Guitolão, 2 de Dezembro de 2014

Guitolão

Transformação da serra

texto Rui Eduardo Paes fotografia Afonso Bastos

Inserida no XJazz, a residência artística do duo Guitolão na Cerdeira, aldeia do xisto no topo da serra da Lousã, teve dois momentos: a gravação de um disco a editar em Maio de 2015 e um concerto na vila da Lousã. Foi o reviver musical de um poema de José Gomes Ferreira, com Ibn Marwan, fundador árabe do Marvão, como memória de fundo.

Aconteceu tudo numa casa de xisto e madeira empoleirada na serra da Lousã, com montes e floresta à volta e dois riachos a encontrarem-se mais abaixo, tendo como fundo o ruído de água a correr sobre a rocha. De 26 a 29 de Novembro, António Eustáquio e Carlos Barretto estiveram em residência artística, para gravação de um disco a editar pela JACC Records no próximo ano. A iniciativa estava inserida na série de eventos XJazz, uma parceria do Jazz ao Centro do Clube e da ADXtur com vista a promover a riqueza natural e cultural das aldeias do xisto e a devolver estas à vida. Um concerto a 28, na Lousã, serviu para mostrar à população o trabalho realizado na aldeia de Cerdeira.

A habitual calmia da Cerdeira foi interrompida pela presença da dezena de pessoas, cada uma com a sua função, que ali se juntou para o efeito, dos dois músicos do projecto Guitolão e do técnico de som João Paulo Miranda ao Carlos, responsável pelas excelentes refeições (verdadeiramente épicos, o goulash e a caldeirada de bacalhau), passando por uma equipa de vídeo e fotografia que ora rodeava Eustáquio e Barretto, ora se metia pelos carreiros da serra à caça de imagens.

Guitolão é o nome dado ao instrumento tocado por António Eustáquio. Este foi construído pelo mestre “luthier” Gilberto Grácio segundo indicações dadas por Carlos Paredes, que na década de 1970 teve a ideia de uma guitarra portuguesa barítono. O guitolão é outra coisa, considerando Eustáquio que se trata hoje de um instrumento com identidade própria e já não uma guitarra portuguesa. Isso apesar de o músico a afinar como tal e não do modo inicialmente pensado por Paredes, que tinha alguns problemas irresolúveis.

Um a um foram-se tocando “takes” das composições seleccionadas para o CD, uns da autoria de António Eustáquio, como “Marwan”, “Na Intimidade”, ou “Poema a Uma Folha Caída”, e outros de Carlos Barretto, como “Variações em Lá”. Um par de temas, “Nem o Sol da Sesta” e “Hoje a Minha Dor é Esta”, baseia-se num poema de José Gomes Ferreira, “Transformação do Mundo”. A passagem é esta: «Hoje a minha dor é esta / no pasmo dos descaminhos: / querer deitar fogo à floresta / - mas sem queimar os ninhos / nem o sol da sesta.» É de Portugal e dos portugueses que a música trata, tal como o poema, e designadamente da nossa vontade de mudar tudo o que está mal, mas cuidando da preservação da segurança e do conforto, dos “ninhos” e da “sesta”. O final de “Hoje a Minha Dor é Esta” diz tudo: é a linha melódica que fecha o hino nacional.

O disco poderá incluir uma versão do tema “Kashf”, do oudista tunisiano Anouar Brahem, dependendo de como decorre a questão dos direitos de autor, mas tem outra peça com igual influência arábica, “Marwan”, que até poderá vir a ser escolhida como título do álbum. Refere-se esta a Abd al Rahmân Ibn Marwan, um “muladi” (muçulmano nascido na Península Ibérica) que, após rebelar-se contra o Emir Muhammad I no ano 868, recebeu como prémio de rendição o território de Badajoz. Mais tarde, entre 876 e 877, foi ele quem mandou erigir o castelo de Marvão, resultando na vila portuguesa que ganhou o seu nome.

António Eustáquio

Carlos Barretto

Esta referência histórica é fundamental para entender o duo Guitolão. Elementos ibéricos (da região compreendida entre a Extremadura espanhola e o Alentejo português) e mediterrânicos eram constantemente perceptíveis na música tocada para os microfones depois de se avisar todos os envolvidos com um «está a gravar». Se não havia uma relação directa com as serras beirãs do xisto, Portugal é também este seu lado árabe.

E como não podia deixar de ser quando está envolvido o contrabaixista Carlos Barretto, presente igualmente estava o jazz. Sem quaisquer intuitos de fusão, que não existe de todo neste projecto. Eustáquio tem a sua linguagem, alicerçada na guitarra portuguesa do fado, e não necessita de sair dela. Pelo seu lado, Barretto intervêm com o típico contrabaixo do jazz, sem igualmente precisar de uma aproximação ao seu parceiro. A música acontece naturalmente a partir da confluência dos dois universos e, nesse sentido, se nos remete para o encontro de Carlos Paredes com Charlie Haden, é bem mais feliz nos resultados.

Com sol lá fora ou com chuva, mas sempre com um frio intenso que levava os dois instrumentistas a esfregar as mãos antes de dedilharem as cordas, a música que foi sendo registada era, regra geral, de carácter intimista, com melodias cantáveis e dimensão lírica, mas também com um complexo factor harmónico. Um par de peças trocou os termos, colocando o ritmo em primeiro plano, este também de difícil execução. A apresentação desse material no Welcome Center Aldeias do Xisto da Lousã funcionou como um teste relativamente à recepção que terão o CD a publicar e os concertos que se seguirão ao seu lançamento – um deles está marcado para a Alemanha, em Maio de 2015.

O certo é que a ovação final foi de pé, com o público rendido à poesia do Guitolão. Na assistência encontrava-se o pintor Mário Silva, que uma hora antes inaugurara a sua exposição no mesmo local e estava visivelmente entusiasmado. Um dia bom terminou, assim, da melhor forma possível: com artistas do som e da cor a abraçarem-se e gente bem-disposta a ir para as suas casas.