Nervo, 19 de Novembro de 2014

Nervo

Antes e depois de a Polícia chegar

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

O ciclo de três concertos numa só noite voltou a ter uma edição no passado sábado e esta acabou em glória, depois de a Polícia ter aparecido no CRA por causa do nível de decibéis. Com uma balada tão intensa quanto é possível imaginar…

De vez em quando acontece. Não tem periodicidade fixa, mas o público que já conquistou fica atento ao anúncio de cada nova realização e comparece, em maior ou menor número. O nome Nervo dá já uma dica sobre os conteúdos da programação de Pedro Tavares, antigo jornalista musical (a jazz.pt vem publicando algumas das suas entrevistas reminiscentes) que agora é um dos sócios da Clean Feed / Trem Azul e desenvolve actividade como agente de formações portuguesas e catalãs… Trata-se de música com nervo, dura e para ouvir activamente.

Ricardo Graça

Regra geral é música que se vai fazendo em Portugal nos domínios do jazz criativo, da música livremente improvisada e do rock alternativo. Na sua última edição, no sábado 15 de Novembro, foi precisamente com uma banda de rock que começou a noite de três concertos no CRA, como agora é conhecido o Clube Recreativo dos Anjos, em Lisboa. Se o rock está fora do âmbito da jazz.pt, mencionar a Electric Super Sex faz, no entanto, todo o sentido: o quarteto de guitarra, teclados, baixo e bateria é o núcleo duro de um grupo que, com o acrescento de mais um baterista e do saxofonista Paulo Alexandre Jorge, entra nos domínios da improvisação - Namazoo.

Na fórmula ESS é a um retorno às bases rock que assistimos. Ricardo Graça, Zé Bica, Luís Canto e André Neves apresentaram temas que hesitam entre uma plena adesão à tendência stoner, com referências em Black Sabbath, e uma muito evidente atracção pelo rock progressivo, o que a sua música instrumental mais denuncia. Essa ambivalência têm-na eles ainda por resolver, pelo que a sua prestação foi mais interessante nos momentos em que alinharam mais claramente pelo psicadelismo do também chamado desert rock.

Hernâni Faustino

O segundo concerto foi totalmente diferente, mas com semelhante intensidade  Em apresentação um novo trio constituído por um saxofonista de topo da cena de Barcelona, mas actualmente a residir na capital portuguesa, Albert Cirera (foto no topo), e pela secção rítmica do Red Trio, designadamente Hernâni Faustino no contrabaixo e Gabriel Ferrandini na bateria. Com os pés assentes na tradição do free jazz, mas apostados na criação de uma música integralmente improvisada, os três músicos nunca se distanciaram muito dos figurinos estabelecidos nesta área de intervenção musical, mas fizeram-no soberbamente.

Se a máquina propulsiva gerida por Faustino e Ferrandini foi igual a si mesma, mantendo sempre acesa a combustão que a música exigia, sobressaíram os préstimos de Cirera nos saxofones tenor e soprano. Dois factores impressionam neste músico que já conquistou um lugar próprio em Portugal: a extrema clareza do seu fraseado e uma, nestes domínios, rara economia de notas, com cada som a surgir no instante certo, nenhum a mais ou a menos para o que era necessário e indispensável. Este tipo de contenção em música tão agitada é coisa que só alguns podem e conseguem.

Miguel Mira e Pedro Sousa

A terceira subida ao palco parecia condenada, depois de aparecer a Polícia devido a queixas de ruído por parte dos vizinhos. Tavares aconselhara alguma moderação, para não haver mais problemas, e se o trio de Pedro Sousa em saxofone tenor, Miguel Mira no violoncelo e Afonso Simões na bateria iniciaram o seu “gig” mais lentamente e com um nível sonoro comedido, a música foi crescendo, em som, em entrega, em velocidade e em densidade. O violoncelo nas vezes de um baixo e a bateria cerraram o acompanhamento e o sax centrou-se num ataque picado e de intervalos muito curtos, longe já das abordagens típicas do jazz e da improvisação “mainstream”.

Foi um sax rouco, roufenho, que se ouviu, num encadeamento de transe. E à medida que o conjunto levantava voo, os indícios que aqui e ali vinham surgindo aglutinaram-se e foi uma melodia que se declarou, em meio à abstracção. O tenor entregou-se a essa melopeia, de forma pungente, e repetiu-a, desconstruiu-a, tornou a montar as suas partes, trocou-as. Foi, para mim, um dos concertos do ano. No final, Mira despediu-se da assistência – que deu largas ao seu entusiasmo com aplausos, assobios e gritos – com a frase: «Não vamos tocar mais nenhuma balada, que é para a bófia não voltar.»