Anthony Braxton Diamond Curtain Wall Quartet, 27 de Abril de 2015

Anthony Braxton Diamond Curtain Wall Quartet

25 de Abril sempre!

texto Paulo Alexandre Jorge fotografia Vítor Medeiros

No dia em que se comemorava a implantação da democracia em Portugal, tocou na Casa da Música um símbolo da liberdade: Anthony Braxton estendeu uma cortina de diamante. Chovia lá fora, mas chegámos a casa enxutos.

Em noite de Abril, a mesma noite de 25 passados 41 anos, em noite de festa chuvosa e fria na cidade do Porto, lançou Anthony Braxton sobre o palco da Sala Suggia, na Casa da Música, uma cortina de diamante, tecida com os sons do próprio Braxton (saxofones alto, soprano e sopranino, clarinete  baixo e electrónica), de Taylor Ho Bynum (corneta, trompete de bolso, trompete baixo, fliscórnio e trombone), Ingrid Laubrock (saxofones alto e soprano) e Mary Halvorson (guitarra eléctrica e efeitos).

Pergunta primeira: o que se pretende com a confecção de uma cortina de diamante? O que se pretende ao lançar tão translúcido tecido num palco? O que se deseja velar? O que há a desvelar? Perguntas segundas: quantos fios são necessários à feitura da transparência? Que objectos lhe são fundamentais? Como se cozem panos sonoros tão sensíveis?

Espantou a quantidade de instrumentos em palco para apenas cinco músicos - durante exactamente uma hora vários foram os fios de som que se foram alternando em tecelagem complexa dos vários instrumentos. Entre todos, curioso o fio electrónico: o computador de Braxton ofereceu como que um zumbido constante, um ruído, um silêncio, uma paisagem de fundo que se podia entrever. Ora quando a cortina se abriu ligeiramente (para rapidamente se fechar), ora quando ondulou e se agitou um pouco mais.

Provocou também admiração a qualidade desses fios de som - a afinação de todos os intérpretes e de todos os instrumentos (e o excelente som de palco: parabéns à equipa técnica da Casa da Música). Maravilhou a qualidade individual e grupal dos intérpretes - no domínio da interpretação de uma linguagem musical convencional e no domínio da interpretação de uma linguagem incidental, moderna, expressiva, para-musical. Provocou enleio a forma musical semi-livre que a cortina tomou, assentando num fluir ininterrupto, consistente e coerente, de dinâmicas e de secções mais ou menos estruturadas.

Em Nova Iorque, de uma conversa em final de tarde com um improvisador amigo, retive: a grande equação é “how not to play together, together”. Braxton há muito que a resolveu. Do bom programa de apresentação do concerto, escrito por Luís Figueiredo, anoto as seguintes palavras proferidas por Braxton em 1971: «Não estou nada interessado em música. Nem estou interessado em espiritualismo. Estou apenas interessado em matemática e tecnologia. Uso a música como meio para atingir um certo tipo de ideias conceptuais que me atraem. A música é o caminho mais rápido que consegui encontrar para chegar onde pretendo. Mas se houvesse um caminho mais rápido, seguiria esse caminho.»

Lá fora, na Avenida da Boavista e na Praça Mouzinho de Albuquerque, a noite de 25 de Abril era de festa com chuva e frio. No interior da Sala Suggia da Casa da Música, a cortina de diamante lançada por Braxton, Laubrock, Bynum e Holvorson ondulou ligeiramente ao sopro de um vento leve, às vezes quente, por vezes frio, sem agitações que a empurrassem descontroladamente no tempo ou no espaço como em noites de tempestade - no balanço da insinuação, no balanço da razão, no balanço da tensão contida, uma cortina de diamante que ninguém ousou atravessar, permitindo que todos chegássemos a casa enxutos.