Sonic Scope, 26 de Janeiro de 2015

Sonic Scope

Entre hiperactividade e filosofia

texto Bernardo Álvares fotografia João Vicente

Na sua edição de 2015, o festival programado por André Gonçalves e Nuno Moita voltou à Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, e trouxe consigo mais de uma mão-cheia de propostas de alguma da melhor música feita em Portugal, divididas em duas noites.

O festival abriu o primeiro dia com um concerto dos Gigantiq com Pedro Sousa. Os Gigantiq são um duo de electrónica composto por André Gonçalves e Nuno Moita (dois dos responsáveis da editora/produtora Grain of Sound, completada por João Vicente). O duo feito trio apresentou-nos um “drone” com “glitchs” granulares em sinergia. Embora com um papel mais subtil, o sax tenor de Sousa foi empurrado para a ribalta cénica. Este instrumento pode facilmente sofrer de uma relação de amor-ódio com o jazz, sendo que esta linguagem trouxe tanta inspiração para o seu uso que o som do saxofone dificilmente se liberta do jazz. E assim ouvimos um Pedro Sousa bastante “coltraniano” a interagir com a electrónica de detalhes a tilintar.

Felipe Felizardo protagonizou a segunda performance da noite, repescando o seu “Guitar Soli for the Moa and the Frog”.Dele ouvimos um conjunto de temas que poderiam ser estudos para guitarra de Heitor Villa-Lobos, caso este tivesse escrito um country experimental embebido em mescal. As balas perdidas que saíam dos padrões guitarrísticos acabaram por ser o ponto alto da sessão, balanceando entre um “feedback” controlado e momentos mais silenciosos que entravam em duelo com a cidade em festa lá fora.

O Red Trio é um dos maiores representantes da cena musical portuguesa mais exploratória, mas é também uma banda internacional (quando começou a tocar era como se estivéssemos em Nova Iorque). Apresentou-se em formato eléctrico, o que mudou um pouco a música do grupo. O baixo eléctrico puxou por um Hernâni Faustino mais rock 70s, mas sempre posicionado como a pedra basilar do som do trio, com Rodrigo Pinheiro (no Fender Rhodes) e Gabriel Ferrandini (na bateria) a seguirem-no trocando muitas ideias entre si.

Pedro Lopes

O segundo dia do Sonic Scope arrancou com um quarteto do patrão da editora Creative Sources, Ernesto Rodrigues (foto no topo), com Nuno Torres, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos. Em modo reducionista, como estes músicos nos têm habituado, segundo o mote dado pelas várias culturas em que é sinal de sabedoria falar pouco ou em baixo volume. Qualquer guinchar de cadeiras ou chão, qualquer passo de alguém que estava no concerto errado a sair da sala se tornava música a acrescentar a este ensemble que vive tanto da sua precisão cirúrgica como das forças do acaso, criando melodias esquisitas nas entrelinhas (micro-pressão dos arcos, micro-oscilações do sopro, um ligeiro tremer de mão…). A electricidade de Santos foi o sistema sanguíneo a bombear a orquestra de quase mudos, enquanto as cordas evidenciaram bem a madeira de que são compostas e Nuno Torres voltou a demonstrar que o segredo para o melhor som do mundo se encontra na saliva.

A noite continuou com a estreia do duo de Ondness com Pedro Lopes. Ondness é um heterónimo de Bruno Silva, que nos tem trazido projectos tão díspares como Canzana, Bandeira Branca e Sabre, entre outros. Pedro Lopes (Eitr, Whit, etc.) vem da escola de improvisação da linha de Cascais que elevou os padrões de qualidade do cenário português. Como os seus colegas que actuaram na noite anterior (Sousa e Ferrandini), a prestação deste “turntabler” caracterizou-se por uma entrega incansável ao momento e uma gestão entre hiperactividade e filosofia orientais, como judocas a aproveitar forças externas sem necessidade de transpirar muito. Bruno Silva, esse, manteve-se budista a dançar ao leme do computador e a lançar a base ambient/techno. Ouviu-se música do presente e só foi pena não termos conhecido mais cedo esta colaboração entre o homem das “tapes” e o homem dos pratos.

Tó Trips

Os Timespine de Adriana Sá, Tó Trips e John Klima encontraram uma fórmula e a galeria ZDB foi o melhor local para a transmitir. Entre o erudito e o informal, descobriram um som que poderia ser música popular numa utopia com grandes padrões de exigência estéticos. Tocaram os temas muito equilibrados do disco homónimo, sob o zither da “maestra” e solista Sá com o baixo de Klima a corrigir os batimentos cardíacos da assistência para o ritmo certo e Trips (dobro) a fazer jus ao seu nome, partilhando sonhos de países ainda por existir.