Kjetil Moster / John Edwards / Dag Knedal Andersen, 8 de Setembro de 2014

Kjetil Moster / John Edwards / Dag Knedal Andersen

Desenhos animados

texto Bernardo Álvares

Em noite de chuva, o trio formado por dois nórdicos e um britânico fizeram um concerto na Culturgest que, com certeza, foi para quem não estava familiarizado com a música improvisada uma sessão muito esclarecedora sobre o que é isso a que se chama improvisação. Chegou a parecer bonecos em movimento.

Um dos concertos que mais me marcaram aconteceu precisamente no pequeno auditório da Culturgest, e como parte do ciclo Isto é Jazz?. O concerto do trio de Rafael Toral, John Edwards e Tatsuya Nakatani, em Junho de 2009, foi talvez o momento que me fez aperceber das grandes potencialidades da improvisação livre. O regresso de Edwards ao ciclo programado por Pedro Costa só poderia vir acompanhado de grandes expectativas. Desta vez, o contrabaixo do britânico veio na companhia de dois noruegueses, Kjetil Møster (foto acima) no saxofone tenor e no clarinete e Erik Knedal Anderson na bateria.

O concerto do passado dia 6 de Setembro foi marcado por uma grande amplitude de intensidades. O começo foi suave e saltitante, num registo que poderia servir como sonorização de desenhos animados. Para tal muito contribuiu a técnica irrequieta de John Edwards, em postura de surpresa constante.

O saxofone arrastado de Møster começou por desenhar melodias entre o ethio-jazz e o noir-jazz. Já Knedal Andersen apostou na estilização de um Han Bennink bêbado a pregar inúmeras vezes a mesma ideia, repetindo o mesmo ritmo durante toda a actuação, como se fosse lançando um mesmo “sample” com tratamentos diferentes. Até no seu momento a solo o baterista foi capaz de segurar esse registo sem nunca decrescer o interesse.

John Edwards

Mas era nos momentos “fortíssimo” que os três estarolas se sentiam em casa. A “abrir”, os músicos continuaram a demonstrar todo o seu virtuosismo e a sensibilidade energética de que são capazes, acrescentando um argumento ao debate de que as pessoas fazem tão melhor quanto mais estão ocupadas. O concerto foi continuando a brincar com a intensidade até ao final, com os músicos cada vez mais entrosados entre si.

O público não apareceu em grande número, talvez por estar a deprimir o pós-Verão que se materializou na chuva que se fazia sentir, mas se entre a audiência esteve alguém não familiarizado com a improvisação livre, este poderá ter sido um dia determinante.