LSB, 2 de Junho de 2015

LSB

Cabelo cor-de-rosa

texto Bernardo Álvares fotografia Nuno Martins

O trio sueco apresentou na Culturgest um concerto cheio de contrastes. Que é como dizer: esteve entre o tédio e o efeito causado pela passagem de uma rapariga com cabeça rosa shocking…

LSB é um trio sueco, formado por Fredrik Ljungkvist no saxofone alto e no clarinete, Raymond Strid na bateria e Johan Berthling no contrabaixo. Dois dias antes, o último apresentara também em Lisboa o seu disco “Casa Futuro” (Clean Feed), partilhado com os portugueses Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini. Como explicou Ljungkvist numa intervenção falada a meio do concerto, começaram a tocar juntos em 1997, mas fazem-no pouco em cada ano – todos eles estão envolvidos em inúmeros outros projectos. Por isso, decerto, se sentiu um certo relaxamento por parte do grupo, que talvez não faça assim tanta questão de existir.

A actuação no Pequeno Auditório da Culturgest, a 28 de Maio, começou com um “swing” derretido, com Strid, o dominador dO ritmo, a puxar a música para trás. Apesar de ser tudo improvisado e de até ter havido uns momentos de indignação nos beiços de Ljungkvist, a irrepreensível preocupação tímbrica por vezes levava-os para um registo meloso mais próximo dos seus conterrâneos E.S.T. do que aquilo que se espera ouvir num concerto de free.

Um pouco antes apareceu-me por detrás uma rapariga de cabelo cor-de-rosa. Assumindo aqui o comportamento embaraçoso de seguir com o olhar alguém que tem impacto em nós, perdi-a de vista atrás de um poste e fiquei na dúvida se a tinha realmente visto. Depois do intervalo, pós primeira penosa parte, os três músicos recomeçaram frescos a tocar um jazz poeirento, mas cheio de vida nas soluções inteligentes e inesperadas que conseguiam. Como a rapariga do cabelo rosa, aquele tema teve um grande impacto, mas acabou rapidamente e aquela banda desapareceu para deixar a outra sem ideias conjuntas, apenas exercícios cliché de subversão do jazz europeu.

Apesar de alguns esforços individuais, os três nórdicos pecaram por falta de comunicação – exemplo disso foi o espectacular solo de saxofone perante uma secção rítmica que, sem nenhuma contribuição a dar, tocou mais alto e abafou Ljungkvist. Sendo todos músicos de valor inquestionável, o que fizeram demonstrou que, por vezes, o todo pode ser inferior às partes.

Antes do bocejo final, a rapariga do cabelo cor-de-rosa reapareceu novamente entre os dedos e o sopro, para um grande final em comunhão.