Ken Vandermark / Fred Lonberg-Holm, 14 de Maio de 2015

Ken Vandermark / Fred Lonberg-Holm

Chicago na Parede

texto Rui Eduardo Paes

Os dois gigantes da Cidade do Vento vieram à SMUP para mais uma sessão da Combat Jazz Series. Improvisaram sem rede e passaram pelo funk e por algo que se parecia com White Stripes. Um quase cuspia os pulmões e o outro debruçou-se sobre o chão a ligar e desligar pedaleiras. Foi uma noite memorável, apesar (ou por causa disso) de o Eduardo das Conquilhas estar de folga…

«Hoje à tarde estivemos na praia a conversar sobre música, e isso é algo que não fazemos em Chicago», disse Ken Vandermark (foto acima) ao público em mais uma sessão da Combat Jazz Series na SMUP (Parede), como que justificando os “licks” de funk e rhythm & blues que tinha acabado de tocar no saxofone tenor. E não obstante Fred Lonberg-Holm ter acrescentado «mas temos o lago», isso era bem verdade. Não só porque na cidade norte-americana em que ambos vivem não há mar por perto, ainda que o Lago Michigan seja enorme, mas também porque falar sobre música, em vez de a fazer (têm agendas preenchidíssimas), não é habitual neles.

Aliás, os diálogos que tiveram no Facebook sobre a sua vinda a Portugal, repartida entre uma apresentação na ZDB, em Lisboa, no dia 12 de Maio, e esta na linha de Cascais na noite seguinte, foram sobre “seafood”: lagosta grelhada, sapateiras, camarão, peixe na brasa. Vinham fixados na ideia de irem comer ao Eduardo das Conquilhas, ex-libris da vila da Parede, mas era uma quarta-feira e o restaurante estava fechado. Comentava Vandermark na Internet: «Na batalha de interesse entre música e comida, a comida ganha sempre.»

O certo é que foi pela música que, numa quarta, altura da semana em que é difícil encher uma sala, o público acorreu à Sociedade Musical União Paredense em número bastante razoável, havendo caras habituais nos concertos lisboetas, uns porque quiseram repetir a dose, outros porque tinham falhado a actuação anterior no Bairro Alto. E saíram todos com a sensação de que tinha sido mais um serão especial no novo espaço do jazz e da música improvisada que por cá vão acontecendo. Com um entusiasmante “encore” que parecia algo dos White Stripes, cheio de rock e de “groove”.

Fred Lonberg-Holm

O duo de Vandermark e Lonberg-Holm dedica-se inteiramente à improvisação. Não há temas, mas ainda assim jorram melodias dos saxofones (tenor e barítono), do clarinete e do violoncelo. Melodias que, mal surgem desenhadas, dão lugar a outros materiais ou que são desconstruídas e viradas do avesso. O formato instrumental implica, no entanto, que Vandermark seja mais rítmico do que o habitual. Quase tudo o que fez partiu de “riffs” e stacatos, e foi particularmente interessante ouvi-lo nesse registo.

Isso porque só uma vez Lonberg-Holm utilizou o seu instrumento como um contrabaixo acompanhante. Fazendo jus à sua fama de “anti-violoncelista”, as suas arcadas tiravam das quatro cordas todos os sons que o violoncelo clássico proíbe. Rodeado por pedaleiras de efeitos, em muitas ocasiões era como se estivéssemos diante de uma guitarra eléctrica. Numa longa passagem foi mesmo a um ligar e desligar de botões, manipulando directamente a electricidade, aquilo a que assistimos. Vários planos ficaram cobertos pela associação destes dois gigantes da cena de Chicago: alturas houve em que o violoncelo irrompia de dentro do que o saxofone fazia, outras em que contrariou o que vinha do lado de Vandermark, num espessamento de texturas, e outras ainda em que ambos caminhavam a par com instantâneas reacções ao que vinha do outro lado.

Momento particularmente alto foi aquele em que o soprador se deteve nos sobreagudos do clarinete. Se Vandermark é sobretudo conhecido pela sua mestria do sax tenor, evidente se tornou que nessa outra palheta tem igualmente algo de fundamental a dizer. Para quem o julga demasiado “arrumado” nos contextos em que há uma composição, uma estrutura previamente delineada a seguir, foi bom vê-lo e ouvi-lo sem rede de segurança, em situações de constante desestabilização. Proporcionadas, em grande parte, pelo seu companheiro musical neste duo, alguém que é procurado, precisamente, para evitar quaisquer encostos confortáveis. Até que ponto o facto de terem falhado o robalo no carvão contribuiu para o que aconteceu? Nunca saberemos, mas afinal são factores destes que alimentam a música improvisada…