Ricardo Jacinto / David Maranha / Helena Espvall / Norberto Lobo, 6 de Abril de 2015

Ricardo Jacinto / David Maranha / Helena Espvall / Norberto Lobo

Nasceu um grupo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

Nasceu um novo quarteto em mais uma edição do Nervo. O encontro entre músicos de diversas tendências era inédito e imprevisível, mas os desfechos foram tão positivos que a fórmula parece ter vindo para ficar. Improvisação minimalista, psicadélica e com algo da “weird folk” foi o que se ouviu na Guilherme Cossoul…

A série de concertos Nervo ganhou, sem dúvida, com a passagem para a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, situada nas imediações da Assembleia da República, em Lisboa. A sala tem um bom ambiente, com serviço de bar que inclui um menu de pregos, hambúrgueres e gelados, e à entrada há uma livraria bem recheada, a Sr. Teste. A tendência é para o espaço encher, e foi isso que aconteceu, em véspera de feriado (2 de Abril), para um concerto em dois “sets” que, tal como anunciado, juntaria no primeiro Ricardo Jacinto, David Maranha e Helena Espvall, e no segundo, a este trio, o convidado Norberto Lobo. Nem mais uma pessoa conseguiria entrar, o que logo à partida tornou o evento bem especial.

A formação era inédita, e despertou a curiosidade saber o que faria Norberto Lobo em contexto de improvisação. Mas não só: muitos dos presentes, os que conheciam o trabalho desenvolvido pelo também instalacionista e escultor Ricardo Jacinto, interrogavam-se sobre como se “encaixaria” a abordagem reducionista deste com o “droning” muito próximo do noise da dupla Maranha / Espvall, tal como se ouve no álbum “Sombras Incendiadas”.

A primeira surpresa foi verificar que Lobo estava ali para tocar nas duas partes da sessão e a segunda foi a própria música que aconteceu. Com dois violoncelos, um deles fortemente processado, o da sueco-americana tornada lisboeta Espvall, David Maranha dividindo-se entre o órgão e o violino e Lobo na sua habitual guitarra clássica, os desfechos enquadraram-se nas heranças do minimalismo e do psicadelismo, o que já seria de esperar, mas na ocasião ganhando ainda as feições daquilo que a revista britânica Wire rotulou como “weird folk”.

Norberto Lobo

Esta última vertente foi introduzida pelo guitarrista, com os seus “bottleneck” e “fingerpicking” a enriquecerem as tramas de forma muito natural e evitando o mero exotismo. Quando não ia por aí, Lobo contribuía com a pedaleira para adensar as massas sonoras com “bruitages” e pulsações, ora complementando as vibrações do Hammond de Maranha, ora colando-se às cordas de Jacinto e Espvall.

O “set” inicial evoluiu por blocos, nem sempre estes se integrando fluidamente uns com os outros, mas logo ali se impôs uma ambiência hipnótica que prendeu a atenção dos presentes. Não se ouvia nenhuma conversa de fundo, nenhum som de copos, pratos ou cafés a serem tirados. O público estava suspenso e concentrado. Depois de pequeno intervalo, a segunda intervenção do quarteto mostrou já uma apertada coesão, parecendo que tocava neste formato já há muito tempo. E com um foco e uma entrega que mais imersiva e absorvente tornaram a música. O resultado foi de uma beleza inebriante.

No final, ficámos a saber que os músicos tinham decidido logo ali continuar com o grupo, havendo já um contacto para um segundo concerto. Nasceu, no Nervo, um novo projecto que com certeza virá a dar muito que falar…