João Hasselberg, 9 de Outubro de 2014

João Hasselberg

Como nos romances

texto Nuno Catarino fotografia Carlos Paes

O contrabaixista e compositor foi à Culturgest apresentar temas do seu primeiro álbum em nome próprio, todo ele inspirado na literatura, e mais alguns que integrarão um novo disco a sair. Os oito músicos entraram e saíram do palco consoante a música pedia, para uma sessão que primou pela originalidade.

«Float like a butterfly and sting like a bee.» Era esta a estratégia pugilística de Muhammad Ali e o contrabaixista João Hasselberg parece seguir a mesma linha. O contrabaixo de Hasselberg flutua levemente, deixando o lastro do seu som grave sobre os temas, ao mesmo tempo que pica o tempo com incrível precisão.

A actuação de Hasselberg na Culturgest a 7 de Outubro, integrada no ciclo “+351” (dedicado ao jazz português e comissariado por Pedro Costa, da Clean Feed), foi marcada pela originalidade. Apesar de ter recrutado um total de oito músicos, estes nunca se juntaram em palco ao mesmo tempo, com a excepção do agradecimento ao aplauso final.

O eixo central foi o seu extraordinário disco de estreia, “Whatever it is You're Seeking, Won't Come in the Form You're Expecting” (edição Sintoma Records). Contudo, já a caminho do segundo disco (acabado de gravar na semana passada, segundo informou), algum material novo também integrou a prestação, e logo desde o início.

O concerto arrancou de forma improvável, sem o contrabaixista. No palco estavam apenas Joana Espadinha (voz) e Luís Figueiredo (piano), que interpretaram o breve “Opening” (um dos novos temas). Já com o contrabaixista presente (e sem a cantora), foi interpretado um tema do disco de estreia, “A Wild Sheep Chase”. Seguiram-se duas peças novas - “En Madrid” e “A Dívida de Abraão” –, composições que prometem muito para o novo disco. Na bateria estava o onipresente Bruno Pedroso, um dos elementos mais solicitados, a par do pianista Figueiredo. Nessa fase inicial o destaque individual acabou por ir para o saxofonista (alto) Ricardo Toscano, com bons solos.

Regressado ao disco de estreia, um dos destaques da noite foi a interpretação de “The Ballad of the Sad Café”, com a cantora Luísa Sobral a emprestar a sua voz doce nesta homenagem à obra de Carson McCullers (que nunca chegou receber o reconhecimento merecido), enquanto Hasselberg tocava baixo eléctrico sentado no chão do palco. Seguiu-se “The Old Man and the Sea”, lindíssimo tema quasi-sassettiano, assente nas notas pingadas do piano à volta da melodia que nunca se resolve.

O alinhamento oficial fechou com mais um tema do disco de estreia, “In Cold Blood”, com quase todo o grupo em palco, incluindo o guitarrista João Firmino - discreto, só aparecendo na parte final. Desta vez, sobressaiu o trompete de Diogo Duque, com solos assinaláveis. O alinhamento fechou com “To a God Unknown” e a voz de Joana Espadinha.

A música de João Hasselberg atravessa diversos ambientes (sem vergonha de flirtar com a pop), com muita imaginação e uma frescura inigualável na cena jazz portuguesa. A apresentação ao vivo confirmou as ideias que o disco já transmitia: não temos aqui apenas um bom instrumentista, mas também um óptimo compositor. Em suma, um músico completo. Acedendo ao pedido do público, Hasselberg regressou para um “encore”, acompanhado por piano e saxofone. Final feliz, como nos romances.