Angrajazz, 6 de Outubro de 2014

Angrajazz

Jazz na ilha lilás

texto António Branco fotografia Jorge Monjardino

A caminho da maioridade, o festival de Angra do Heroísmo cumpriu nos primeiros dias de outubro de 2014 a sua 16ª edição. O quarteto liderado pelo jovem saxofonista Ricardo Toscano chegou, viu e venceu. Como é hábito, a jazz.pt conta-lhe tudo.

A bela ilha Terceira foi em tempos o centro administrativo das Ilhas Terceiras, como era então designado o arquipélago dos Açores. A designação advém do facto de este ter sido o terceiro arquipélago descoberto no Atlântico. Por ordem cronológica do descobrimento, as Canárias eram chamadas de Ilhas Primeiras e o arquipélago da Madeira de Ilhas Segundas.

A Terceira é provavelmente a ilha com maior tradição musical nos Açores. São inúmeras as bandas filarmónicas (a mais antiga data de 1873) e as escolas de música, mais ou menos formais, que têm incutido no terceirense uma particular musicalidade. É também nesta ilha que, no contexto regional, se desenvolve a atividade mais relevante e continuada ao nível da prática e da divulgação do jazz, uma história com quase 90 anos.

Desde o início dos anos 1920 que se escuta jazz na ilha (ao início, géneros aparentados, como o fox-trot), aguçando os sentidos e despertando reações (entre o desagrado e a surpresa) em jornalistas, escritores e outros intelectuais. Vitorino Nemésio foi um deles: «Folhas secas fox-trotavam na alameda, e a sombra caiava de agonia os muros de redor», escreveu o praiense em 1920.

Atualmente, o ponto alto da atividade jazzística da ilha acontece, desde o já longínquo ano de 1999, nos primeiros dias do mês de outubro, com a realização do Angrajazz – Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo. A 16ª edição do evento decorreu nos dias 2, 3 e 4 de outubro, no auditório principal do Centro Cultural e de Congressos de Angra (foto acima), edifício erguido a partir de uma antiga praça de touros e transformado durante três noites em clube de jazz.

Eis breves notas do que por lá se viveu com todos os sentidos... 

Orquestra Angrajazz

 

Tem vindo a ser hábito desde 2002 que o festival se inicie com a prestação da Orquestra Angrajazz, projeto de formação desenvolvido pela Associação Cultural que promove o evento. Formada por músicos provenientes de várias filarmónicas da ilha – desde sempre sob a direção perseverante de Claus Nymark e Pedro Moreira (que acrescentou experiência ao naipe de saxofones) –, a “big band” terceirense exibiu algum desenvolvimento, sobretudo em termos da dinâmica coletiva.

O principal óbice continua a residir na falta de solistas com competências à altura, o que estamos em crer se ficará a dever, em boa medida, ao facto de estarmos perante músicos que vivem em insularidade, o que limita as oportunidades e, naturalmente, coarta o processo evolutivo.

Apostando num repertório baseado no universo do swing, a orquestra – bastante acarinhada pelo público – abordou diversos clássicos desse período, com especial enfoque para peças de Duke Ellington, mas também de Count Basie, Chick Webb, Benny Goodman e Tommy Dorsey. Do bornal ellingtoniano merecem nota particular as interpretações do pouco tocado “Blue Cellophane” (o trompista Edgar Marques cumpriu no papel de solista), “Cotton Tail” – desafio superado – e desse emblema de uma era que é “Take the 'A' Train”. Menção também para a leitura garrida de “King Porter Stomp”, de Jelly Roll Morton, aqui no histórico arranjo de Fletcher Henderson interpretado de forma escorreita.

A Orquestra Angrajazz continua a ser merecedora de palavras de encorajamento, pelo esforço e dedicação que vem patenteando ao longo dos anos. Porém, ainda não foi este ano que foi retomada a ideia de convidar figuras prestigiadas para tocar com a formação – prática que no passado se revelou uma interessante forma destes músicos tomarem contacto com outras mundividências e de absorverem novas metodologias. 

Joey DeFrancesco Trio

 

O segundo concerto da noite inaugural ficou a cargo do trio liderado por um dos mais reputados organistas da atualidade. Com um som fortemente ancorado na tradição jazzística do instrumento, DeFrancesco fez-se acompanhar por Jeff Parker na guitarra e George Fludas na bateria. Se Parker esteve geralmente sóbrio e acertado nas suas intervenções, o baterista revelou-se cumpridor, porém algo rotineiro.

Herdeiro natural do grande Jimmy Smith, DeFrancesco exibiu todo o seu virtuosismo sem deixar de se entregar à música de modo vibrante. Explorou o som quente tão característico do instrumento, de travo “vintage” pontuado por sinuosas linhas bop e acentuações carregadas de blues, como aconteceu em “Don Is”, peça incluída no recente “Enjoy the View”.

A empatia estabelecida entre DeFrancesco e o guitarrista foi particularmente evidente, o que reafirmou aquela que tem sido uma das imagens de marca de boa parte da sua abordagem. Na bela leitura de “Darn That Dream”, soube também ser um eficaz acompanhador, concedendo (e bem) ao guitarrista o primeiro plano. Em “Donny's Tune” – original do organista –, o trio revelou coesão e dinamismo. O líder recorreu ao trompete (com e sem surdina) para sublinhar a serenidade intemporal de outro “standard”, “Old Folks”.

A partir de certo ponto do concerto pareceu entrar-se, contudo, em velocidade de cruzeiro, instalando-se alguma previsibilidade, com o recurso a soluções discutíveis. Na versão do clássico “The Touch of Your Lips”, DeFrancesco demonstrou os seus amenos dotes vocais.

Um concerto que acabou por pecar pelo desequilíbrio, com momentos de nível aceitável a alternarem com outros francamente entediantes. 

Barry Harris Trio

 

O segundo dia do Angrajazz iniciou-se com o centésimo concerto da história deste festival e logo com uma lenda viva. Sobrevivente da segunda geração de estetas do movimento bebop, Barry Harris toca há quase oito décadas (!), tendo acompanhado figuras-chave deste movimento e das derivações que se lhe seguiram. Harris apresentou-se pela primeira vez em Portugal: esteve para vir em 1993, mas um ataque cardíaco impossibilitou-o nessa altura de se apresentar perante o público português.

Apesar da idade avançada (84 anos) e aparentando alguma debilidade física, o pianista de Detroit continua a exibir uma serenidade que lhe advém da longa experiência, ainda que já sem grandes ímpetos, como é compreensível. O seu pianismo (evocando, bastas vezes, o de Bud Powell, mas também o de Thelonious Monk, nas harmonias mais angulosas) conserva notável fluência melódica e aquela graciosidade que em tempos tanto influenciou pianistas da “motor city” como Tommy Flanagan. Características sublinhadas pela veterana dupla rítmica que o acompanhou na ocasião: Ray Drummond é um contrabaixista inventivo que com as suas linhas assume papel fundamental e Leroy Williams o baterista elegante que a ocasião impunha.

O concerto foi uma viagem no tempo, com o trio a centrar atenções sobretudo em tempos lentos, mas não se limitando a estes. Conservando um espírito jovial e comunicativo na interação com o público (mesmo quando admitiu ter-se esquecido da lista dos temas a apresentar e perante os problemas com o amplificador do contrabaixo, que a dado momento foi temporariamente desligado), Harris esteve particularmente tocante na leitura de temas como “Ruby My Dear”, de Monk, “Oblivion”, de Powell, e “She”, de George Shearing.

Especialmente comovente foi observar Drummond seguir as longas deambulações do pianista, exprimindo um misto de emoção e surpresa, ingredientes essenciais nesta música. Despediu-se, sozinho em palco, como que a segredar-nos adeus. 

Gary Smulyan Quartet

 

Se já tinha pisado este mesmo palco enquanto membro do noneto de Joe Lovano, em 2006, foi agora a vez de o saxofonista barítono Gary Smulyan – um dos mais prestigiados da atualidade – se apresentar no Angrajazz a liderar o seu próprio quarteto.

Integrando, ao longo dos anos, diversas formações – orquestras e “ensembles” de média dimensão: Mel Lewis Big Band, Vanguard Jazz Orchestra, “big band” e octeto de Dave Holland, para além do noneto referido, mas também grupos mais reduzidos –, Smulyan assume-se como continuador de uma longa linhagem de saxofonistas barítono (Carney, Chaloff, Mulligan), mas sobretudo como herdeiro direto de Pepper Adams.

Acompanhado pelos experientes Mike LeDonne – no órgão Hammond B3, ele que também já cá tinha estado, a acompanhar Benny Golson, em 2007 –, Peter Bernstein (guitarra) e Joe Farnsworth (bateria), o saxofonista não se desviou muito do enquadramento canónico, tendo ocupado expetável posição central, mas nunca impositiva, revelando cumplicidade e bons níveis de interação.

Com um registo mais aveludado do que rugoso (Smulyan faz do barítono um instrumento gracioso), construiu um programa à volta de peças como “Sunny” (versão do “hit” de Bobby Hebb), incluída em “Smul's Paradise”, álbum gravado em 2011, de onde também se escutaram o vertiginoso “Blues for D.P.” – que contou com contribuições dos quatro músicos, sendo de salientar as interações pitagóricas que se estabeleceram entre o líder, Bernstein e LeDonne – e “Up in Betty's Room”, com o seu swing soalheiro. Menção ainda para o trepidante “Heavenly Hours”, apropriação de “Seven Steps Ahead”, de Miles Davis e Victor Feldman, enxertada pela melodia de “My Shining Hour”, velho clássico de Harold Arlen. As cracas e as lapas do mar açoriano serviram ainda de inspiração para um blues conclusivo. 

Ricardo Toscano Quarteto

 

Sábado, 4 de outubro. Ao palco sobem, para o primeiro concerto da derradeira noite do festival, quatro jovens músicos portugueses que, à entrada para a sala, muitos confessam desconhecer. Lidera o quarteto o saxofonista alto Ricardo Toscano, 21 anos, mais do que uma promessa, um músico de enorme potencial. O pianista João Pedro Coelho, o contrabaixista Romeu Tristão e o baterista João Pereira (atenção aos três) completam uma formação que revelou solidez e empatia, não se remetendo à condição de mera acólita dos voos do saxofonista.

Dando-se a conhecer ao público açoriano, Toscano continua a espantar pelo conhecimento que tem da tradição do jazz e por possuir uma linguagem madura que é cada vez mais sua. As referências basilares certamente serão descortináveis, mas o saxofonista não se limita à sua reprodução, antes submete-as a um processo de destilação criativa que terá ainda significativa margem para evoluir. Na ocasião, o grupo entregou-se exclusivamente à leitura de um conjunto de peças essenciais no repertório de luminárias do género.

Tudo começou em registo baladeiro com “I Want to Talk About You”, de Billy Eckstine, da qual sobressaiu o notável solo de Toscano. Em crescendo, a prestação do quarteto ganhou outra intensidade com “One Finger Snap”, original de Herbie Hancock incluído em “Empyrean Isles”. A calmaria regressou com uma versão de “Duke Ellington's Sound of Love”, de Charles Mingus, logo contrastada pelas linhas sinuosas de “The Blessing” (Ornette Coleman) e, sobretudo, por uma estupenda recriação de “Inner Urge”, emblema de Joe Henderson.

Ainda sem discografia própria, que se aguarda, o quarteto de Ricardo Toscano deu um ótimo concerto – sem qualquer espécie de chauvinismo, claramente o melhor desta edição do Angrajazz –, contribuindo para elevar bem alto as expetativas em relação ao que o futuro trará ao jovem e talentoso músico português.

René Marie Quartet

 

A encerrar esta edição do festival, cumpriu-se o costume, poucas vezes quebrado, de aposta numa cantora. A norte-americana René Marie foi a representante de uma longa linhagem de cantoras de jazz que buscam na tradição o seu farol, sem, no entanto, deixarem de procurar o seu itinerário pessoal e de assumir os seus próprios riscos.

Acompanhada pelo pianista Kevin Bales, o contrabaixista Arnie Somogyi e o baterista Stephen Keogh, a cantora exibiu não apenas os seus apreciáveis dotes vocais, mas também a capacidade inventiva (tornando naturalmente seus os temas alheios) e de “entertainer”, cativando o público desde o início do concerto.

Ainda com o álbum-tributo a Eartha Kitt (“I Wanna Be Evil: With Love to Eartha Kitt”, do ano passado) na bagagem, Marie assumiu o seu lado mais iconoclástico e combativo (a sua história de vida não é propriamente fácil), oferecendo um concerto agradável e com momentos valorosos.

Começou com a muito pessoal “Black Lace Freudian Slip” (do álbum com o mesmo nome, de 2011), na qual explora o tema da criatividade sexual, antes de atacar “C'Est Si Bon”, que Kitt tanto cantou. Seguiu-se “My Heart Belongs to Daddy”, ilustre canção de Cole Porter, e “Free For a Day”, também retirada de “Black Lace...”. Em dueto com o baterista protagonizou um dos momentos da noite em “Come On-A My House”, tornando-o mais lento do que a maioria das versões e incutindo-lhe uma expressividade particular. “Peel Me a Grape”, com o contrabaixista em destaque, foi outro dos píncaros de uma atuação que não terminou sem a improvável junção do famoso “Bolero”, de Maurice Ravel, e “Suzanne”, de Leonard Cohen, e um regresso ao passado, com a interpretação calorosa de “Surrey With the Fringe on Top”.

Terminava assim um festival no âmbito do qual estará patente, no “foyer” do Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, até final de outubro, a exposição "Duos", com obras da fotógrafa Margarida Quinteiro.

E sim, no calendário já estão fixadas as datas da 17ª edição do certame angrense: 1, 2 e 3 de outubro de 2015.