Cam Deas, 24 de Maio de 2015

Cam Deas

Zumbido de escaravelhos

texto Bernardo Álvares

O guitarrista britânico passou pelo Desterro, em Lisboa, para uma sessão em que voaram insectos e muito processamento analógico de guitarra aconteceu. Mais uma noite em que o novo espaço de Lisboa ganhou afirmação.

Inaugurado há sensivelmente três meses, o Desterro tem vindo a afirmar-se como um espaço cada vez mais importante no cada vez mais interessante cenário musical lisboeta. Com programação de músicos como Bruno Silva, Luís Vicente e Jari Marjamäki, vai conseguindo um cartaz musical sempre rico, entre nomes sonantes do jazz, da música improvisada, da eletrónica e da música africana, entre outros. Entre as “jams” de free (todas as terças-feiras) e concertos, tem passado pelo Desterro a nata da improvisação da cidade, bem como alguns dos “jazzmen” mais rodados internacionalmente, como Chris Speed e, em breve, Jorrit Dijkstra, Marc Ducret ou Samuel Blaser.

No passado dia 21 de Maio, o Desterro recebeu Cam Deas, jovem guitarrista britânico. Toda a decoração do espaço a preto-e-branco, a instalação do também guitarrista Tiago Silva e a posição de Deas, na sombra, de costas para o público, contribuíram para o equilíbrio entre luz e escuridão no qual viveu a atuação. Apesar de ter um trabalho não menos impressionante de “fingerpicking”, na linha de John Fahey e Jack Rose, apresentou-se ao vivo a processar o som da guitarra por eletrónica analógica. A maquinaria de Deas assemelhava-se à máquina de escrever insecto-alienígena de “Naked Lunch”, com o abanar da mesa onde estava assente a prover-lhe vida própria.

A mala modular cuspia cabos coloridos num ritmo tão sedutor quanto viciante. Mas o paralelismo com a obra de Burroughs não se fica por aí. Os insectos estiveram sempre presentes na psicose colectiva ali experienciada, numa dança de acasalamento em noite quente de Verão de uma sociedade distópica onde padres “on acid” tocam sinos de igreja numa simbiose complexa com o zumbir dos escaravelhos.

Escolher um concerto para assistir em Lisboa é cada vez mais difícil, com tanta coisa interessante a acontecer diariamente. Mas a apresentar argumentos como o Cam Deas, o Desterro continuará sem dúvida o processo de afirmação enquanto espaço incontornável no cenário actual.