Peter Brötzmann / Steve Noble, 7 de Julho de 2015

Peter Brötzmann / Steve Noble

Sempre no limite

texto Nuno Catarino fotografia Nuno Martins

O regresso do duo a Portugal foi ainda mais incendiário do que nas suas anteriores apresentações por terras lusas. Ou foi, pelo menos, o concerto na ZDB a 2 de Julho, com o septuagenário saxofonista em registo de ferocidade sónica e o baterista inglês a manter uma tapeçaria rítmica trepidante.

Foi com surpresa que recebemos a notícia que Peter Brötzmann estava de regresso para actuar em Portugal com o baterista Steve Noble. Tendo actuado há pouco tempo (em Outubro de 2014) no Out.Fest, na companhia de Noble, o alemão voltaria a repetir a formação para os concertos que daria em Lisboa, na Guarda e em Braga. Seria legítimo esperar ver Brötzmann num contexto diferente, uma vez que, nos últimos anos, o veterano saxofonista já se apresentou ao vivo no nosso país com diversos grupos – já o vimos com o trio Full Blast (Parque Mayer em 2006 e ZDB em 2012), com um quarteto internacional (que incluía Joe McPhee, no Jazz ao Centro 2009) e com o magnífico Chicago Tentet no Jazz em Agosto (2008).

Se a actuação da dupla no Barreiro, integrada no Out.Fest, contou com uma primeira parte (a cargo de Norberto Lobo), a actuação no aquário da ZDB aconteceu mesmo a seco, sem qualquer aquecimento. Brötzmann arrancou no saxofone tenor, desvendando desde logo o seu som incendiário. Como sempre, como dantes, o veterano não deu sinais de fadiga, apesar da idade respeitável – é um septuagenário, lembramos. O saxofone foi o veículo para exprimir aquela ferocidade sónica, uma marca que tem registada desde que gravou o seu disco de estreia, “For Adolphe Sax”, em 1967.

A acompanhar o sopro feroz do velho Brötzmann estava a bateria de Steve Noble. Apesar da diferença de gerações (Noble é quase 20 anos mais novo que o alemão), o inglês mostrou ser – e cada vez mais – um parceiro ideal para a energia do palhetista. O baterista que passou pelos Rip, Rig & Panic é agora uma figura fundamental na cena da música improvisada, tendo actuado e gravado com gente como Derek Bailey, Lol Coxhill, Alex Ward ou Franz Hautzinger, entre muitos outros.

Steve Noble

A parceria entre Brötzmann e Noble vem sendo desenvolvida nos últimos dois/três anos, tendo a dupla editado apenas um disco nesse formato, “I Am Here Where Are You” - uma edição Trost Records, de 2013, que tem como capa um interessante desenho erótico/porno. Mais recentemente, à dupla juntou-se o contrabaixista John Edwards para editar em trio “Soulfood Available‎”, pela portuguesa Clean Feed. Ambos os álbuns documentam esta mesma música fogosa, com chamas incandescentes que teimam em não se apagar.

No aquário da ZDB o duo não desiludiu. Se o concerto no Barreiro já tinha cumprido as expectativas, este terá superado essa primeira aparição. Como habitualmente, Brötzmann não se ficou por um único instrumento, servindo-se de várias palhetas – além do saxofone tenor, utilizou também o clarinete e o tarogato (só não trouxe o sax alto, que tocou quando foi ao Barreiro). Sempre demoníaco, enérgico, imparável. A bateria de Noble correspondia com toda a eficácia e, além de mostrar destreza e versatilidade, também aproveitava para sugerir caminhos, lançar ideias.

Entre a tapeçaria rítmica trepidante de Noble e o sopro vertiginoso de Brötzmann cresceu na ZDB uma música intensa, um fogo que raramente abrandou, sempre aceso, sempre no limite.