Jakob Bro Trio, 1 de Maio de 2015

Jakob Bro Trio

Brilho e perfeição

texto Gonçalo Falcão

O guitarrista dinamarquês soube escolher as pessoas certas para o que queria fazer e, como se ouviu há dias no Hot Clube, em Lisboa, Thomas Morgan e o renovado Jon Christensen são essenciais para o resultado final. Um concerto simplesmente extraordinário.

A 23 de Abril passado, o Hot Clube estava cheio até à porta para ouvir o trio de Jakob Bro. Aquele que, ao contrário da maioria dos guitarristas, prefere tocar baixo e encaixar-se nos espaços, com sons simples e melodiosos. A sua escrita é básica, com temas fáceis de colocar no ouvido, sem nenhuma particularidade técnica ou melódica que a caracterize.

O que dá brilho e perfeição a este grupo, que parece criado com premissas científicas, é a enorme diferença de personalidades musicais que, neste encaixe improvável, funciona magnificamente. O contrabaixo de Thomas Morgan encarrega-se de tudo: baixo e bateria. É ele quem estrutura a música e lhe dá corpo rítmico e harmónico. Foi impressionante vê-lo ao vivo, com uma técnica extraordinária e um som de contrabaixo enorme, sólido, cheio.

Assim, temos até agora uma música feita pela enorme segurança e solidez do contrabaixo e com a guitarra a preencher os espaços, a usar a sua expressão aguda para entregar muito vagarosamente, como Wagner fez, as melodias: lentas, simples e belas. Adicionemos a esta mistura a bateria de Jon Christensen, o mítico baterista da ECM que, depois de inúmeros anos pouco ou nada activo, volta agora à música neste trio.

Não tenho memória de o baterista ter tocado antes em Portugal e por isso este concerto no Hot era um motivo suplementar para lá ir. E se Cristensen foi revolucionário nos anos 1970, em formações de Jan Garbarek, Keith Jarrett, Eberhard Weber, Ralph Towner, John Abercrombie e tantos outros, com um uso leve da bateria, tocando nos pratos e usando lógicas rítmicas abertas e pouco marcadas nos tempos fortes, é hoje ainda mais extraordinário, retirando qualquer racionalidade rítmica repetitiva da bateria. Voltou diferente, ainda mais abstracto, quase como um Derek Bailey da bateria, tocando sempre no lado errado do instrumento.

O público ficou resistentemente até ao final dos dois “sets” e o trio foi melhorando com o evoluir da noite. Ao vivo percebemos melhor o mistério que o novo CD “Gefion” tinha deixado no ar, pois soava interessante sem ter elementos particularmente distintivos. Thomas Morgan foi o músico que mais marcou. Neste contexto de clube, com os instrumentos perto e os músicos a sentirem a presença do público e vice-versa, tornou-se gigantesco.