Portalegre Jazzfest, 24 de Março de 2015

Portalegre Jazzfest

Ah valente!

texto Gonçalo Falcão fotografia João P. Miranda

O primeiro fim-de-semana do festival de Portalegre fez-se com os brilhantes Cheating Heart de Michael Formanek (foto acima), o surpreendente Ricardo Toscano Quarteto e o mais terreno Chris Speed Trio. Só não se percebeu porque não estava a sala do CAE esgotada…

Num fim-de-semana em que a revista do Expresso dedicava a capa e nove páginas do miolo à apresentadora de um programa televisivo da manhã que – diz a mesma – tem o toque de Midas, a jazz.pt foi directamente para a gruta do Alibabá buscar o tesouro: Portalegre.

A cidade continua a ter um festival de jazz com propostas de altíssimo nível e da programação deste ano pudemos ouvir o Cheating Heart Quintet de Michael Formanek, o trio de Chris Speed e o quarteto de Ricardo Toscano, regressando à base com os ouvidos cheios. O Alto Alentejo tem vários argumentos para um bom fim-de-semana, entremeando a “grande música negra” com magníficas paisagens, comida e amigos.

A boa notícia é que vocês ainda estão muito a tempo de apanharem a segunda parte do festival (próximos dias 27 e 28 de Março) e a palavra-passe mantém-se. 

Oh!

Tim Berne 

Um grupo incrível a tocar uma música muito sofisticada e exigente recebe-nos sem pré-aviso. Somos metidos dentro de uma massa de sons com uma escrita intrincada, transformada num prazer simples pela enorme técnica e pela requintada musicalidade dos instrumentistas.

Os temas do contrabaixista-líder, Michael Formanek, são compostos de várias linhas móveis para cada instrumento e estas, sobrepostas, resultam num grupo de várias peças com vida própria, mas que se encaixam umas nas outras com surpresa e encanto. Cada instrumento conta uma história diferente, mas a sobreposição no tempo de todas estas narrativas autónomas faz todo o sentido.

Não encontramos a ideia tradicional de “secção rítmica”: o baterista Dan Weiss foi, precisamente, um dos músicos mais extraordinários da noite, conseguindo tocar a exigência técnica da pauta – com os tempos em permanente mudança e dezenas de ideias diferentes -  com a naturalidade e a soltura de quem está a improvisar. O solo cruzado com o piano no final do concerto foi arrepiante, apesar de Jacob Sacks ter sido a presença menos excitante em palco.

Tim Berne, no saxofone alto, e Brian Settles, no tenor, co-lideraram a frente melódica: tocaram brilhantemente a escrita e conseguiram dela fazer improvisações muito interessantes de seguir. Ao vivo, a banda soa a tudo menos a ECM, com um som atlético e muito cheio. O risco de propor pautas esdrúxulas é o de soar frio e rigoroso, mas a grande qualidade dos músicos fez com que a actuação se ouvisse com o encanto de quem explica viva e inteligentemente - e com sucesso - a teoria quântica de campos a um taxista. 

Ah! 

Ricardo Toscano

O Ricardo “Ah Valente!” Toscano Quarteto é um grupo demasiado novo para soar tão bem e uma enorme surpresa no jazz nacional. Só toca “standards” (Joe Henderson, Herbie Hancock, Charles Mingus, etc.) e entrega-os com uma alegria e uma pulsação que fazem com que seja uma grande banda para ouvir ao vivo. O segredo para o impulso do grupo (com uma música que parece só poder resultar ao vivo e que em estúdio correria o risco de se tornar vulgar) é a vontade de tocar, a alegria e a insolência próprias de quem tem 20 anos, vive intensamente a música e quer chegar-se à frente.

Ouvimos tantas vezes os jovens das escolas a tocar tolhidos pelo “respeitinho” perante os clássicos estrangeiros, com os gestos encurtados e os movimentos contidos, formalizando a música com o olhar baixo e venioso de quem faz um requerimento e pede deferimento… Felizmente, o grupo de Toscano vai ao Black Book buscar a música de que gosta, ensaia-a com atenção e depois aborda-a com emoção e vontade. Alia a uma boa aparelhagem técnica uma enorme vontade de desfrutar do momento, de tocar com prazer e de sorver a beleza própria de cada música. Impressionaram o contrabaixo forte e com personalidade de Romeu Tristão e o saxofone muito fluente do líder. Foram bem acompanhados pelo trompete de Diogo Duque e pela bateria simples e swingante de João Pereira. Músicos portugueses a que convém estar atento e que funcionam brilhantemente. Foram capazes de centrar a atenção do público que subiu ao bar do CAE, normalmente muito mais interessado na conversa com música de fundo. 

Hum…

Chris Speed 

Com um auditório composto mas longe de repleto, subiu ao palco o trio do saxofonista americano Chris Speed para fechar em Portalegre a sua digressão europeia. Problemas de som - primeiro com o “overhead” da bateria e depois com a amplificação do contrabaixo (que só a partir do meio do concerto passou a ter graves) - afectaram a prestação. A música de Speed é mais tradicionalista, com o saxofone a expor o tema e a improvisar de seguida e a secção rítmica a acompanhar e a solar.

Com temas melodicamente interessantes e uma fluência notável, o saxofonista americano consegue aguentar sozinho uma hora de música com uma capacidade expressiva notável, capaz de fazer o sax cantar os temas. O contrabaixista Chris Tordini lutou contra o mau som e ganhou e Dave King, na bateria, foi o que menos impressionou, usando uma marcação de tempo muito livre que seria muito interessante (pois parecia que estava no tempo e, simultaneamente, em total abstraccionismo rítmico) se não soasse, por vezes simplesmente, fora do tempo ou a arrastá-lo excessivamente. Um bom concerto, mas nós vínhamos do Céu de Formanek e tivemos de descer para um nível mais terreno. 

Atão? 

Não há Internet nem TV por cabo que resolvam as questões culturais das populações e a cultura é muito mais do que vinhos e enchidos. É também a capacidade de saber distinguir um bom rótulo para o vinho e de o comunicar de forma que as suas qualidades sejam percepcionadas. Sabemos que estamos na província quando a plateia não enche totalmente, apesar dos bilhetes a 8 euros, da oferta de um CD de uma das melhores editoras de jazz do mundo (a Clean Feed, na opinião dos americanos), do acesso a grupos de primeira linha, da fruição de um auditório com as melhores condições e, depois dos concertos, da disponibilização de vinhos, queijos e enchidos da região.

Portalegre é uma cidade grande, perto da fronteira, com uma oferta cultural reduzida e uma população estudantil considerável. Não se percebe como é que os concertos não estão todos esgotados com antecedência. Não é um problema de dinheiro (pois os vários bares da cidade estão cheios), mas uma questão de prioridades.

Sabemos por observação (Guimarães, por exemplo) que este trabalho cultural requer tempo e perseverança. Que daqui a uns anos a romaria lisboeta que vai até Portalegre para descontrair, visitar amigos e ouvir música da melhor será menor porque a sala estará esgotada. Esperamos que os portalegrenses descubram rapidamente o seu Jazzfest, para que este possa dar frutos mais evidentes também para a cidade e para que contribua para um país mais saudável e menos dependente da dieta de programas da manhã e “reality shows” a que voluntariamente se submete.

Os concertos do próximo fim-de-semana serão protagonizados pelo André Matos / Tony Malaby Quartet, Kaja Draksler a solo, Kaja Draksler em duo com Susana Santos Silva, o trio De Beren Gieren com Susana Santos Silva e os Deux Maisons. Bom proveito.