Jean-Luc Guionnet / Ricardo Jacinto / Luís Lopes, 27 de Dezembro de 2014

Jean-Luc Guionnet / Ricardo Jacinto / Luís Lopes

Juntos e em desacordo

texto Rui Eduardo Paes

No dia a seguir ao Natal ouviu-se na Parede música feita de contrastes e que seguiu a máxima de que pode haver unidade sem que os intervenientes “concordem” uns com os outros. Uma lição sobre o que é improvisar…

Foi um dos últimos concertos do ano. Jean-Luc Guionnet veio de visita a Lisboa e trouxe o seu saxofone. Primeiro proporcionou-se um concerto no Clube Recreativo dos Anjos em que se juntou ao guitarrista Luís Lopes (repetindo um duo que se estreou na Culturgest em 2011 - foto acima de Nuno Martins), e no dia a seguir ao Natal foram ambos à Parede tocar – nesse novo espaço do jazz e da improvisação que é a Sociedade Musical União Paredense – com Ricardo Jacinto e o seu violoncelo. A coincidência de estarem no trio dois artistas visuais com um interesse especial pelo som (o próprio Guionnet e o escultor e instalacionista Jacinto) indicava que a actuação poderia tender para um trabalho textural e mais de “sound art” do que propriamente de música no sentido convencional do termo, mas assim não aconteceu. E não aconteceu devido à intervenção de Lopes, sempre imprevisível, mas sempre também um músico e não um pintor de sons.

O primeiro quarto de hora do concerto até que correspondeu às expectativas de quem conhecia os trajectos de Guionnet e Jacinto. Lopes juntou-se a este no manejo da sua guitarra com um arco, com o saxofonista francês a soltar harmónicos e a jogar com o choque de frequências do seu instrumento com as cordas. As situações criadas foram deveras interessantes, mas arrastaram-se demasiado no tempo e certas estridências causaram incomodidade em alguns elementos do público (sala cheia, mas com um assistência que, em grande parte, era claramente estranha à música improvisada).

Tudo mudou quando surgiu uma segunda parte da peça, construída com base em acordes de guitarra muito limpos e quase, quase “straight”, tanto assim que poderiam ter sido tocados por um Norberto Lobo. A capacidade que Luís Lopes tem de surpreender é já bem conhecida, bem como a sua tentação para o contraste. Durante uns momentos pareceu que Guionnet e Jacinto se perdiam, mas depressa tudo “colou”, numa inteligente e sensível combinação de opostos. Ricardo Jacinto colocou-se no eixo das situações, fazendo a ponte entre as malhas de Lopes e as texturas de Jean-Luc Guionnet. Quando o violoncelo e o sopro introduziam fraseados mais tradicionais, Lopes desconstruía, em breves mas repetidas mudanças de papéis. Os espectadores estavam finalmente conquistados.

Ricardo Jacinto

Num novo tema improvisado, a guitarra colocou em equação motivos assumidamente jazzísticos e desta vez tudo de imediato se conjugou, sem nunca Guionnet e Jacinto enveredarem por um jazz formal. O primeiro poderia tê-lo feito, dado também ter actividade nessa área, mas por esta altura estava assumido o conceito de gerir paradoxos. Lopes foi o elemento disruptivo do concerto, nisso aplicando um princípio que o seu antigo parceiro no projecto Afterfall, Joe Giardullo, enunciou deste modo: «O “consenso” é apenas uma forma de mascarar o que é real e urgente. É o “mínimo denominador comum” das ideias, uma forma subtil de colocar estas de lado em nome da concordância. Não precisamos de concordar. Cada um de nós pode funcionar independentemente e ainda assim haver unidade. A música só tem a ganhar quando os intervenientes propõem em simultâneo as suas ideias independentes, não temperadas por um contrato prévio e não subjugadas por outras ideias que não as suas.»

Este foi um dos últimos concertos do ano e foi igualmente um dos que ficarão na memória da música ao vivo feita em 2014 no nosso país…