Luís Lopes Lisbon-Berlin Trio & Jelena Kuljic, 20 de Julho de 2015

Luís Lopes Lisbon-Berlin Trio & Jelena Kuljic

O dia em que a SMUP veio abaixo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

O chão tremeu durante o concerto do grupo luso-germano-sérvio na Parede. Foi uma explosão de energia, mas não uma agressão aos ouvidos: dentro das bolhas de som havia pequenas coisas a descobrir, numa rápida sucessão de motivos. Foi tão bom quanto o que se pode desejar…

Quem conhecia o álbum “The Line” e assistiu à actuação do Luís Lopes Lisbon-Berlin Trio no Jazz em Agosto do ano passado sabia de antemão ao que ia: a música seria forte, tanto em termos de intensidade das improvisações como no volume dos decibéis. Aquilo que se ouviu ultrapassou, no entanto, todas as expectativas – inclusive as que tinham como bitola a qualidade. O grupo formado pelo guitarrista lisboeta Luís Lopes com os alemães Robert Landfermann no contrabaixo e Christian Lillinger na bateria mostrou-se mais colado do que no anfiteatro da Gulbenkian, além de mais vibrante do que no disco. Foi muito clara a evolução do projecto em 11 meses.

Com ele, apresentou-se um quarto elemento surpresa, a vocalista Jelena Kuljic, que tinha actuado no dia anterior, com os Kuu, no Jazz im Goethe Garten – sem molduras pop, a sérvia foi o complemento ideal para a explosão de energia que fez vibrar o chão do sótão da SMUP, na Parede, chamando à sala quem estava no piso de baixo, jogando bilhar e bebendo umas cervejas. Teria sido o delírio de qualquer engenheiro da construção civil, se lá estivesse algum. E se calhar até estava, pois vi por lá quem olhasse para os pés, com semblante intrigado…

Não se tratou, porém, de uma mera descarga de testosterona (ou de estrogénio, no caso de Kuljic). O ininterrupto ataque sonoro seguiu algumas estruturas de base – Landfermann tinha pautas diante dos pés e logo por aí se percebeu que seria ele o esqueleto do que viesse –, mas mesmo no dominante improviso foi evidente que os procedimentos e os objectivos eram composicionais. A visceralidade da prestação era organizada, e até quando se deram largas à força e à expressão havia pequenos detalhes que se iam formando e transformando. Foi como se a chamada “estética do grito” tivesse ganho transparência, abarcando o sussurro. E lá estava Jelena Kuljic, murmurando palavras no meio da avalanche. Aliás, perfeitamente compreensíveis, denotando uma plena consciência quanto aos lugares onde o seu registo vocal cabia.

Luís Lopes

Jelena Kuljic

Luís Lopes tornou-se num guitarrista assombroso. Pode este ouvinte picá-lo, antes dos concertos, referindo-lhe que não necessita de afinar o instrumento porque depressa este vai ficar fora de tom. Desta vez, citei-lhe uma provocadora frase de Jorge Lima Barreto, que dizia que a afinação é «um conceito burguês», mas é bem verdade o que o músico me respondeu: «O melhor “feedback” é o afinado.» Não foram poucas as ocasiões em que se dobrou com a guitarra sobre o amplificador, provocando-lhe os estertores que são a sua imagem de marca. Ou uma delas, porque Lopes também fez o que faz muito bem: construiu malhas intrincadas e cerradas num par de passagens em tempo mais lento e projecção mais comedida, mas com um foco implacável. No público, ouvindo-o com a máxima atenção, estava um dos mais importantes guitarristas rock do País, Flak, antigo membro dos Rádio Macau e actual mentor dos Micro Audio Waves.

Landfermann, pelo seu lado, é uma torre. Tem um som profundo, tornado ainda mais pungente com o uso de uma pedaleira e com técnicas pouco usuais. Quando pegava no arco era um bramido robotizado de elefante que surgia. Lillinger esteve no seu melhor, ou seja, foi tão esquizóide quanto já esperamos dele, graças às várias anteriores visitas que nos fez em diversos contextos. Se fosse pintor, poderíamos dizer que é um figurativista abstracto ou um abstraccionista figurativo – no meio de uma textura arrítmica, introduz um “beat” com enorme efeito. Melhor dizendo, um fragmento de “beat”, resumido a quatro ou cinco batidas. Aliás, funcionou continuamente com breves motivos, imediatamente seguindo para outros sem nunca perder direcção, consistência ou oportunidade. O tipo de jogo baterístico que aplica tem até um ganho adicional, ao nível das dinâmicas: está em todo o lado.

O concerto do Luís Lopes Lisbon-Berlin Trio com Jelena Kuljic na SMUP foi bem a prova de que a música improvisada (neste caso idiomática, dado o cruzamento da atitude punk com o legado do free jazz) é uma das grandes artes performativas do nosso tempo, ao lado da dança, do teatro e da performance. Na sua essência, a música não é especialmente performativa, e tanto assim que na primeira metade do século XX houve quem advogasse que bastava, para ser música, estar escrita numa partitura. Com improvisadores assim, é-o a justo título. Lopes é um guitarrista extremamente físico, cada som que digita adquirindo maior significado quando o vemos a produzi-lo. Landfermann é a personificação da solidez. Quanto ao hiperactivo Lillinger, é um regalo observá-lo a levantar-se para utilizar o espaço em volta, raspando címbalos em tudo o que é sítio. Kuljic, essa, enche a cena assim que a ocupa, ou não fosse ela também uma actriz.

Sim, no passado dia 17 de Julho a SMUP veio abaixo. Aí presenciámos um dos melhores concertos dos sete meses que já percorremos este ano…