Jazz no Parque , 22 de Julho de 2015

Jazz no Parque

Música ao pôr-do-Sol

texto Paulo Alexandre Jorge e Nuno Catarino fotografia Pedro Figueiredo e Vítor Medeiros

O ciclo organizado pela Fundação de Serralves voltou este ano ao formato de três concertos nos finais de tarde dos primeiros domingos de Julho, com propostas muito diferentes entre si. I. Overdrive Trio, Alberto Conde Human Evolution Music Project e Hugo Carvalhais Quarteto & Drumming GP encheram o campo de ténis do jardim portuense. 

Com os concertos a realizarem-se, este ano, nos finais de tarde de domingo em vez de nos sábados, o Jazz no Parque cumpriu a sua 24ª edição com três concertos que procuraram colocar o jazz em relação com outras músicas. Pela segunda vez com programação do ensaísta e crítico Rui Eduardo Paes, o público acorreu em grande número às propostas realizadas, enchendo o “court” de ténis de Serralves, no Porto, a 5, 12 e 19 de Julho. Aqui fica o relato – necessariamente subjectivo – do que aconteceu… 

I.Overdrive Trio

Philippe Gordiani 

Bruno Tocanne

Rémi Gaudillat

O tema “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd, ganhou um merecido estatuto de culto na história do rock. Registado no primeiro disco dos Floyd, ainda com o fundador Syd Barrett, o tema começa com “riffs” e estrutura assumidamente rock, mas vai evoluindo para uma improvisação aberta, sendo o resultado de um psicadelismo sem limites, que poucas vezes terá cabido no universo da música pop. Nesta canção exclusivamente instrumental era anunciado o caminho exploratório que o famoso grupo havia de seguir nas décadas seguintes. O álbum “The Piper at the Gates of Dawn”, editado em 1967, não foi apenas o primeiro da banda, foi o resultado do talento tresloucado de Barrett.

Foi a partir dessa abertura permitida por “Interstellar Overdrive” que o trio de Philippe Gordiani, Rémi Gaudillat e Bruno Tocanne se juntou. Pegaram nas composições dos Floyd dos começos e foram explorando as melodias de Syd Barrett adaptando-as à instrumentação e aos processos de improvisação oriundos do jazz. O grupo até o nome foi buscar: I.Overdrive Trio.

Entre a guitarra de Gordiani, o trompete de Gaudillat e a bateria de Tocanne foi-se gerando uma onda floydiana expansiva. O trio apresentou-se no parque de ténis de Serralves para a 24ª edição do Jazz no Parque, uma escolha que não deixaria de ser arriscada, dada a natureza rockeira da formação. O risco compensou: naquele final de tarde de um domingo soalheiro o público surgiu em grande número e encheu o recinto – estariam quase 600 pessoas, segundo informou a organização.

A guitarra de Philippe Gordiani era a principal instigadora, lançando as pistas. No trompete, Rémi Gaudillat (pontualmente no fliscórnio) assumia um papel melódico. Na bateria, Bruno Tocanne alimentava a base rítmica. Entre o “riffing” eléctrico da guitarra, o trompete ágil e a bateria assertiva, o público de Serralves viu a essência rock dos temas de Barrett transformados, ganhando a maleabilidade necessária para a improvisação jazz. Terá sido na interpretação do tema que dá nome ao grupo, “Interstellar Overdrive”, que o trio mais se aplicou, numa revisitação altamente enérgica. Outro dos melhores momentos – um de maior tranquilidade melancólica – ocorreu quando o trompetista se serviu da surdina, em parceria com a guitarra acústica de Gordiani.

A escolha deste projecto revelou-se particularmente acertada, numa época em que o rock psicadélico regressou em força e invadiu a cena pop/rock “mainstream” - aos casos de Tame Impala, Temples e derivados, junta-se a vitalidade do actual rock psicadélico instrumental (com exemplos como Black Bombaim, a meio caminho do “stoner rock”) e até há festivais especializados, como o Reverence Valada. (N.C.) 

Alberto Conde Human Evolution Music Project

Alberto Conde 

Vikas Tripathi e Shakir Khan

José Valente

É fundamental a sensação de transcendência; de ir para lá do objecto, do presente, do fixo, do adquirido, do previsível. Quando escrevo, quando danço, quando toco. A procura de linhas de fuga: os blues - fugir da prisão racial, da escravidão, do sofrimento pela distância forçada da família, dos amigos, do desterro, da cultura própria, da intimidade; o jazz como nos blues -  olhemos a vida de Miles Davis e os seus períodos musicais, atentemos na vida musical de Coltrane: a procura, sempre a procura; o questionamento, sempre o questionamento; a dúvida, sempre a dúvida: porque a verdade é que é impossível ser de outro modo.

Improvisar é procurar. Nenhuma procura acontece sem improvisação: o momento em que damos significado à nossa existência e se descobrem sentidos ao que vamos tocando. O risco, o arriscado, o mortal, o imortal: evito escutar música de quem não arrisca, de quem não morre, de quem não me mata, de quem não me faz ir para lá do que já sei e do que já sou; evito assistir a concertos de quem não me dê um murro no tímpano ou me faça ressuscitar; evito tocar quando não tenho medo, quando sei o que vai acontecer, quando vivo uma situação de conforto em sofá doméstico de acordes perfeitos e progressões estilizadas e “grooves” pré-estabelecidos.

Não compreendi a evolução humana proposta pelo projecto do pianista e compositor galego Alberto Conde apresentado na tarde de 12 de Julho de 2015 na 24ª edição do Jazz no Parque (Alberto Conde Human Evolution Music Project: Alberto Conde no piano, Shakir Khan em sitar, Vikas Tripathi nas tablas, Xosé Miguélez em saxofone tenor/flauta e gaita-de-foles, B.O.U.L.E na electrónica e José Valente como convidado especial na viola de arco). Há a ideia norteadora do projecto e uma formação inusual potenciadora de propostas musicais fora do vulgar, mas pouco mais. Quando falo de evolução humana imagino risco, transgressão, evolução, drama, surpresa, aventura; cortes epistemológicos musicais abruptos, afrontamento a grandes questões musicais, novos paradigmas musicais; andamentos diferentes; dinâmicas arrojadas e procuras de outros sons e sonoridades. Pouco disso aconteceu.

Oferecendo-se no formato clássico de temas musicais, o projecto desenrolou-se durante 1h e 43 minutos de um modo pouco variado, muito planeado / escrito / conduzido, oferecendo poucos momentos de libertação e voo. Previsível na abordagem: formas binárias, compassos simples, acordes base soados ao piano, os sopros, a viola, o sitar e o piano com as linhas melódicas, ficando a tabla com o complemento rítmico e a electrónica com os elementos expressivos de fundo ou transição; apresentação do tema / melodia, momento sequente de improvisação curta e condicionada – na responsabilidade ou dos sopros, ou da viola, ou do piano ou do sitar, momento final de resolução com repetição do tema inicial; progressões harmónicas elementares e estilizadas (da música popular e do jazz, numa tentativa pouco arrojada) e melodias base muito simples.

Assim foi, ligeiro e sem transcendência. Nem o instrumentário original significou novas leituras: a oferta musical indiana de Khan e Tripathi contida numa forma que claramente lhes foi estranha, remetida a mostrar o que instintivamente sempre souberam fazer como músicos de uma cultura de aprendizagem oral, a electrónica presente em papel irrelevante de apontamentos expressivos de pouco significado, a gaita-de-foles num único tema a oferecer o que o saxofone igualmente ofereceu, mas com outra voz, a viola em atitude de música popular. Não houve efectiva mistura de sentimentos, ideias, processos de criação em que, escutando, não se percebesse onde começava a linguagem europeia da música popular e acabava a linguagem oriental, em que, escutando, nos surpreendessem o piano e o saxofone jazz em criatura fenomenalmente nova embrulhada nas novas tecnologias.

Não basta colocar em palco instrumentistas e instrumentos raros para que a música seja rara. Positivo: três solos de Xosé Miguélez no saxofone (a necessitarem de mais tempo para levantar um outro voo; voz escura mas luminosa, ideias fluentes e maduras; fica a curiosidade para o escutar novamente). Francamente negativo: o solo de José Valente no quarto tema da tarde, oferecendo-se em “loops” gravados com pedaleira, sobrepondo ritmos e melodias elementares, solando depois diatonicamente sobre esse tapete – para além de momento longo, que deixou toda a banda parada e à parte, quebrando o desenrolar morno do concerto, não foi um momento musicalmente rico nem inovador. Tantos músicos já o fazem, com uma outra qualidade e invenção; tratou-se de um momento de exibicionismo gratuito. No final, 600 pessoas agradeceram em ovação de pé e em ambiente de festa uma tarde de música da qual dificilmente guardarão memória. (P.A.J.) 

Hugo Carvalhais Quarteto & Drumming GP

Hugo Carvalhais 

Mário Costa

Liudas Mockunas e Fábio Almeida

Diferente, para melhor, foi a tarde passada na companhia do Hugo Carvalhais Quartet & Drumming GP no passado domingo de 19 de Julho (Carvalhais no contrabaixo, Liudas Mockunas no saxofones soprano e tenor e no clarinete, Fábio Almeida nos saxofones alto e tenor, Mário Costa na bateria e Rui Rodrigues, João Tiago Dias e Nuno Aroso nas lâminas e nas percussões). Algumas perguntas iniciais: que Carvalhais?, depois de ter escutado o excelente disco “Grand Valis” (Clean Feed, 2015), de uma profunda procura que o mergulhou no domínio da improvisação e do experimentalismo radical; que Liudas Mockunas?, saxofonista que me impressionou há uns anos em concerto a que assisti em Copenhaga e que me voltaria a impressionar depois em concerto a que assisti com o quarteto de Carvalhais na Casa da Música (Festival 12 Points); que Drumming?, nesta encomenda de misturas de linguagens “à partida” jazz?  

Cinco longos temas nos foram oferecidos. O primeiro abriu com as lâminas em progressão de acordes, às quais se juntaram o contrabaixo e a bateria reforçando a secção rítmica, seguindo-se-lhes os sopros em interpretação simultânea das primeiras melodias, raras / estranhas / belas, numa dinâmica conjunta da ordem para o caos e para a improvisação aberta da bateria. Houve de seguida um momento de transição para uma segunda grande ideia, passando a bateria e o contrabaixo para a oferta de um “groove” que o sax de Fábio Almeida surpreendeu com um longo e fresco solo (com a sonoridade de um Pharoah Sanders recente), seguindo-se a primeira sólida intervenção de Mockunas no saxofone soprano, mais expressivo que Fábio, mais expansivo.

Regressou a marcação das lâminas, forte, compassada, assegurando campo para o solo da bateria. Seguiu-se um silêncio súbito, do qual surgiram unicamente os dois saxofones em conversa, a sós, numa interpretação em progressão do estilizado para o expressivo, terminando em abordagens rarefeitas de sons! Foi um início de concerto de grande qualidade e neste primeiro tema (que eram dois, segundo explicação de Carvalhais) encontrámos exemplo para toda a sequente proposta musical da tarde: temas longos a partir de ideias boas e bem exploradas em formas musicais complexas, secções que espantavam, arranjos instrumentais arriscados assentes em harmonias / melodias / ritmos surpreendentes, improvisações individuais e colectivas permitidas / potenciadas / desejadas / longas, e um cuidado muito grande com as dinâmicas dos temas, numa respiração comum da banda a um só pulmão, ora crescendo, ora diminuindo de vozes / texturas / intensidades / andamentos.

Em concerto de qualidade, saliente-se: a primeira conversa a solo entre os dois sopros encerrando o tema de abertura acima descrito; o final da primeira ideia do segundo tema assegurado pelos Drumming em decrescendo até pianíssimo e o momento expressivo de transição que se lhe seguiu, interpretado por todo o septeto; o solo de contrabaixo de Hugo Carvalhais abrindo o tema 3 (“Rotor”), a leveza de dedos fortes em melodia “bluesy”, contando uma história, do simples para o complexo, do pouco para o muito, do quase nada para o quase tudo; ainda em “Rotor”, o único momento verdadeiramente free proporcionado em duo pela bateria (fugidia – literalmente fugidia) de Mário Costa e o sax soprano de Liudas – não sendo um baterista free, Mário Costa é, em conjunto com Hugo Carvalhais, o grande responsável por alguns dos períodos mais quentes do concerto, sendo dono de um ataque forte e seco, rápido, capaz de arrastar a intensidade e o andamento para níveis de emoção muito elevados; e o final caótico em improvisação colectiva do tema “Rotor”.

Encerrando, o projecto ofereceu a última música, “Roadway Blues”, a Ornette Coleman  mas penso que foi o tema menos interessante (porque algo previsível no tipo de exploração que realizaram). Anote-se: a boa surpresa que foi escutar Fábio Almeida, saxofonista que desconhecia (de ideias muito maduras, boa técnica, bom som - ainda que demasiado limpo, o grão talvez lhe venha com a experiência e com a idade; surgiu mais consistente no saxofone tenor do que no alto; falando da sua prestação no saxofone alto, absolutamente dispensáveis os efeitos de mesa com que a equipa técnica recheou o seu som). Anote-se ainda que Liudas foi menos expansivo do que anteriormente. E que o Drumming teve uma presença de alto nível, contribuindo significativamente para a cor única e original que o projecto apresentou. Anote-se ainda: confirmada, mais uma vez, a qualidade de Hugo Carvalhais como compositor.  500 pessoas ovacionaram, sentadas, uma música que certamente as fez voar um pouco mais do que no domingo anterior. (P.A.J.)