Rodrigo Amado Motion Trio, 6 de Agosto de 2015

Rodrigo Amado Motion Trio

Flores silvestres

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

O concerto na Parede do grupo liderado pelo saxofonista Rodrigo Amado como que levou o Jazz em Agosto para a SMUP. Músicos, críticos e produtores de concertos de vários países que têm assistido ao festival da Gulbenkian rumaram à linha de Cascais para testemunhar a magnífica actuação. Teve lugar no sótão daquele espaço, trazendo à memória as “wild flowers” da geração “loft”.

Só o tempo o dirá, mas é bem possível que os concertos de jazz e música improvisada no sótão da SMUP estejam a formar a nossa própria (portuguesa) cena “loft”. Muito para tal contribuiu a actuação, a 4 de Agosto, do Rodrigo Amado Motion Trio. A ocasião era especial: estava-se num intervalo do gulbenkiano Jazz em Agosto e o espírito festivaleiro deste rumou para a vila dos arredores de Lisboa. A sala estava apinhada de gente. Vários críticos e produtores de festivais estrangeiros, vindos de cidades como Nova Iorque ou Moscovo, e numerosos músicos portugueses e até de outros países (estava lá Théo Ceccaldi, membro da francesa Orchestre National de Jazz, que vai tocar na Avenida de Berna no próximo domingo) concentraram-se no novo “spot” do jazz em Portugal. O ambiente era de festa, e continuou muito depois de as últimas notas soarem, entrando bem dentro da madrugada.

O que se ouviu de Rodrigo Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini pareceu estar na continuidade das premissas introduzidas pela “loft generation” nos anos 1970, quando um punhado de músicos da Big Apple, ou de passagem por esta, trocou o circuito dos clubes e dos auditórios pelo Studio Rivbea e outros sótãos, para aí explorar novas ideias. Eram elas a combinação dos atonalismos e das arritmias do free jazz da década anterior com elementos melódicos e de pulsação mais convencionais, adoptados de outras tendências do jazz e dos demais idiomas de expressão afro-americana. Em alguns casos, exploraram-se mesmo situações harmónicas mais habituais na música europeia contemporânea.

O saxofone de Amado (alto, desta vez) construiu fraseados com óbvias raízes no hard bop e pendor modal. Mais do que nunca, reflectiu as muitas audições que o músico – também jornalista musical – vem fazendo da história do jazz, sempre traduzidas na sua própria voz. Foi como se Byard Lancaster, David Murray, Sam Rivers, Arthur Blythe, Roscoe Mitchell, Kalaparusha Maurice McIntyre, Ken McIntyre, Marion Brown, Henry Threadgill, Oliver Lake e Julius Hemphill, os notáveis da alternativa “loft”, habitassem o seu sopro. O saxofonista continua a surpreender, e tanto em termos técnicos como em inventividade: o que lhe saía era um caudal incessante de motivos e respectivas decomposições, sem nunca perder argumentos. Ficou plenamente confirmado na Parede o seu estatuto dado como um dos mais importantes palhetistas da Europa.

Igualmente extraordinária foi a autêntica máquina de propulsão que Rodrigo Amado tinha atrás. Tirando do seu violoncelo afinado como um contrabaixo um som profundo que nos atingia o peito, a Mira coube unir tudo – se imaginarem o que poderia fazer alguém que fosse a combinação de Abdul Wadud e Fred Hopkins andarão lá perto. A sua presença é garantia de energia, coesão e comunicabilidade. Na bateria, Ferrandini construiu texturas atrás de texturas como se a sua vida dependesse disso, no melhor do seu estilo nervoso e irrequieto, enchendo o panorama de incríveis dinâmicas. Foi como que um Andrew Cyrille, um Don Moye, um Steve McCall “on speed”. Não é excessivo compará-lo com os “grandes”: este filho de português moçambicano e brasileira italiana nascido na Califórnia tornou-se num caso muito sério da arte das baquetas.

“Wild Flowers” se chamou à série de edições discográficas que documenta muito do que aconteceu nos anos de ouro do Rivbea. Aqueles homens foram as “flores silvestres” de um período de imensa criatividade. Três das nossas flores silvestres estão no Motion Trio e quis o destino, esse outro nome que se dá ao acaso, que tocassem também num sótão. Trouxeram-nos a memória da corrente “loft” e agora só nos resta estar atentos ao que virá a seguir. O que aconteceu na SMUP, mais uma vez, foi demasiado especial para não ter consequências…