João Pedro Viegas / Carlos “Zíngaro” / Marco Scarassatti, 1 de Fevereiro de 2015

João Pedro Viegas / Carlos “Zíngaro” / Marco Scarassatti

Uma boa surpresa

texto Rui Eduardo Paes fotografia Carlos Paes

As “plásticas sonoras” do brasileiro juntaram-se aos clarinetes e ao violino dos músicos portugueses num concerto na Ler Devagar que aproximou a improvisação da música contemporânea e terminou com um surpreendente Scarassatti pianista.

Um dos mais importantes improvisadores do Brasil, Marco Scarassatti, veio a Portugal para uma pequena digressão. Actuou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa com Abdul Moimême e Eduardo Chagas, esteve no Salão Brazil, em Coimbra, com Pedro Carneiro, Carlos “Zíngaro” e João Pedro Viegas, e com os dois últimos apresentou-se a 31 de Janeiro na lisboeta Ler Devagar para um concerto que, pela valorização de factores como a atmosfera e a sugestão, podemos apontar como um exemplo de impressionismo. Algo de especial numa área da música, a livremente improvisada, que desde a sua origem tem vínculos estéticos com a abordagem expressionista.

Munido de alguns instrumentos de sua invenção que, para terem projecção sonora, necessitam de amplificação, e mesmo com este recurso de macroscopia funcionam com um nível diminuto de volume, natural foi que a intervenção de Scarassatti puxasse para o seu nível os clarinetes de Viegas e o violino de “Zíngaro”. Ainda assim, os dois interlocutores do músico de Campinas hoje a viver em Belo Horizonte preferiram sempre o timbre e o fraseado à textura e ao jogo com o silêncio (apesar dos muitos espaços existentes) e durante a actuação do trio tudo o que foi acontecendo remeteu-nos para a música de câmara, ainda que esta tivesse sido totalmente espontânea.

Regra geral serena, apesar dos factores de inquietação e angústia introduzidos, sobretudo, pelas dissonâncias do clarinete soprano e pelos subgraves do clarinete baixo, o que se ouviu optou por lidar mais com o som propriamente dito do que com a forma, perseguindo as premissas da música contemporânea desde Giacinto Scelsi, e daí que momentos houvesse em que os sopros, o cordofone e as “plásticas sonoras” nos lembrassem certas situações exploradas por Salvatore Sciarrino e  Helmut Lachenmann. Muito longe estávamos do universo jazzístico em que alguma da improvisação actual tem a sua matriz.

Quando “Zíngaro” introduziu uma simples, mas muito sugestiva, melodia com apenas quatro notas, logo repetida por Viegas, melodia essa que depois foi esticada, revirada e desconstruída por ambos com o suporte pontilhístico de Scarassatti, tudo se alterou. Era como se Bela Bartok e Olivier Messiaen estivessem presentes na sala, cada um puxando a situação para o seu conceito, canto popular versus canto dos pássaros. Se até então se tinha pintado um quadro abstracto, com cada contribuição instrumental a parecer, de facto, uma pincelada de som a acrescentar-se às demais – a exemplo do bloco de esferovite “tocado” com arco por Marco Scarassatti, para obtenção de algo muito próximo do que um sintetizador faria –, o recurso surgiu como um centralizador elemento figurativo.

Nova alteração acabaria por ganhar vida na última improvisação. Viegas iniciou um solo em clarinete baixo, Scarassatti juntou-se-lhe ao piano a partir de determinada altura, o clarinetista saiu para entrar “Zíngaro” e o desenvolvimento fez-se entre o violinista português e o artista sonoro brasileiro sob o signo de… Gyorgy Ligeti. Foi a grande surpresa da noite, até por ser raro ouvir Scarassatti a tocar um instrumento convencional. E que bom pianista ele é!