Charles Gayle, 28 de Maio de 2015

Charles Gayle

Contou sobre Nova Iorque

texto Paulo Alexandre Jorge fotografia Vítor Medeiros

Na segunda-feira passada, na Culturgest Porto, assisti a um dos concertos da minha vida.  Pela música e porque tive resposta a algumas perguntas. Estas... De quantas mortes se faz a transcendência? De quantas dores a felicidade? De que fragilidades se faz um homem forte?

Noite quente na baixa do Porto. A Culturgest é um espaço fresco; mas pouco mais de meia plateia estava ali para escutar Charles Gayle  a solo – que entrou alto, magro, lento e curvado, apoiando-se com dificuldade em cadeira alta debaixo de uma luz indirecta que lhe salientou a sombra, a enorme sombra, a sombra de um homem que já é maior do que ele próprio, muito maior,  num dos concertos da minha vida.

A voz frágil em saudação e em anúncio do que tocaria na próxima hora: diversos temas, em diversos estilos; e que no fim estaria disponível para responder a alguma pergunta ou para conversar sobre o que tocou.

A voz frágil e depois o silêncio: de outras vezes a forte sensação de que o salão da Culturgest permite uma reverberação interessante a um instrumento como o saxofone. A voz frágil, depois o silêncio, a respiração e o sopro: um sopro único, que nos fez voar suspendendo o tempo durante esta hora de noite quente.

De quantas mortes se faz a transcendência? De quantas dores a felicidade? De que fragilidades se faz um homem forte?

Foram 11 os temas. À primeira impressão de debilidade sucederam-se  11 momentos de profunda espiritualidade, para os quais foram convocados Albert Ayler, John Coltrane, Coleman Hawkins.

O primeiro blues morou no interior timbre de quem já muito gritou – um timbre agreste, metálico, abafado. Seguiu-se um cântico gospel desesperado, fazendo uso de um excessivo vibrato. Novo silêncio. À melodia lenta que se insinuou depois, sussurrada, suja de ruído, de uma beleza rara, irrompeu uma outra voz que a desconstruiu, violenta. No quarto tema a voz foi assumida e era Coltrane quem se sentava ao lado de Gayle, soando em infinitas cascatas de sons. Novo silêncio: a partir deste instante tive a certeza de que estava a partilhar de algo raro.

Ayler marcial, enérgico, reportando a New Orleans,  e novo blues, ora lento ora rápido, complexo em  sucessão de melodias entrecortadas e entrecruzadas. Silêncio. O eco no salão da Culturgest. Finalmente, Hawkins em voo planado, a melodia perfeita, a mais bonita, aquela que a todo momento se pode estragar, magoar, entranhar, enredar em altíssimos descontrolados e em trabalho de boca sobre a palheta ferida.

Coltrane, Ayler e Gayle ofereceram, então, um estonteante encadeamento de escalas em diversos registos. Respondeu novamente Bean com um “standard” que Gayle acelerou, atrasou, torceu até ao corte súbito. Silêncio. O saxofone teve um problema e Charles Gayle precisou de passear um pouco pelo espaço. No regresso, o free absoluto, sem limites, a transcendência.

Em conversa final, Charles Gayle justificou: fez um concerto tocando diversos temas em diversos estilos porque não quer estar preso a um único estilo. Contou sobre a Nova Iorque dos irmãos Ayler, Albert e Don, da música que fizeram, do internamento psiquiátrico de Don, das pressões que Albert Ayler sentiu para que a sua música se conformasse, do seu suicídio lançando-se ao East River. Contou sobre Nova Iorque: o facto de Coltrane ter sido posto de lado no atendimento hospitalar aquando da sua morte. Contou sobre Nova Iorque, brutal nos seus “ups and downs”.

A terminar, disse ainda que, se alguém quisesse, poderíamos também falar da Bíblia - ele adoraria falar da Bíblia.