MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 20 de Maio de 2015

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Festa brava

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

A sexta edição do “congresso dos Improvisadores” no concelho de Peniche foi, muito provavelmente, a sua melhor de sempre. Mais de 70 músicos por lá passaram, com um elevado número de participantes estrangeiros. O nível de qualidade foi altíssimo e houve umas quantas surpresas. Ora fiquem a saber o que aconteceu…

Não há nada como o MIA em lado nenhum, seja no nosso país como a nível internacional. E se é isso que faz com que um grande número de músicos nacionais que utilizam a improvisação como metodologia vá à Atouguia da Baleia, no concelho de Peniche, quando chega o mês de Maio, o mesmo motivo está a fazer com que cada vez mais improvisadores de outros países se inscrevam no Encontro e a ele acorram assumindo todas as despesas inerentes – viagens, dormidas, estadia. Foram 14 os países representados, na maior parte europeus (com uma grande comitiva, este ano, de itália), mas também de outros continentes, como o Japão, o Brasil e o Canadá.

E isto porque não se trata propriamente de um festival, com concertos tal como normalmente são entendidos. É, isso sim, como que um congresso. Quem participa fá-lo para vivenciar uma troca de experiências com os seus pares. Juntam-se no palco instrumentistas de gerações diferentes, formações distintas (da clássica à electrónica, passando pelo jazz e pelo rock) e vários graus de experiência a improvisar, de veteranos a quem está a dar os primeiros passos na composição instantânea. Com a particularidade de nada ser feito à porta fechada: O evento está aberto – com entrada livre, sem bilhete – a quem quiser assistir, seja a população local como quem chega de outras paragens. Este ano, havia até quem viesse de Vigo, na Galiza.

Depressa se instala um especial ambiente de festa. Músicos que se conhecem, mas não se vêem há muito, têm a oportunidade de um reencontro. Quem pela primeira vez se cruza no palco, na plateia e no “foyer” da Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro, à mesa das refeições e nas “jams” do Armazém dos Tubos acaba por estabelecer uma ligação, e o certo é que surgiram projectos das anteriores cinco edições do MIA. O formato de maratona desta iniciativa de Paulo Chagas e Fernando Simões que começa no início da tarde e decorre até altas horas da madrugada, estabelece uma intensidade e um ritmo de grande impacto emocional. Houve quem desmaiasse, quem precisasse de poisar a cabeça e fechar os olhos para se recompor, quem saísse para apanhar ar e simplesmente conversar.

De 15 a 17 de Maio, excelente música aconteceu no Oeste português. O nível esteve sempre alto, tanto assim que a sexta edição do MIA é bem capaz de ter sido a melhor de todas. O risco inerente à improvisação é sempre elevado, pois algo pode correr mal, e o certo é que, quando o grosso das actuações é feito por grupos sorteados, natural se torna que um ou outro resulte menos interessante. Faz parte do jogo e é algo que colectivamente se assume, mas o certo é que, nesta ocasião, foi quase tudo muitíssimo bom e alguns momentos chegaram mesmo a ser brilhantes.

Por um ou outro motivo, do especificamente musical ao comunicativo, destacaram-se alguns dos intervenientes, como o vibrafonista François Choiselat, o saxofonista Guy-Frank Pellerin, a violinista Maria do Mar, a pianista Silvia Corda, o contrabaixista João Madeira, o guitarrista Samuel Hallkvist, o trombonista Carlo Mascolo e o clarinetista Luiz Rocha. E se outros anos foram de revelação na comunidade dos dotes de uma Maria Radich ou de um Gil Dionísio, a figura do MIA 2015 foi o jovem Francisco Andrade, um tenor que entusiasmou sempre que esteve em cena. 

Fixos, ma non troppo

Guy-Frank Pellerin 

Luiz Rocha

Silvia Corda

Francisco Andrade

Com a Igreja de S. José como cenário, a noite de sexta-feira 15 debutou um trio transnacional que merecia ter continuação. A portuguesa Maria do Mar, o sardo Adriano Orrù (contrabaixo) e o brasileiro Luiz Rocha tocaram uma música de câmara que foi tão exploratória na sua elaboração quanto se deixou influenciar pelo ambiente em que teve lugar. Muito próximo se esteve de uma improvisação “sacra”, algo de surpreendente quando se sabe do carácter profano desta prática musical. O início do Encontro não podia ter sido mais auspicioso.

Outras formações fixas, mas na maior parte pensadas especificamente para o MIA, se sucederam no fim-de-semana. A abrir a tarde de sábado esteve o quarteto Peixe Frito, formado por Paulo Chagas (saxofone alto, flauta), Luís Guerreiro (trompete, electrónica), o uruguaio Alvaro Rosso (contrabaixo) e Pedro Santo (bateria, electrónica). Bom peixe, de resto, num enquadramento de jazz electroacústico muito gratificante para os ouvidos e que despertou a atenção para o que mais fez o trompetista na Atouguia. Antes do jantar, ouviu-se o Sunset Octet na Fonte Gótica de Nossa Senhora da Conceição. Com algumas alterações de constituição relativamente ao previsto: a italiana Simona Verrusio preferiu, ao seu sax soprano, o papel de mestre-de-cerimónias, deslocando-se por entre a assistência com pequenas percussões, e Paulo Curado flautou, mantendo-se as duplas instrumentais com contrabaixo e baixo eléctrico (Pedro Rico, Rui Sousa), guitarras (Paulo Leal Duarte, Cortez Lamont III), bateria e congas (Luís Filipe Silva, Luís Fernandes). Instalou-se uma atmosfera hipnótica e suave que acompanhou a descida do sol no horizonte.

De referir ainda a performance co-protagonizada, no serão, por Maria Radich e Maria do Mar, que teve tanto de música como de teatro e que incluiu uma máscara e um relógio-despertador, aludindo ao coelho de “Alice no País das Maravilhas” e ao mais recente livro deste vosso escriba, mais tiro de arco com um violino, movimentos ao ralenti, como no tempo-de-bala do filme “Matrix”, e gargalhadas gerais. Seguiu-se outra das prestações que mais memórias deixaram nos presentes, a do Colectivo Figurativo. O francês Guy-Frank Pellerin, o sueco Samuel Hallkvist, a canadiana Karoline Leblanc  (piano) e Paulo Ferreira Lopes (bateria)  foram de uma entrega total e subiram ainda mais as bitolas de qualidade.

A matinée de domingo teve início com a transalpina Kerlox Dynamic Band, a mais rodada de todas as formações desta vertente do MIA. Mascolo, Domenico Saccente (acordeão), Michele Russo (piano) e Felice Furioso (bateria) apresentaram uma música vibrante e excêntrica que não deixou ninguém indiferente. Depois, voltou-se à Fonte com os Improvisadores do Adro, reunindo instrumentos de sopro (António Ramos, João Pedro Viegas – em saxofone barítono -, Quinto Fabriziani, António Pinto, Luís Vicente, Carlo Mascolo) e um acordeão (João Godinho). Foi bastante interessante, apesar de terem tido o fogo-de-artifício da vitória do Benfica no campeonato de futebol a agir contra eles. De bom grado se aceitou a circunstância, pois alguns dos improvisadores envolvidos são devotados benfiquistas.

À noite, na Filarmónica, o Granular Chamber Sextet transformou-se num septeto. Carlos “Zíngaro” não pôde estar presente e em seu lugar («porque só duas pessoas, não uma, o poderiam substituir, e mesmo assim é difícil», comentou-se com humor) surgiram José Bruno Parrinha (clarinete) e Miguel Mira (violoncelo), tendo os restantes sido Fernando Simões (trombone), João Pedro Viegas (desta feita nos seus habituais clarinetes), João Madeira, Miguel Falcão (contrabaixo) e a italiana Silvia Corda (piano). Foi um requintado regresso ao modelo da música improvisada de câmara, num contributo da associação de músicos Granular para o MIA. 

E mais…

Carlo Mascolo 

Maresuke Okamoto

Paulo Galão

Fernando Simões

Foram 18 os agrupamentos formados por sorteio no Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, com nove a tocarem em cada tarde de domingo. Para além dos mencionados, responderam à chamada Abdul Moimême, Afonso Castanheira, António Ramos, Bernardo Álvares, Carlo Mezzino, Dario Nitti, Eduardo Sérgio, Fernando Guiomar, Laura Marques, Lorenzo Lustri, Luís Fernandes, Manuel Guimarães, Marco Olivieri, Maresuke Okamoto, Marialuisa Capurso, Mia Zabelka, Nuno Morão, Nuno Ribeiro, Paulo Galão, Paulo Pimentel, Pedro Castello Lopes, Pedro González Fernández, Roberto Dogusta e Tiago Silva, entre outros.

Todos eles integraram os seis ensembles conduzidos que fecharam as sessões de sábado e domingo, com três em cada dia. Funções de direcção tiveram Adriano Orrù, Guy-Frank Pellerin, João Madeira, Karoline Leblanc, Luiz Rocha e Rui Sousa. Com uma enorme disparidade de estilos, indo do pragmatismo desenvolto de Pellerin à abordagem quase “científica” e muito zappiana de Sousa, o único que trocou os sistemas gestuais por indicações escritas em folhas de papel. Configuração semelhante teve a apresentação final do  “workshop” conduzido por Choiselat em que foram utilizadas as sinaléticas de condução que Walter Thompson designou por “soundpainting”. Estas são tão claras e o músico francês foi tão objectivo e funcional na sua aplicação que a apresentação final, na tarde de sexta-feira, parecia ter decorrido de uma semana de trabalho e não apenas de umas horas.

Quanto aos “after hours” no Armazém dos Tubos, foi divertido assistir à estreia do pianista Paulo Pimentel no vibrafone e às tentativas (conseguidas, verdade se diga) de Fernando Simões para acompanhar a desmesurada energia de Francisco Andrade. Em jeito de “jam”, são de assinalar também os préstimos de Paulo Galão e Luís Vicente, no clarinete baixo e no trompete respectivamente. Só para terem uma ideia do que ali se passou, a noite de sábado terminou às 9h00 da manhã de domingo.

Foi tudo muito especial e precioso – algo de único no mundo, inclusive, tal como em cima escrevi. A ver se é desta que a autarquia de Peniche percebe que tem aqui um diamante em bruto a polir e preservar, dos pontos de vista cultural e turístico, coisa que até agora não aconteceu – antes pelo contrário, como se verifica pelo corte orçamental sofrido pela iniciativa… Seja qual for a sua cor política, o poder é sempre lento e conservador. Quando acorda para a realidade, se é que isso chega a acontecer, já esta o ultrapassou. Sem apoio político e institucional, o certo é que o MIA se tornou numa referência além-fronteiras e mudou a cena da música improvisada em Portugal. É obra…