Nova Orquestra Futurista do Porto, 22 de Fevereiro de 2015

Nova Orquestra Futurista do Porto

Laboratório sonoro

texto Tiago Jerónimo fotografia André Jerónimo

Numa paragem do caminho que os haveria de levar ao festival Rescaldo no dia seguinte, a Nova Orquestra Futurista do Porto (NOFP) passou pelo Salão Brazil, em Coimbra, no passado dia 19 de Fevereiro. Passou é maneira de dizer: tomou de assalto o espaço do Jazz ao Centro Clube, numa parceria com a Prisma.

Apresentada publicamente pela primeira vez a 15 de Março de 2014, a NOFP surge a propósito do centenário do “The Art of Noises” de Luigi Russolo: um dos vários manifestos de inspiração futurista, escrito em formato de carta a 11 de Março de 1913, no seio de uma Europa que nesse início de século é um importante teatro de operações do imperialismo que se vinha formando (traduzindo-se em pouco tempo na Primeira Guerra Mundial e no surgimento do Fascismo italiano) e cuja contribuição foi certamente de enorme importância para o posterior aprofundamento da exploração electroacústica e electrónica que atravessou todo o século XX.

Os seus 11 membros - Alberto Lopes, Angélica Salvi, Filipe Silva, Henrique Fernandes (o maestro), Gustavo Costa, João Ricardo, Luís Bittencourt, Maria Mónica, Miguel Pipa, Rodrigo Cardoso e Sara Gomes - originários de uma cena artística portuense vagamente definida como experimental, mas certamente vibrante e desafiante (terei lido algures <<segunda cidade do país>>?), encontraram nesse documento de inegável relevância na História da Arte linhas de investigação (que são assim propulsoras) da exploração das potencialidades da linguagem sonora e seus dialectos. Tomaram de assalto o salão do Salão Brazil.

Aplicando e actualizando a ideia de Russolo – toda uma orquestra de novos sons produzidos pelos Intonarumori (geradores de barulho, como o nome indica) – aos meios que hoje conhecemos, a NOFP coloca em uso uma série de ferramentas por si construídas/manipuladas: motores eléctricos, rádios, “laptops” acústicos, frascos de água com hidrofones, cones de papel, consola de jogos Atari, captação e manipulação de vídeo em tempo real e outros. Articula-se esta nova orquestra com um entranhamento cuidadosamente faseado no espaço, sem posições fixas, transportando emissores de ruído e inquietando subtilmente o público. Orquestra não apenas o som, mas a presença em palco e fora dele.

O Salão passou de espaço estranhamente habitado a complexo industrial/laboratorial. Os músicos moveram-se de mesa em mesa extraindo sons de carácter industrial e acompanhando as coordenadas projectadas em vídeo, definidas pelo posicionamento de um alfinete. Da mesma forma que anunciavam a sua presença em sopro, como se do início de um ritual se tratasse, terminavam com um coro de assobios que quase estilhaçava os ouvidos.

Segundo dizem, precedeu esta mini-digressão (Coimbra, Lisboa, Guarda, El Bodón) um acontecimento digno de ombrear com qualquer lenda. A razão que fixava os seus destinos na localidade do município de Salamanca não era de somenos. Em Abril de 2014, decidiram que o primeiro lançamento da NOFP deveria ser de/com um punhado de balões para os ares do Porto, devidamente iluminados para desbravar caminho pelo espaço que também é dos radares e aviões. Em cada um deles, uma fita magnética e instruções para a sua reprodução, que nada mais “devolveria” senão um código para fazer o “download” de sabe-se lá o quê.

Mesmo assumindo que algo estava de facto à espera “online”, é empreendimento de efeito duvidoso pela notável junção entre acaso e cripticismo. Via reclamação ou inquietação, o facto é que houve comunicação: resultou. E se isto só por si já cheira a impossível, o que dizer da coincidência de o balão sobrevivente perder o gás em terras que assumem significado de teor familiar para um dos membros da NOFP?

Um concerto (?) deste valor perdurará certamente na memória. Ficamos a aguardar impacientemente pelo próximo lançamento.