Tetterapadequ, 11 de Janeiro de 2015

Tetterapadequ

Meta-jazz

texto Rui Eduardo Paes

O grupo dos italianos Giovanni di Domenico e Daniele Martini e dos portugueses exilados Gonçalo Almeida (Holanda) e João Lobo (Bélgica) foram à Parede mostrar o presente estádio reconstrutivista da evolução do seu projecto de 10 anos. Antes tinham tocado no Hot Clube, em Lisboa, e depois dirigiram-se a Coimbra, para um concerto no Salão Brazil hoje mesmo, dia 11.

Com um novo disco (“Chlopingle”) acabado de sair pela portuguesa Creative Sources, o seu segundo apenas em dez anos de existência, o quarteto luso-italiano Tetterapadequ protagonizou no passado dia 10 de Janeiro mais uma sessão – esta bem especial – da Jazz Combat Series na Sociedade Musical União Paredense, uma das paragens de uma pequena digressão pelo País.

O que se ouviu tem substanciais diferenças com o primeiro registo do projecto, “And the Missing R”, lançado pela Clean Feed: Daniele Martini, Giovanni di Domenico e os expatriados Gonçalo Almeida e João Lobo (foto acima) improvisaram a partir de reminiscências de várias tendências históricas do jazz, as mais reconhecíveis tendo sido o estilo Blue Note dos anos 1960, a “loft generation” nova-iorquina do free jazz e os primórdios do jazz eléctrico. Digamos que se trata de uma nova abordagem do mesmo princípio de sempre, mas esta reconstrutiva e não desconstrutivista. Chamam-lhe os quatro músicos de “confusionismo”, pois almeja a construção de um “puzzle” sem que as peças encaixem entre si.

Além da clareza dos seus motivos referenciais, a música que se ouviu na Parede tinha duas coordenadas fundamentais, tenham elas sido intencionalmente buscadas ou surgido por acidente de ocasião: a flutuação dos elementos chamados a intervir e a sua congregação pontual em novelos de energia que determinavam novos direccionamentos depois de atingirem picos de tensão.

A nível de procedimentos havia alguma distribuição de papéis: Almeida ora mantinha situações de “drone” no contrabaixo, ora construía sequenciações de textura e ritmo, di Domenico desenhava motivos elípticos ou entrava por “locked grooves” acentuados pela sonoridade característica do piano eléctrico, e Lobo reforçava os “drones” ou as elipses, conforme as situações pediam. Regra geral, soava mais como um percussionista do que como um baterista, graças às suas curiosas aplicações de pratos, taças e gongos nas peles. No meio disto, que raramente por cima, Martini acrescentava fraseados melódicos suaves, tocados a meio volume no saxofone tenor, que mais pareciam vir do universo de Stan Getz ou Lee Konitz.

O curioso é que, dos concertos já realizados desde o ano passado na série Combat Jazz, nenhum como este esteve tão enraizado na tradição do jazz e nenhum como este foi tão objectivamente explícito na sua relativização idiomática e estética, utilizando as diferentes fórmulas jazzísticas como matéria-prima de uma abordagem que as transcendia. Esta já não é uma atitude pós-moderna, de ironização das linguagens sistémicas do passado, mas sim meta-modernista, pós-pós-moderna, uma postura tão saudavelmente cínica quanto deliciosa no visionamento do jazz como um espaço teatral, de representação, em que se celebra a história sem a imitar e reviver, antes a subordinando a um ponto de vista actual. Foi bom, muito bom.