Slow is Possible, 3 de Novembro de 2014

Slow is Possible

Música do carvalho

texto Rui Eduardo Paes fotografia Afonso Bastos

A residência artística do grupo que jura que “devagar é possível” não foi apenas (o que já seria muito) mais uma realização do XJazz – foi a revelação de um projecto que está ao nível de surpresas como as provocadas por Hugo Carvalhais e LUME.

No que a improbabilidades diz respeito, rumar a Fajão por via da Pampilhosa da Serra e passar por lugarejos como Venda da Gaita e Picha, distando estes apenas alguns metros entre si, é tão pouco verosímil como encontrar na aldeia do xisto a que acima se faz referência (ainda que os locais façam questão de lhe chamar vila) a nova grande surpresa do jazz nacional. Mas foi o que aconteceu na semana passada, por ocasião da residência artística, com registo de disco a editar proximamente pela JACC Records, de um grupo que dá pelo nome de Slow is Possible.

Uma surpresa ao nível da que provocaram, cá dentro e lá fora, Hugo Carvalhais ou o LUME de Marco Barroso. Este vosso amigo não estava minimamente preparado para o que ouviu numa escola primária transformada em estúdio de gravação: música assente na tradição do jazz com importações da música de câmara, da música para cinema (com ora vagas, ora mais claras influências dos “filmworks” de John Zorn) e do rock, com fortes alusões imagéticas, um raro investimento na elaboração harmónica e um assumido gosto tanto por aquele tipo de melodias que nos ficam no ouvido como por paisagismos sonoros bem mais abstractos e experimentais.

Sobretudo, o que me espantou foi estes Slow is Possible não repetirem os estereótipos e os tiques que, infelizmente, abundam no jazz feito em Portugal. A explicação descobri-a logo: João Clemente, o guitarrista e mentor da trupe, e seus demais parceiros, Bruno Figueira (saxofone alto), Patrick Ferreira (clarinete), André Pontífice (violoncelo), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria) não são músicos de jazz. São instrumentistas de música clássica que, a dada altura, se interessaram por outras linguagens, do jazz ao noise, e começaram a praticá-las.

O mais espantoso é que, tendo eles entre 24 e 31 anos de idade, o façam com tal maturidade e conhecimento de causa. O agora sexteto Slow is Possible (saiu o segundo guitarrista da banda e vai entrar em breve um pianista) é de uma frescura, uma qualidade e um sentido de risco (algo modestamente, eles ainda lhe chamam «inocência») que logo à partida os coloca à parte. 

Má influência

João Clemente e André Pontífice 

Bruno Figueira, João Clemente, Duarte Fonseca e Ricardo Sousa

Patrick Ferreira

André Pontífice

Os seis músicos vivem em diferentes cidades do interior do País e calhou encontrarem-se na Covilhã, onde frequentaram a universidade. Em paralelo com os estudos musicais eruditos foram partilhando audições que nada tinham a ver com os seus programas escolares, indo de Thelonious Monk e John Coltrane até Mr. Bungle e Keiji Haino. O primeiro a sair da moldura foi João Clemente, que mostrava aos outros as coisas que ia descobrindo, assim tornando-se na “má influência” que se mantém até hoje.

Foram desenvolvendo colaborações em conjunto, entre as quais o grupo Coffee & Cigarettes, destinado aos bares. Os Slow is Possible têm apenas um ano de vida, e ao contrário do que se possa imaginar não se designam assim por inspiração numa peça de John Cage, “As Slow as Possible”. O motivo é simultaneamente mais complexo e mais prosaico: a música em que acreditam é o equivalente à “slow food”, por oposição ao mcdonaldismo da pop actual. Aliás, era ver como degustavam os pratos servidos no único restaurante do Fajão, dirigido pelo Sr. Carlos, também o presidente da junta de freguesia.

Mas assim como “devagar é possível”, depressa também é, e alguns dos temas que vão aparecer no CD de estreia agitaram a população fajense aquando do concerto final da residência artística. Momentos antes tinha-se celebrado o magusto no largo da igreja, mas a festa continuou no centro cultural, com crianças a dançarem enquanto os Slow is Possible executavam os «espasmos» (a expressão é deles) de composições como “Chasing Bukowski” e “Waiting Like a Dog”.

Se as estruturas eram intrincadas, comsúbitas mudanças de rumo e coexistência de tempos diferentes, o carácter melódico da música “agarrou” os presentes e até conseguiu interromper as conversas familiares em dia de festejos (dia de finados, é certo, mas também um dia em que os parentes de fora voltam à “vila” para se reencontrarem com os que ficaram).

Difícil seria resistir à poesia e ao mistério de “Vejo Asas no Vento” ou à evocação dos filmes policiais de série B feita por “The Robbery”. Como os próprios, e muito cinéfilos, Slow is Possible dizem sobre o que fazem, era como que «uma mistura de David Lynch com Myra Deren».

Até os cães

Sessão de gravação 

Patrick Ferreira e Ricardo Sousa

Duarte Fonseca

Convívio

Se alguém receou a visita de um punhado de músicos (justificadamente ou não, existe muito a ideia  de que um músico é um drogado), o certo é que tal não transpareceu. Os seis jovens foram recebidos de braços abertos, com os habitantes locais a meterem constantemente conversa com eles durante os dias em que permaneceram no Fajão. Até os cães se chegavam a eles: rebaptizado como Pivete, o Teco vai ficar na memória do Patrick.

Em causa estava a campanha de divulgação das riquezas naturais e culturais das aldeias do xisto promovida pela ADXTur. O contexto desta acção – uma de várias – era o XJazz, ciclo de concertos e residências artísticas realizado em parceria com o Jazz ao Centro Clube que visa trazer aquela que é uma música urbana para o meio rural. Dessa forma proporcionando aos músicos um ambiente de trabalho mais “concentrado”, envolvendo as populações numa iniciativa artística a que não estão habituados e chamando o turismo a uma região que muitos ainda desconhecem.

Que tal tenha proporcionado a revelação de uma das mais cativantes propostas musicais destes últimos anos em Portugal é algo de extraordinário. Nada há, entre nós, que se possa comparar com o que os Slow is Possible têm para oferecer. O que estes revelam de atrevimento mostram igualmente de perfeccionismo. O Miranda, técnico de som que já colaborou com nomes exigentes como Ken Vandermark e Mats Gustafsson, que o diga, cansado da sucessão de “takes” que “Sundial”, “There For” ou “Collusion” tiveram, até chegar ao aprumo pretendido. «Fechado, mas em “stand by”», era a frase mais repetida nas audições do que se gravara antes.

O que quer dizer que se vai falar muito destes rapazes: está aqui o próximo “caso” do nosso jazz. Música que só podemos classificar como sendo “do carvalho”, para utilizar uma terminologia semelhante à escolhida para designar algumas das terras lusitanas...