Jazz em Agosto, 11 de Agosto de 2015

Jazz em Agosto

Sobe-e-desce

texto Gonçalo Falcão, Bernardo Álvares e Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

No seu 32º ano de vida, o festival da Fundação Gulbenkian intercalou concertos de jovens projectos com figuras da história do jazz, mostrando novas tendências e o que os veteranos estão a fazer hoje. Os resultados foram desiguais, com algumas surpresas pelo meio. Aqui fica o balanço do que aconteceu no coração de Lisboa de 31 de Julho a 9 de Agosto…

«How long will America remain blind to her unique artistic achievements? We live in a country of great wealth and technology whose avowed spiritual and political concerns share the heady idealism of an artistic manifesto. We endlessly propagate the “American Way of Life”, ponder our manifest destiny, propose safeguards for the conscience of the individual, and yet we refuse to support or even to recognize the indigenous creative accomplishments its artists have produced. (…) Jazz remains unrecognized as a serious art form. (…) Our artistic traditions have become international before we have nationalized them. (…) Bring it on home. It’s time….»

Este texto de 1968, escrito por Timothy F. Marquand e retirado das “liner notes” da edição original de “The Jazz Composers Orchestra”, fala-nos de um país centrado nas suas conquistas económicas e tecnológicas, que idolatra, mas incapaz de reconhecer a “grande música negra” e de a valorizar. Marquand foi o presidente da Jazz Composers Orchestra Association de 1966 a 1992 e saiu do cargo sem ver o reconhecimento ambicionado na primeira edição da associação. A América conseguiu, de facto, conquistar o mundo inteiro com a sua “way of life” e a sua tecnologia, mas o jazz, e em particular o jazz deste período (anos 60-70), continua a ser pouco valorizado (especialmente nos Estados Unidos) e/ou a ter de ser prefaciado como “o outro lado” para avisar o visitante mais habituado ao “fast food”jazzístico.

O centro de Lisboa, como o centro da maior parte das cidades, está hoje completamente dominado por lojas de cadeias multinacionais (muitas delas americanas) que nos invadiram e impuseram uma cultura sonora, material e visual. Apesar do esforço da Gulbenkian e de outros programadores, 37 anos depois, o jazz americano continua a ser uma marginália, sendo que o grosso da população ainda o confunde com Mark Knopfler, Lionel Richie e Melody Gardot, que não são “o outro lado” mas sim o “cool”.

Cecil Taylor, Don Cherry, Roswell Rudd, Pharoah Sanders, Gato Barbieri, Steve Lacy, Larry Coryell, Carla Bley, Kent Carter, Ron Carter, Charlie Haden, Reggie Workman, Andrew Cyrille, Steve Swallow, Alan Silva, Michael Mantler e outros participaram na aventura colectiva do primeiro disco da Jazz Composers Orchestra, fizeram avançar o jazz, abriram portas imprevistas e deram novos mundos a esta música, mundos esses hoje ainda grandemente estranhos e de difícil digestão para muitos ouvintes americanos. O Jazz em Agosto tem sido o festival que, de forma mais consistente, nos tem aproximado deste “lado” do jazz, trazendo-o até nós. Finalmente, largou a designação de “o outro lado do jazz” e assumiu a sua verdade: isto é jazz e não é preciso criar antecâmaras informativas. Quem não o sabe e vai por engano aos Cools fica a saber. Informa-se. (G.F.)

Fire! Orchestra

A ideia de programar esta banda pouco medalhada para abrir o festival deste ano, mas com uma música festiva e fácil, foi uma aposta ganha pela programação: a Fire! Orchestra de Mats Gustafsson não tem o “estatuto” e a “história” dos seus antecessores inaugurais, contudo, o “estatuto” e a “história” não tocam e a nós o que nos interessa é boa música. O anfiteatro ao ar livre estava cheio e o público ficou até ao fim, contente com a audição.

Longe de ser um projecto fácil de ouvir ou ligeiro, a Fire! Orchestra é mesmo assim capaz de fornecer alguns elementos âncora que ajudam a ligar o público à música. Os 19 músicos alargam o som do trio original (Fire!) mantendo a mesma estrutura de ideias, resultando num som menos duro e agressivo e mais social. Gustafsson desenvolveu meios de controlo, da escrita à direcção, de forma a poder gerir uma unidade feita de tantas partículas, mantendo-a coerente. Tal como a música do grupo mãe, parte de uma ou duas frases curtas e simples incessantemente repetidas pelo baixo, que criam uma estrutura “funky” (o funk usa frequentemente esta estratégia de baixos obsessivos sobre os quais a música se vai instalando) e desenvolve-se através de processos simples entre dois grupos: o rítmico e o melódico.

O som orquestral de Gustafsson não tem “recorte” ou “pormenor”, é feito de grandes massas sonoras e de um “swing” básico, binário. Nota negativa para as duas cantoras, ou melhor, para a atitude das duas cantoras. Sem grandes recursos criativos, foram capazes de cantar de forma competente e interessante (excepto quando entravam em “yodels” psicadélicos à Yoko Ono), mas a presença em palco foi medíocre: frequentemente de costas para o público ou mal sentadas no palco (de costas para o público), com uma expressão corporal tosca, movimentos do tipo turista suíço a tentar dançar samba e a simpatia de um antigo guarda fronteiriço da RDA. Gustafsson tentou frequentemente puxar pela orquestra e manter a carga, mas o ensemble nem sempre conseguiu responder com a atitude roqueira do líder. (G.F.) 

Michael Mantler’s Jazz Composers Update & Orquestra Jazz de Matosinhos

 

Rever a música criada por um miúdo austríaco de 23 anos com a nata dos músicos nova-iorquinos 40 anos depois levanta problemas irresolúveis. Aquela música, com aqueles músicos, ficou gravada e é irrepetível. Ouvido o projecto na Gulbenkian, a sensação com que ficamos é que Mantler quis que a sua música fosse reouvida numa versão que, prescindindo do brilhantismo nos solos, pudesse mesmo assim salientar a vivacidade da escrita.

O “update” que fez das pautas não mudou nada de essencial, procurou apenas clarificar alguns aspectos que na versão inicial (por razões que desconhecemos) ficaram turvos. É uma versão museografada da música original: pormenor, recorte, rigor, são elementos que ouvimos, bem iluminados e polidamente restaurados. A dúvida que tínhamos ao chegar é se estaríamos perante uma versão embalsamada ou se, pelo contrário, a ausência dos solistas originais seria compensada com outros elementos musicais.

E, de facto, a Orquestra Jazz de Matosinhos fez ouvir a música com enorme qualidade e vida, fazendo-nos perceber alguns aspectos brilhantes da composição que, no original, não eram perceptíveis (ou não tinham sido explorados...). A grande desilusão veio dos solistas convidados: com excepção do muito bom solo de Marcos Cavaleiro na bateria, do bom solo de Demian Cabaud no contrabaixo e de David Helbock no piano, os restantes solistas, convidados por Mantler e integrados no corpo da OJM, foram fracos ou muito fracos. A guitarra de Bjarne Roupé era pálida e aborrecida, Harry Sokal solou sem interesse e Wolfgang Puschnig, sem ideias, usou até o “Round Midnight”... Enfim, teríamos ficado muito melhor se a direcção de Christoph Cech tivesse confiado nos músicos portugueses ou arriscasse em convidados menos burocráticos.
A música original nesta versão passada a ferro e bem abotoada ouviu-se com prazer, com a sensação de quem vê uma obra de arte pública, lavada e restaurada a repousar dentro da vitrina de um museu. (G.F.) 

Swedish Azz

 

Regresso de Gustafsson (o Jazz em Agosto tem feito este jogo interessante de rentabilizar a vinda de músicos, oferecendo-nos duas perspectivas sobre a sua obra), desta feita com um quinteto de sax, tuba, vibrafone, bateria e gira-discos que usa o material musical publicado nos anos 1950 e 60 na Suécia e o relê. Foi o melhor concerto deste primeiro bloco do festival. Os Swedish Azz são, antes de tudo, uma excelente ideia musical. Gustafsson tem essa capacidade de, além de ser um instrumentista muito bom, ser capaz de construir boas ideias musicais. E esta é a dimensão mais complicada para ser-se músico e não apenas instrumentista.

Na década de 1950, um grupo de músicos suecos pegou nos sons que lhes chegavam como jazz e reinterpretaram-nos à sua maneira, integrando elementos da sua cultura e criando um caldo local. Lars Gullin, Bengt “Frippe” Nordström, Jan Johansson, Bernt Rosengren, Georg Riedel, Lars Werner, Berndt Egerbladh  e Per Henrik Wallin eram os líderes deste movimento. O quinteto actual usa as composições originais e trá-las para o presente em reinterpretações que fazem sentido na actualidade: presentificam-na com a linguagem do jazz actual, sem benevolências.

Foi interessante observar o contraste em relação à forma de olhar para o passado entre os dois dias. Enquanto no dia anterior ouvimos uma música belíssima, embalsamada e preservada em alta definição, nesta ouvimos uma música belíssima que ensaia uma segunda vida, actualizando-se. A segunda impôs-se naturalmente.

Os dois sopros entregavam os temas e acrescentavam-lhes ideias novas. Per-Åke Holmlander revelou-se excelente na tuba e no cimbasso (instrumento da família do trombone). O solo de bateria de Erik Carlsson no início do concerto foi magnífico e ouvimos um baterista de excelência. Kjell Nordeson foi brilhante no vibrafone. E os gira-discos de Dieb 13 são, de facto, um elemento importante neste grupo (muitas vezes a electrónica tem um papel decorativo, acrescentando uns ruídos texturais sem grande interesse, só para parecer actual). A presença de Dieb 13 é muito mais que isso, servindo não só para construir o ambiente para a música como para interagir criativamente com as improvisações.

Azz é calão de Internet para contornar o uso de “ass” = rabo. E se há rabos de 18 anos que já são póstumos, encalhados, outros há cinquentões, “vintage”, que vivem no presente com o encanto que a adolescência não pode ter. (G.F.) 

Red Trio & John Butcher

 

A par da Orquestra Jazz de Matosinhos, tivemos a representar Portugal nesta edição do Jazz em Agosto o Red Trio, acompanhado pelo histórico saxofonista inglês John Butcher. Os Red são uma banda que se transforma em cada concerto ou disco. Praticam uma linguagem em equilíbrio entre o free jazz e a improvisação livre, mas tanto tocam em versão acústica como em eléctrica e têm chamado todo um rol de convidados. Este concerto tanto soou a um “acoustic” Red Trio como a um Empire Quartet, em referência ao disco lançado com este saxofonista, em 2011, pela NoBusiness.

O motor do grupo foi a bateria de Gabriel Ferrandini, músico que continua a surpreender pela franca evolução de um “gig” para o outro. Sempre grande e sempre a crescer. Mas a mistura do som do concerto pecou por um excesso de volume na bateria, o que a certa altura fazia parecer um concerto de “Ferrandini e convidados”, mas este soube colmatar esse excesso de volume com uma abordagem mais suave que nem por isso teve menos fogo.

Também Hernâni Faustino soube aproveitar o desequilíbrio do som que se fazia sentir com uma abordagem ao contrabaixo quase vestigial que, pelo contraste, se tornava muito intensa. Faustino soube ainda muito bem explorar pequenos detalhes no meio do som geral. Souberam todos, na verdade.

Butcher fez brilhar toda a tradição da improvisação livre inglesa, afirmando-se como o piar da ave rara que faltava ao jardim da Gulbenkian. Mas quando o saxofonista se retraía faltava alguém que levasse a carroça para a frente. À falta de iniciativa, a estratégia que se revelou vencedora passou pela aposta na contenção, com os músicos ao mesmo tempo a jogarem pelo seguro de uma zona de conforto como a deixarem expostos os seus medos e a sua intimidade.

Mesmo este registo mais – abusemos do termo – formal foi o suficiente para afastar aqueles que, de camisola aos ombros, continuam a ofender-se com definições mais abrangentes de jazz, para além do cool, do out e do chill. Deste trio em formato de quarteto, Rodrigo Pinheiro foi o mais jazz e o mais Agosto. Apesar da leveza estival nos dedos do pianista, sentiu-se no som geral o peso da meia estação na Europa Central.

Há um equilíbrio muito ténue entre entretenimento e concentração. A concentração, tanto dos músicos como da audiência, dura cada vez menos na era da Internet. E concertos muito longos entram invariavelmente no domínio do entretenimento, com instrumentistas e público a serem incapazes de estar o tempo todo a 100%. Mas quando este tipo de música entra no domínio do entretenimento peca pela falta de respostas e ideias. Apesar disso, e num concerto que, com “encore”, chegou perto da hora e meia, os músicos souberam pôr toda a sua experiência à prova a mostraram uma gestão muito sábia do tempo. (B.A.) 

Lok 03

 

Lok 03 são Alexander von Schlippenbach, a sua mulher Aki Takase e o seu filho Dj illvibe. O casal de pianistas e o DJ tocaram bandas sonoras em tempo real para dois filmes projectados numa tela gigante no anfiteatro ao ar livre. O primeiro filme que musicaram foi “Symphonie Diagonale” (1924) de Viking Eggeling, um pequeno filme dada, com formas e linhas brancas a aparecerem e desaparecerem sobre um fundo preto. Mas a interação entre os músicos não estava tão bem oleada neste aperitivo como no prato principal que se seguiu.

Foi-nos servido, então, “Berlin : Die Sinfonie der Großstadt” (1927), de Walter Ruttmann. Um filme anterior à ascensão do nacional-socialismo alemão e que só por si já valeria a deslocação à Gulbenkian. A obra, note-se, já merecera outras musicações recentes, como por exemplo a de DJ Spooky.

A interpretação deste trio não tentou ser tanto uma modernização da música que se tocava a acompanhar filmes mudos, mas antes num reposicionamento da audição como se vivêssemos nos anos 1920. Ao mesmo tempo, acrescentando uma sujidade do som que parecia estarmos a ouvir gravações antigas. O grande responsável por isso foi o Dj illvibe que, num registo próximo de The Caretaker aka Leyland Kirky, explorou os ruídos dos próprios vinis. Por vezes, o DJ estava num registo mais livre, mas tentando sobretudo uma leitura mais literal, sacando os sons respectivos quando as imagens eram de fábricas ou de comboios, por exemplo. Os objectos que o casal ia usando para sujar, também eles, o som, faziam daqueles pianos preparados os instrumentos ideais para aquela orquestração.

Um concerto que representou o melhor do espírito do Jazz em Agosto: músicos que não têm nada a provar a ninguém fazendo um óptimo trabalho. Um bom filme, uma boa ideia, uma boa execução e não precisaram de inventar mais. Contudo, ao início do quinto acto um problema técnico impediu a continuação do filme e o comboio que vimos no início teve de fazer uma paragem de emergência sem poder chegar ao seu destino. Mas os músicos voltaram para um pequeno “encore” já sem projecções. (B.A.) 

The Young Mothers

 

Além dos músicos de nomeada, o festival tem frequentemente apostado em projectos menos conhecidos para mostrar ao público novidades interessantes do jazz actual. É uma área da programação mais complicada que Rui Neves tem gerido muitas vezes com sapiência. Recordo pelo menos um dos concertos que se enquadram nesta tipologia, o do quarteto de saxofones Propagations, como um dos melhores que vi até hoje. Os Young Mothers enquadram-se neste espírito de descoberta e, de facto, tiveram uma actuação desalinhada mas muito interessante.

O quinteto americano liderado pelo excelente contrabaixista norueguês Ingebrigt Håker-Flaten apresentou uma música forte e multi-referenciada, mas com uma forte presença do rock. Ouvimos Stefan González (que conhecemos do trio de Luís Lopes) no seu melhor, tanto na bateria como no vibrafone, com este tendo sido curto mas incisivo. Jonathan Horne, na guitarra, acabou por ser o mais surpreendente, com uma forma de tocar fortemente roqueira, solos muito interessantes e ideias rítmicas e melódicas pouco habituais e fora do cânone guitarrístico do jazz (ou não tocasse ele em seis bandas de rock e não apenas neste grupo de jazz).

Ouvimos o jazz mais directo e simples, feito da pulsação de três ou quatro notas no baixo, metal quando González se sentava na bateria e gritava, rap rimado por Jawwaad Taylor, muitos cruzamentos musicais (literalmente: chegámos a ter dois temas a serem tocados simultaneamente, sobrepostos com habilidade), o “zapping” de John Zorn, aplicado de forma diferente da do saxofonista nova-iorquino, e “beats” de caixas de ritmos. Enfim, uma enorme sopa que funcionou muito bem e que fez o público aplaudir entusiasticamente e de pé, obrigando a dois regressos ao palco.

Sem dúvida uma excelente surpresa que fez crescer a admiração por Flaten: além do seu talento como contrabaixista e como compositor, é capaz de juntar músicos com passados musicais distintos e encontrar uma maneira de fazerem sentido em conjunto. (G.F.) 

Wadada Leo Smith’s The Great Lakes Suite feat. Henry Threadgill

 

O único concerto desta edição do Jazz em Agosto a trazer nomes do outro lado do Atlântico teve casa cheia. Na penúltima noite deste festival ouviu-se jazz afro-americano e, designadamente, uma música camerística, mas “groovada”. John Lindberg, que tem um “feeling” quase bluegrass, foi o guardião das sonoridades mais clássicas e o grande impulsionador da pulsação.

Wadada Leo Smith é a personificação do cliché de que um bom vinho fica melhor com a idade. Esteve sempre atento à condução do quarteto e ia sinalizando mudanças e passagens para estruturas aos restantes companheiros. As suas frases eram tão certeiras como comoventes. Henry Threadgill, monumento vivo da cena de Chicago, demonstrou mais desgaste. Embora este registo lhe assente bem, entre o conforto e o desatino com as partituras e os microfones.

Mas a grande surpresa da noite estava reservada para o baterista. A substituir Jack DeJohnette, que gravou o disco, estava Marcus Gilmore, neto do lendário Roy Haynes. Este mostrou dominar a arte do avô, mas ao mesmo tempo o desvio necessário de quem quer provar que tem uma voz própria e argumentos que valem a pena ser ouvidos. Antes ainda de completar 30 anos, Gilmore parece já ter engolido civilizações inteiras. Qual ser mitológico, digere e mistura todas estas culturas nos intestinos e toca um resultado que é tão jazz como não. É tão asiático como africano como americano. Tão universal quanto os grandes lagos que dão nome à peça interpretada. Ora dentro das estruturas mais deterministas das composições de Smith, ora em momentos mais livres, Gilmore tinha consigo toda uma marcha militar tão disforme quanto se quer.

Na última passagem pelo Jazz em Agosto, em 2011, com o noneto Organic, lembro-me de ficar com a sensação de que gostaria de ouvir um Wadada Leo Smith mais participativo numa formação mais reduzida. Pudesse essa outra formação consistir na bateria de Pheeroan Aklaff, no violoncelo de Okkyung Lee e no trompete do deus sol Wadada e encher-me-ia muito mais as medidas. Apesar de este ter sido um belíssimo concerto, não deixei de voltar a sair com vontade de ouvir algo mais intimista, como por exemplo um duo de improvisação de Wadada com Gilmore. Wadada Leo Smith tem um domínio incrível de cada nota que dá e fico sempre com vontade de o ouvir mais, mas essa contenção faz parte da sua aura e do seu encanto. (B.A.) 

Orchestre National de Jazz dir. Olivier Benoît

 

O fecho desta 32ª edição do Jazz em Agosto fez-se com a francesa Orchestre National de Jazz, que tem no presente período de quatro anos a direcção de Olivier Benoît. Se eram suas as composições, o também guitarrista manteve-se discreto a executá-las, deixando aos restantes membros da ONJ os solos, com todos a terem a sua oportunidade. E até a dirigir delegou responsabilidades, com vários chefes de naipes a conduzir os desenvolvimentos.

A grande referência da música que se ouviu não foi, curiosamente, a do jazz do Hexágono – tudo nos remetia para o rock progressivo que naquele país se tocou na década de 1970, com os lendários Gong à cabeça. A escrita desta nova versão da ONJ pode nascer de pulsações binárias, mas é complexa e difícil de executar. Terá algum excesso até de formalismo, mas não chega a incorrer nos barroquismos que encontramos em algum jazz que pretende mostrar-se “moderno” sem o ser realmente. Exigia, no entanto, uma postura orquestral mais voluntariosa e solos com mais rasgo. Ou, pelo menos, que a energia da secção rítmica, e em especial do baixista Sylvain Daniel e do baterista Eric Echampard, fosse por todos assumida.

Se Alexandra Grimal, no saxofone tenor, e Sophie Agnel, ao piano, foram quem mais se aproximou desse nível de entrega e arrebatamento, não o vislumbrámos nas intervenções individuais de Fabrice Martinez, Fidel Fourneyron, Jean Dousteyssier ou Hugues Mayot, os sopradores de serviço. Nem mesmo o violinista Théo Ceccaldi, bem mais intenso nos grupos luso-franceses em que participa, Deux Maisons e Chamber 4, introduziu na mistura a energia e a excentricidade que lhe conhecemos e que o tornam tão especial.

Ou seja, o festival da Gulbenkian terminou bem, com boa música, mas a sensação que tivemos é a de que com os mesmos materiais se poderia ter feito melhor, bastando que a atitude fosse mais atrevida e aberta ao risco. O certo é que, apesar do rejuvenescimento operado na Orchestre National de Jazz nos últimos anos, esta é uma instituição administrada pelo Estado. Ora, em tudo o que é institucional vigora a não falada regra da sobriedade. Tivessem os 11 músicos sido menos “sérios” e os resultados chegariam, com certeza, a um patamar superior. Ficaram-se pelo bom, mas como se costuma dizer, “o bom é inimigo do óptimo”. (R.E.P.)