Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, 2 de Junho de 2015

Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra

Entre “ciência” e arte

texto Rui Eduardo Paes fotografia Hélio Gomes

O festival espalhou jazz por toda a Cidade Universitária, criando sinergias e envolvendo a população com um programa que privilegiou a prata da casa. Foi “científico” na programação e deixou que a arte dos sons fosse o que é. Umas vezes mais, outras menos e numa ocasião até resultando menos de mais. Aqui fica o relato do que aconteceu…

Iam os Encontros de Jazz de Coimbra a meio quando me lembrei da afirmação de um veterano da programação de festivais: «Definir um bom e equilibrado cartaz não é uma arte, mas uma ciência.» Não concordei com ele, até porque isso de misturar jazz com átomos e moléculas tem muito que se lhe diga, mas finalmente compreendi o alcance das suas palavras. Não sei se foi intencional ou se pelo menos alguns dos concertos agendados surgiram por oportunidade, mas o certo é que José Miguel Pereira, contrabaixista (nos Fail Better!, por exemplo) e presidente do Jazz ao Centro Clube, apresentou na edição de 2015 do evento um painel de projectos que ilustra muito bem a variedade de tendências e rumos que marcam a actualidade deste género musical. Assim foi de 28 a 31 de Maio passado.

E fê-lo, como se não bastasse, com dois critérios que não podiam ser menos, assumamos o termo, “científicos”: distribuiu os concertos pela cidade de Coimbra (as minhas pobres pernas que o digam!), envolvendo a população (mesmo quem não foi – e muitos foram – apercebeu-se que o jazz tinha ido ao seu bairro), e criou sinergias com outras entidades culturais, como a Casa da Esquina, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra ou o Condomínio Criativo, e com espaços patrimoniais como o Museu Nacional Machado de Castro e o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. A baixa histórica e a Universidade constituíram pólos de atracção que ultrapassaram os seus usos de ocupação ou de passagem habituais.

Além disso, parte dos concertos assinalou a edição de novos discos, demonstrando que havia trabalho feito para trás e uma intenção de continuidade que não se ficava pelo factor performativo da música. Três deles foram lançados pela etiqueta do próprio JACC (What About Sam?, Elliott Levin’s Lisbon Connection e “Zíngaro” / Mitzlaff / Viegas / Rosso 4tet) e outro pela Carimbo Porta-Jazz (Susana Santos Silva “Impermanence”) . Em termos de projecção para o futuro, de assinalar ainda que a ida, por duas noites, ao Salão Brazil do Mário Barreiros Quarteto serviu igualmente para a gravação de um CD.

Falta referir outro aspecto essencial destes Encontros: a opção maioritária por portugueses. Apenas três concertos foram entregues a nomes de outros países, designadamente Vertigo (República Checa), Jorrit Dijkstra (Holanda) e Samuel Blaser / Marc Ducret (Suíça e França). Todas as outras formações combinavam músicos nacionais com estrangeiros. Os What About Sam? juntavam Luís Vicente, André Rosinha e Vasco Furtado aos italianos Federico Pascucci e Roberto Negro, este hoje bem implantado na cena francesa do jazz. Com o norte-americano Elliott Levin estavam os nossos Luís Lopes, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini. O Mário Barreiros Quarteto combinava o líder baterista, Carlos Barretto e Ricardo Toscano com o galego Abe Rábade. No projecto Impermanence de Susana Santos Silva encontrámos, com esta, João Pedro Brandão, Hugo Raro e José Marrucho, o contrabaixista sueco Torbjorn Zetterberg . E se todos os membros do “Zíngaro” / Mitzlaff / Viegas / Rosso 4tet vivem em Portugal, dois deles têm outras proveniências: Ulrich Mitzlaff da Alemanha e Alvaro Rosso do Uruguai.

Ou seja, este Jazz ao Centro parece ter sido congeminado em laboratório. O enquadramento foi dado e depois passou a depender dos músicos o sucesso especificamente artístico das fórmulas estabelecidas. A programação teve obviamente em conta o que eles podiam fazer, tendo presentes os seus trajectos e, no caso daqueles que tinham antes gravado para edição discográfica, o que estava registado. Quando a música depende tanto da improvisação como no jazz há sempre, no entanto, um elemento de imponderabilidade. E foi, como não podia deixar de ser, o que aconteceu: se, no cômputo geral, ouvimos boa música, algumas prestações não corresponderam às expectativas ou contiveram algum senão. A “ciência” deu lugar à arte e a natureza desta é frágil, todo o seu interesse dependendo, aliás, dessa fragilidade. 

De Lester Young a… Beach Boys

Roberto Negro 

Luís Vicente

Daniel Soltis

Comecemos a revisão do que se tocou pelo princípio, isto é, pelos What About Sam?. A matriz da música proposta no Museu Machado de Castro estava nas formas de transição do hard bop para o free jazz, remetendo-nos para o Ornette Coleman dos inícios, o de “The Shape of Jazz to Come”. Essa era, no entanto, uma vaga alusão. Mais fortes, mais identitárias até, eram as conexões estilísticas que saíam do saxofone tenor de Federico Pascucci: aquela densa, omnipresente, coluna de ar e aquela rugosidade vinham da herança deixada por gigantes como Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. Sobretudo este, dada a propensão do italiano para o fraseio introspectivo.

Se o contrabaixista André Rosinha e o baterista Vasco Furtado mantinham o motor a funcionar na zona dúbia entre a história e a criatividade, o excêntrico, irreverente e provocador Roberto Negro ia abrindo a música para outros âmbitos com o seu piano. Devido a uma crise de sinusite, Luís Vicente esteve algo aquém das suas capacidades: os seus solos de trompete foram frustrantemente curtos, deixando o protagonismo do sopro para Pascucci. E frustrantemente porque, apesar do desconforto físico que sentia, o que acrescentou de sua lavra foi bastante interessante, adicionando intensidade à mistura. Percebeu-se que está aqui um grupo sólido de que podemos esperar muito nos próximos tempos.

Com mais um membro, a cantora e violoncelista Dorota Barová, no que até há pouco era um quinteto, os Vertigo assombraram os presentes no Salão Brazil desde logo pelos seus dotes técnicos. Oscar Torók, Marcel Bárta, Vojtech Procházka, Rastislav Uhrik, Daniel Soltis e a referida Barová são todos virtuosos, mas dois deles se destacaram: o pianista, Procházka, e o baterista, Soltis. O primeiro porque tinha uma imaginação desmedida a solar, construindo fraseados complexos e imprevisíveis, e o outro porque era uma implacável máquina de ritmo. O projecto une coordenadas que vão do mais puro experimentalismo ao cançonetismo pop, e se algumas vezes adoptou os preceitos de uma banda do chamado pós-rock, numa ocasião pareceu mesmo inventar uma nova categoria, o surf jazz. Soou como uns Beach Boys coltraneanos.

Mas porque os Vertigo querem ser, e fazer, muitas coisas ao mesmo tempo, a sua prestação no Jazz ao Centro foi desigual. Se momentos houve de brilhantismo, em outros os resultados foram apenas curiosos. O seu especial argumento estava na forma como entendiam a melodia e a harmonia, a que vigora no Leste europeu sobretudo por influência da música popular tradicional. Os conceitos musicais daquela região geográfica são bem diferentes dos nossos no Ocidente e o colectivo tira partido disso nas suas digressões internacionais. Foi o caso, e o público, apesar dos desequilíbrios camaleónicos, gostou. 

Humor e grito

Jorrit Dijkstra 

Elliott Levin

Luís Lopes

Jorritt Dijkstra apresentou-se a solo com o seu saxofone alto, um lyricon (instrumento de sopro electrónico), alguns processadores para trabalho de “looping” e um sintetizador modular com fios tão multicoloridos quanto a música que se soltou na pequena sala da Casa da Esquina. A sua abordagem pessoal da improvisação electroacústica é surpreendente, mas corre um risco: a redundância. Quando, na intervenção extra após a longa peça que tocou multiplicando-se em movimentos, voltou a sobrepor camadas de som ao seu sax, voltámos a ouvir o que tínhamos ouvido antes. Foi um prolongamento desnecessário e que diminuiu o impacto daquilo que acabara de acontecer.

O seu concerto foi um dos mais cativantes dos Encontros, mas teve um problema. O modo como processa o seu alto é caricatural, logo depende muito de factores humorísticos. E no entanto, a postura de Dijkstra foi de uma seriedade concertante muito convencional, colocando a dúvida na assistência: seria a tal componente de ironia e sarcasmo real e uma intenção de base? Se era, houve pelo meio alguma discrepância. O elemento infantil que a mim mais agradou pode não ter sido propositado, e se foi faltou-lhe “mise-en-scéne”.

O reencontro, no jardim da Casa das Artes Bissaya Barreto, do saxofonista, flautista e “diseur” Elliott Levin com o seu trio rítmico de Lisboa aproximou-se da estética free. Luís Lopes, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini procuraram afastar os desenvolvimentos desse contexto, actualizando-o, mas o antigo parceiro de Cecil Taylor e Alan Silva insistiu na filiação. O que, de qualquer modo, lhe era legítimo: afinal, trata-se de um dos seus pioneiros. Algumas falhas de som interferiram, infelizmente, com o concerto: o sax tenor não estava nos altifalantes, a flauta ficou demasiado presente (com uma estridência que chegava a ser desagradável) e a guitarra sobrepôs-se à acção combinada do contrabaixo e da bateria.

Apesar disso, foi boa a energia que passou para todos os que se sentaram na relva. Levin é um partidário do “grito” de Albert Ayler, se bem que sem a dimensão mística deste. As suas intervenções foram quase sempre agressivas e argumentativas. Teria ganho em retirar-se mais, em abrir espaços de respiração e em dosear o seu fôlego, mas também é verdade que este tipo de jazz fundamentalmente improvisado procura criar situações de fluxo que se vão gradualmente desvelando, obrigando a uma presença continuada. Entre os portugueses, Lopes esteve particularmente bem, com um ataque cerrado mas pontilhístico que foi um prolongamento não muito usual dos seus recursos. Só ocasionalmente explorou uma das suas “imagens de marca”, o esculpir de “feedbacks”, colocando a guitarra junto do amplificador. 

Demasiada informação

Carlos Barretto 

Ricardo Toscano

Marc Ducret

Se com Levin mergulhámos no free jazz, a receita do Mário Barreiros Quarteto foi de um assumido revivalismo bebop. A intenção era homenagear os grandes da história do jazz e em particular o John Coltrane da década de 1950, só assim se podendo entender que peças originais de Carlos Barretto e Abe Rábade tivessem sido interpretadas, no Salão Brazil, como se fossem “standards”. Sabe sempre bem ouvir bop, para mais quando quatro fantásticos instrumentistas, como estes, o tocam, mas o certo é que transpareceu pouca personalidade musical e o tributo foi passivo, limitando-se a reproduzir as velhas coordenadas do subgénero jazzístico.

Só na segunda noite da dupla intervenção do grupo no Jazz ao Centro a sua despojada entrega compensou os desméritos apontados. Mais seguros e rodados nesta nova parceria, Mário Barreiros, Ricardo Toscano, Barretto e Rábade ultrapassaram-se a si mesmos e tornaram a música viva, fosse na interacção conjunta como nos solos – o pianista espanhol levantava-se, irrequieto, do seu banco –, para contentamento de uma casa à cunha. Toscano, saxofonista alto de apenas 21 anos de idade, merece um elogio à parte, tal foi a qualidade das suas prestações.

O duo de Samuel Blaser e Marc Ducret constituiu um dos pontos altos desta edição do festival. E vê-los e ouvi-los num local como o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra foi como que lembrar os vínculos da música com as artes visuais. À partida, esta combinação seria improvável, mas o certo é que funciona – se bem que com dilemas. Blaser é o trombonista que se podia esperar seguindo a evolução do instrumento no jazz até aos dias de hoje. Nele reconhecemos traços de Albert Mangelsdorf e de Roswell Rudd. Já Ducret funciona fora da caixa, é um desalinhado. O seu discurso guitarrístico e o seu universo composicional integram elementos do jazz, do rock e de outras músicas, incluindo a clássica.

Se Blaser é um congregador de ideias e materiais, Ducret é totalmente esquizóide. As suas malhas são fragmentárias e não-lineares. Nunca se sabe o que vai acontecer no minuto (no segundo!) a seguir. Ainda que tivessem partido de uma plataforma blues, com incorporação ocasional de motivos escritos dentro de uma ininterrupta improvisação, o que nos ofereceram foi muito além do que é possível definir. Mas era demasiada informação, demasiados saltos, demasiados detalhes, demasiadas notas. Foram extraordinários, e sem dúvida que mais Ducret do que Blaser, mas os seus barroquismos cansavam, deixavam-nos sem ar, sem tempo para digerir o que se ia passando. Às vezes, mais é menos. 

O regresso do filho pródigo

Susana Santos Silva 

Carlos "Zíngaro"

João Pedro Viegas

Susana Santos Silva estreou o seu novo projecto “Impermanence” no Teatro Académico Gil Vicente. Depois das recentes afirmações de bons instrumentistas como compositores ambiciosos, com obras elaboradas e audazes, casos de Desidério Lázaro, João Guimarães ou José Pedro Coelho, esta foi a hora da trompetista. Os preceitos de escrita de Santos Silva revelaram-se altamente válidos, mas a sua concretização prática falhou, pelo menos ao vivo. Faltou-lhe uma linguagem de sustentação ou, talvez, uma tradução de palco mais eficaz. A música era tão cerebral e esse cerebralismo foi tão pouco compensado por uma execução mais vibrante que depressa se gerou o tédio. Na fila atrás da minha, alguém ressonava.

É possível que “Impermanence” funcione melhor em disco, mas foi inevitável que logo ali nos perguntássemos: se aos intervenientes fosse permitida uma maior flexibilidade (o pianista Hugo Raro só “apareceu” uma vez) ou se o baterista (José Marrucho – Marcos Cavaleiro no disco editado) e o saxofonista / flautista (João Pedro Brandão) fossem outros, mais afirmativos e inconformistas nas reacções à pauta, teria o desfecho sido diferente? Acredito que sim, mas nenhuma audição se faz de especulações. A realidade é que só Zetterberg, no contrabaixo, levantou a música para o nível em que se compreendeu que a sua autora queria que ela estivesse. Foi pena, porque o potencial era (é) imenso. Ficarei atento aos próximos episódios, na esperança de que a fórmula chegue a bom porto…

O fecho do Jazz ao Centro fez-se com Carlos “Zíngaro”, Ulrich Mitzlaff, João Pedro Viegas e Alvaro Rosso no Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha. A própria associação instrumental, com três cordas de arco versus clarinetes, indicava que íamos assistir a uma aproximação camerística da improvisação, ainda mais justificável pelo cenário em causa. O que se esperava foi, no entanto, contradito pelo quarteto, que procurou sair do que essa moldura tem de mais estereotipado, conseguindo-o plenamente. Ao longo dos 50 minutos da actuação todas as vozes iam-se individualmente sobressaindo, mas nunca com funções solísticas: o colectivo era o que mais importava.

“Zíngaro” tocou com algumas limitações físicas – está a recuperar de um problema na mão direita que lhe dificulta o controlo do arco. Nunca, porém, tal se fez ouvir. O violinista foi igual a si próprio, sempre com preciosas, e oportunas, contribuições para o todo. Mitzlaff e Rosso comprovaram mais uma vez o estatuto que têm na cena nacional, respectivamente em violoncelo e contrabaixo. Apresentado por José Miguel Pereira como um “filho pródigo” de regresso a casa (foi o primeiro director artístico dos Encontros de Coimbra), Viegas venceu a difícil tarefa de integrar ou opor os seus clarinetes soprano e baixo com e aos cordofones. Neste caso não houve “mas” nem percalços, foi um concerto simplesmente magnífico.

Não podia ter acabado melhor, este jogo entre a “ciência da programação” e a arte do que se programou. A música continua …