Supersilent, 22 de Março de 2015

Supersilent

Equinócio da Primavera

texto Nuno Catarino

O grupo norueguês voltou a Portugal para um concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Agora em formato de trio, evoluindo de um jazz atmosférico para um implacável noise. Começou a Primavera.

No ano de 2000, quando era ainda um jovem grupo, os Supersilent actuavam no Jazz em Agosto. Passados 15 anos, os noruegueses regressaram a Lisboa, com uma formação diferente (agora em formato trio, sem o baterista Jarle Vespestad) mas com os mesmos espírito e essência musical. Se havia dúvidas sobre a vitalidade do projecto, o lançamento do disco “12”, no ano passado, veio desfazer as dúvidas e confirmar a absoluta pertinência da sua música, que continua em 2015.

Esta actuação no Maria Matos funcionou como prova de vida, perante um público português curioso que misturava quem já os tinha visto e ouvido nessa histórica actuação na Gulbenkian e ouvintes que só os descobriram mais tarde e aqui os iriam ver pela primeira vez. No exacto momento em que acontecia o equinócio da Primavera, o trio de Arve Henriksen, Ståle Storløkken e Helge Sten (aka Deathprod) apresentava-se ao vivo perante uma plateia com alguns lugares vazios.

O trio arrancou a actuação no seu modo mais plácido: sobre uma base de electrónica subtil, deslizava um trompete tranquilo, com o seu som claro a dominar toda a sala. Mas a música dos Supersilent não se deixa ficar fixa: vai evoluindo, de forma contínua, e a massa electrónica tende a ganhar espaço de forma progressiva. Trabalhando a partir da improvisação, o som do trio funciona de forma coesa e coerente, com Henriksen (trompete, voz e electrónica), Storløkken (electrónica e teclados) e Deathprod (electrónica) a agirem sempre num sentido comum.

Evoluindo da quietude inicial, numa toada de jazz atmosférico com pinceladas electrónicas (evocativa do “Fourth World” de Jon Hassell, que já passou por aquela mesma sala), a música dos Supersilent vive sob uma mutação permanente, passando por momentos de maior intensidade e energia e rapidamente se transformando em implacáveis muros de ruído provocador (que Merzbow ou Keiji Haino não desdenhariam). Nestas alturas Henriksen abandonava o trompete, servindo-se da voz e complementando ainda a amálgama electrónica de Deathprod e Storløkken.

O concerto teve a duração de cerca de uma hora, mas o trio regressou ainda para um longo “encore”, que na verdade funcionou quase como uma segunda parte, com uma duração de cerca de meia hora (!).