteceu à quinta peça: iniciou-se com Joachim Badenhorst num interessante e longo solo exploratório (novamente no tenor) e a dupla de cordofones, ambos com arco, juntou-se depois, desenhando um belíssimo e tranquilo manto etéreo, enquanto o sax continuava o seu caminho de exploração.

Alternando entre um universo de música de câmara e a força do free jazz, este projecto apresentou uma sonoridade assaz curiosa. (N.C.) 

Émile Parisien Quartet

 

A apresentação do Émile Parisien Quartet esteve a cargo de um representante do Institut Français que, utilizando uma mistura de quatro línguas (Francês, Alemão, Inglês e Português) em cada frase que dizia, espelhou o espírito deste festival.

O saxofonista soprano que empresta o seu nome ao quarteto ocupou o centro das atenções com a sua expressão exuberante em palco. Julien Touéry (piano), Ivan Gélugne (contrabaixo) e Sylvain Darrifourcq (bateria) completaram a formação. O início algo hipnotizante deu-se com Darrifourcq a utilizar “e-bows” num saltério ultra-amplificado, com os restantes músicos a utilizar técnicas mais experimentais sem qualquer pudor. Inesperada e oportunamente surgiu o tema, conduzido pelas melodias rechonchudas e húmidas de Parisien. A secção rítmica impunha todo o gozo, com o contrabaixo a construir um “puzzle” e a bateria com alto sentido rítmico, entre o matemático e o “groove”.

Nem a tendência comodista do jazz moderno em se colar a um “pós-rock chapa 5” nos seus momentos intensos foi suficiente para estragar o bom gosto que este quarteto incutiu à actuação. Para o fim ficou uma balada desconstruída a ecoar Coltrane, que se foi metamorfoseando para acabar energeticamente, depois de um solo do piano preparado de Touéry. Apesar de as melhores palavras para descrever este grupo – “jovem”, “criativo”, “dinâmico” e “empreendedor” – poderem ser associadas a algo insípido, o certo é que aquele que tem sido referido como o melhor “jazz euopeu” da actualidade dá muito gosto de ouvir e ver. Um grande concerto, uma grande ovação e um “encore”. (B.A.) 

Underkarl

Rudi Mahall 

Frank Wingold

Para o último dia do festival ficou reservada uma banda do país de Goethe. O quinteto Underkarl, feito quarteto devido à ausência do saxofonista Henrik Walsdorff, que perdeu o avião, mostrou-se algo desconfortável nesse formato.

O concerto começou de forma um pouco constrangida, com uma composição com melodia em uníssono entre o clarinete de Rudi Mahall e a guitarra de Frank Wingold. Não sendo uma música totalmente linear – havia uns “truques” no jazz daqueles senhores –, a secção rítmica de Sebastian Gramss (contrabaixo) e Dirk Peter Kölsch (bateria) agarrou-se a um certo tradicionalismo.

Wingold, que se servia de um gira-discos para além da guitarra, mostrou um fraco domínio desse instrumento, utilizando vinis de jazz clássico cujas batidas por vezes interferiam com o ritmo da bateria de Kölsch em “brincadeiras” que soavam a auto-sabotagem.

Embora aplicando exercícios desconstrutivos, algumas das peças roçaram perigosamente um smooth jazz pegajoso. Quando gostaríamos de ver a Alemanha novamente a marcar pontos, se voltámos a assistir a um 4-0, desta vez isso aconteceu com autogolos dos músicos que, apesar de algumas jogadas melhores, não conseguiram dar a volta ao resultado ou convencer a assistência que enchia o fabuloso jardim do Goethe Institut. (B.A.)