Mats-Up, 30 de Abril de 2015

Mats-Up

O efeito Mozart

texto Rui Eduardo Paes

O grupo do suíço Matthias Spillman abriu na Parede uma pequena digressão em Portugal que os levará também a Coimbra, a Lisboa e ao Porto. Foi mais um concerto da Combat Jazz Series, desta vez em modo de «delicadeza e melodia», brincando com o bem que nos pode fazer à inteligência ouvir Mozart…

Como dizia na apresentação do concerto o seu programador, Pedro Costa, há mais do que uma maneira de “combater” no jazz. Se uns o fazem «com força», outros «utilizam a delicadeza e a melodia». Em mais uma sessão da Combat Jazz Series na Sociedade Musical União Paredense, o quinteto suíço Mats-Up apresentou uma música que não podia ser mais contrastante com a do grupo que antes se apresentara naquele espaço da Parede, na linha de Cascais: os Universal Indians com o histórico Joe McPhee. O projecto do trompetista Matthias Spillman é predominantemente composto e, no passado dia 29 de Abril, seguiu formatos mais convencionais no fraseado melódico e na construção rítmica.

Com Reto Suhner no saxofone alto, Marc Méan a utilizar um teclado em registo de piano eléctrico (a SMUP não dispõe de piano), Raffaele Bossard no contrabaixo e Dominic Egli na bateria, Spillman apresentou temas que, de qualquer modo, não se enquadram com o que se pode esperar normalmente de uma formação “mainstream”. De resto, um dos mais fortes momentos da noite foi aquele em que se utilizou a escala natural, não temperada. A ideal para instrumentos como o trompete e o contrabaixo, e aquela em que o teclado melhor se integrou no jazz acústico proposto, por caber mais adequadamente nesse contexto do que um piano. Este foi concebido de raiz para o temperamento (para quem não sabe, o tipo de afinação adoptado pelo Ocidente que tem em conta os intervalos da série harmónica).

Uma das composições apresentadas intitulava-se “The Mozart Effect”, fazendo referência à experiência supostamente científica de que ouvir Wolfgang Amadeus Mozart proporciona um maior desenvolvimento da inteligência do que uma audição de, por exemplo (dado ironicamente pelo líder), heavy metal. O alcance da peça é, obviamente, humorístico, mas define bem a atitude dos Mats-Up: criar uma música que, embora com contornos e vocabulários reconhecíveis e aos quais é fácil aderir, seja intrigante e nos dê, a nós público, algum trabalho.

Era uma questão de perspectiva, mas também de refrescamento dos materiais para evitar redundâncias e normatizações. Partes houve em que as pulsações eram claramente de inspiração africana, com Spillman a juntar-se à bateria com um par de chocalhos para sublinhar ainda mais essa proveniência e libertar Egli de marcações definidas, de modo a construir um tapete de polirritmias.

Noutra altura, foram introduzidas as estruturas de uma antiga tradição coral da Suíça em que uma voz se vai juntando às outras. O mote numa personagem dos desenhos animados da Disney, o urso Balu, serviu, por sua vez, para mostrar que o jazz também é (ou já foi) uma música de dança. Outro tema ainda desmentiu a geral orientação da banda para o formato camerístico, colocando uma métrica blues e os típicos meios-tons do género (as chamadas “blue notes”) em primeiríssimo plano.

O forte dos Mats-Up está na sua frente de sopros. Foi um gosto ouvir como o trompete cortante de Matthias Spillman se associava com o som redondo e cheio de ar do sax de Ruhner. Não foi possível tirar grandes conclusões do contributo de Méan para o conjunto – o seu instrumento electrónico era bastante despersonalizante e nem sempre agradável. Bossard pareceu ter a mão demasiado pesada para o que a música pedia, mas já Egli foi deveras convincente, revelando uma fluidez notável.

A actuação dos cinco na Parede foi a primeira de várias numa pequena digressão portuguesa que levará os Mats-Up a Coimbra (hoje mesmo, dia 30, no Salão Brazil), a Lisboa (1 de Maio, Hot Clube de Portugal) e ao Porto (2 de Maio, Porta-Jazz).