Carlos Martins, 23 de Março de 2015

Carlos Martins

Ausência lembrada

texto Gonçalo Falcão

O saxofonista foi ao Hot Clube recordar Bernardo Sassetti e apresentar o seu disco “Absence”.  Foi bom, foi até mais quente do que o CD porque se tratava de uma actuação ao vivo, mas desejava-se a energia «de quem toca pela primeira vez».

Por sorte, a solução está no título: “Ausência” (“Absence”). A morte é difícil para quem fica e fez bem Carlos Martins em escrever um disco sobre isso. Desde logo porque o fez: fazer é talvez o mais difícil, porque a enormidade da falta pede uma substituição igualmente grande e a grandeza não é coisa que se obtenha (apenas) por vontade. Por isso, fazer não é fácil e Carlos Martins conseguiu-o: criou um disco sobre a falta de Bernardo Sassetti.

Apesar de o CD ter sido apresentado o ano passado no São Jorge, ir ouvi-lo ao Hot Clube era procurar o disfrute da música num espaço onde ela fazia mais sentido e onde a sua ausência tocava mais. Contudo, o Hot estava nesse 19 de Março com muito menos gente do que devia em noite de estreia. A boa promoção do disco e uma cobertura mediática razoável deu-nos já bastante informação sobre as intenções e fazia antever uma casa muito mais vibrante.

Dispusemo-nos à busca da espiritualidade que Martins diz procurar nas suas composições (sobejamente tratada no jazz desde Coltrane) e a um sentido contemplativo tão nosso, de olhar para o horizonte e ter prazer nisso, sem a necessidade de saber o que há lá ou de lá chegar: «Há metafísica bastante em não pensar em nada.» Nesse momento, ficou por saber se a música consegue ter metafísica o bastante para não passar a fundo, para sobreviver a ser apenas horizonte e não um horizonte para o qual não se consegue deixar de olhar tal é o seu hipnotismo.

Conhecemos bem o trio de Alexandre Frazão/Carlos Barretto/Mário Delgado que acompanha o saxofone do líder e sabemos que é capaz de uma música imensamente sólida e muito bem tocada. Os temas são doces, fáceis de apreender, sem nunca se tornarem evidentes. Nem sempre isso teve correspondência nos solos de saxofone do primeiro “set”. Já Delgado teve momentos muito mais interessantes a acompanhar e a solar e Carlos Barretto fez um solo notável.

É evidente que estamos perante uma ínclita geração de músicos que levou o jazz nacional para um patamar de excelência na execução, com um elevado domínio técnico e capaz de tocar de forma coesa e, ao mesmo tempo, de responder à chamada do momento. No Hot a música perdeu a dimensão paisagista do disco, ficando mais intensa e quente. Mesmo assim, faltou a energia própria de quem toca as coisas pela primeira vez.

«A morte não tem só cinco letras», Herberto Hélder ("Húmus", 2009)