Ciclo de Jazz da Amadora, 9 de Março de 2015

Ciclo de Jazz da Amadora

De pé, e com entusiasmo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Afonso Bastos (SiP, CG)

O jazz voltou à Amadora com quatro concertos que fizeram levantar a assistência das cadeiras – os de Slow is Possible, Chibanga Groove com Brahima Galissa, Gera Jazz e Júlio Resende (foto acima). Um sucesso ao nível da qualidade da música ouvida e do número de assistentes. Afinal, o jazz tem público em Portugal e este levanta-se quando gosta.

Não é nada habitual que todos os concertos de um festival (no caso, um ciclo, com quatro sessões em quatro dias) sejam aplaudidos de pé quando as últimas notas se fazem ouvir, mas tal aconteceu com a quinta edição do Ciclo de Jazz da Amadora, realizado entre os dias 4 e 9 de Março passado nos Recreios da Amadora. E se o primeiro deles não teve “encore”, ter-se-á isso devido, apenas, à longa sessão protagonizada pelos Slow is Possible.

Prova dos nove

Já aqui se falou desse grupo-surpresa da Beira Interior revelado numa residência artística (para gravação de um disco a editar este ano, entre a Primavera e o Verão, pela JACC Records) do XJazz, e fizemo-lo com entusiasmo. Pois na primeira apresentação do projecto do guitarrista e compositor João Clemente mais a Sul, agora com a adição de um sétimo elemento, o pianista, o “ensemble” conseguiu superar-se.

Não sendo a música dos Slow is Possible propriamente fácil, a sugestibilidade das suas melodias e a sincopação que as sustentava deixaram o público do dia 4 “agarrado” do início ao fim e, pela reacção final deste, não só agradou como deixou óptima impressão. A proposta feita por Clemente com Bruno Figueira (saxofone alto), Patrick Ferreira (clarinete), André Pontífice (violoncelo), Nuno Santos Dias (piano), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria), tem um pendor cinematográfico que desperta a imaginação. Se elementos musicalmente mais “estranhos” se sucediam (em termos comparativos, embora algo distantes, podemos apontar as composições para o grande ecrã de John Zorn), outros facilmente entravam no ouvido.

Com a inclusão do piano a libertar João Clemente de funções harmónicas, os Slow is Possible tiraram a prova dos nove à sua música tão densa quanto misteriosa, uma música iminentemente colectiva em que emergiam algumas vozes individuais sem entrar na lógica convencional do solo. Tudo dependia, aliás, da conjunção dos timbres, com destaque para o permanente jogo entre sax, clarinete e violoncelo. 

Tocar dançando 

Na noite seguinte subiu ao palco uma nova fornada de estreantes nas lides do jazz, com idades compreendidas entre os 6 e os 15 anos de idade. Com direcção do trombonista e professor Eduardo Lála, cinco clarinetes, um oboé, uma flauta, dois trompetes, duas trompas, dois trombones, uma guitarra, dois contrabaixos, baixo eléctrico, bateria e bongós da Orquestra Geração, esta dedicada à música clássica, constituíram a Gera Jazz, “big band” que interpretou peças de Duke Ellington a Herbie Hancock, com um desvio por James Brown.

Foi óbvio para todos que os miúdos estavam a dar os primeiros passos na arte dos sons, e algumas fífias e saídas de tempo não deixaram de acontecer, mas ninguém deles esperava outra coisa. O que se esperava, sabendo das capacidades formativas de Lála, é que soubessem actuar conjuntamente, e aí esteve a mais-valia desta demonstração do trabalho realizado nas escolas do concelho da Amadora. Fizeram a entrega dos temas a preceito e quase todos foram chamados a solar, sem aviso prévio, e fizeram-no. Estavam visivelmente nervosos, e o oboísta até se sentiu mal, mas foram de uma coragem e animação invulgares. Havia mesmo quem tocasse dançando. 

Continente-mãe

 

Ao terceiro dia do ciclo programado pelo Jazz ao Centro Clube fez-se a intervenção dos Chibanga Groove de Johannes Krieger, trompetista e compositor alemão fixado em Lisboa. Com uma substituição: em vez do habitual Dan Hewson ao piano, esteve o português Marco Pombinho. Mantiveram-se Francesco Valente (contrabaixo), João Rijo (bateria) e aquele que, com a kora e cantando, já é mais um membro da banda do que o seu convidado especial, o mestre mandinga Brahima Galissa.

A fórmula escolhida pelo quinteto é o cruzamento do jazz com as sonoridades africanas (peças de Galissa estão incluídas no repertório), magrebinas e hispânicas, em iguais doses de uma alegria festiva e de uma melancolia muito poética. O som cristalino da harpa do continente-mãe casou-se bem com o instrumentário do jazz, ora acrescentando-lhe lirismo, ora reforçando as cores de África, numa partilha com o trompete da maior parte dos solos.

Krieger processou frequentes vezes o instrumento, sem com tal recurso artificializar a sua linguagem muito quente, limpa e segura, e Pombinho alternou entre o piano e um teclado MIDI. Possante e muito presente esteve o suporte rítmico de Valente, um contrabaixista de mão cheia (apesar do dedo cortado e protegido por um penso), e de Rijo. Depois do que fizeram, difícil seria que todos os assistentes não saltassem das cadeiras quando se chegou ao fim. 

Dentro e não sobre 

O fecho do Ciclo de Jazz da Amadora aconteceu de forma intimista: Júlio Resende sozinho com o seu piano. Sozinho, mas nem sempre: momentos houve em que esteve em diálogo com a voz de Amália Rodrigues, imagens desta a surgirem no fundo do palco. Tratava-se do seu programa “Amália”, precisamente, baseado em fados que esta tornou famosos. O pianista adoptou o processo introduzido por Keith Jarrett: improvisou “dentro” dos temas e não “sobre” eles, como é normal suceder no jazz, e os resultados foram magníficos.

Deva-se mesmo dizer que, com este projecto, Resende subiu para o patamar a que lhe faltava chegar, ombreando finalmente com figuras do nosso piano jazz como João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Rodrigo Pinheiro e o saudoso Bernardo Sassetti. “Amália” não constitui uma ruptura com o que fez no passado e, de resto, uma faixa do seu disco “Da Alma” foi recuperada no alinhamento. Será mesmo a evolução natural do gosto que anteriormente demonstrou pelas formas da música popular.

Júlio Resende desmontou os fados escolhidos e prolongou-lhes as implicações melódicas, harmónicas e rítmicas, ora derivando deles, ora enunciando-os de outra maneira, mas sempre respeitando os originais. A lotada plateia fez-lhe justiça, numa demonstração de respeito e apreço que durou longos minutos.