Renzo Filinich / Carlos Santos / Abdul Moimême, 7 de Setembro de 2015

Renzo Filinich / Carlos Santos / Abdul Moimême

Música no lago

texto Nuno Catarino

Foi dentro de um lago vazio, o do jardim do Palácio Pombal, em Lisboa, que decorreu mais uma sessão do Carpe Diem. Aí se ouviu música improvisada, associando dois computadores a um saxofone tenor. Contamos como foi…

De passagem por Portugal para participar numa residência artística, o explorador de electro-acústica Renzo Filinich aproveitou a ocasião para se apresentar em algumas actuações ao vivo: em Seia, na Parede e em Lisboa (Carpe Diem). Natural do Peru, a residir em Santiago do Chile, Filinich tem direccionado seu trabalho na aplicação das novas tecnologias à música, combinando electrónica em tempo real, improvisação livre e performance.

Além da sua participação nos Dias da Música Electroacústica, festival de Seia que o acolheu como artista residente, apresentou-se ao vivo a 22 de Agosto, com o saxofonista Bruno Rodrigues (acompanhados da bailarina Cátia Costa), na Casa Municipal das Artes de Seia. Filinich actuou depois, no dia 27 de Agosto, na SMUP (Parede), aqui num contexto diferente, uma actuação em duo com Carlos Santos (também em electrónica).

Para esta sua terceira apresentação ao vivo em Portugal, desta vez no Carpe Diem, em Lisboa, contou novamente com a companhia de Carlos Santos, mas a eles juntou-se um convidado especial: Abdul Moimême, exclusivamente no saxofone tenor. O trio actuou num cenário inusitado: o espaço interior do lago (que se encontra seco), situado no centro do jardim do histórico Palácio Pombal.

O local terá sido escolhido pelas características acústicas, mas acrescentava ainda mais curiosidade à performance. Alguns dias antes, na SMUP, a dupla Santos / Filinich tinha explorado um som exclusivamente electrónico (a gravação desse concerto está disponível em http://renzofilinich.orgfree.com). Desta vez juntou-se o saxofone de Moimême como fonte sonora (acústica) para diálogo, confronto e, se possível, base para a manipulação electrónica.

Foi de forma brusca e intensa que o concerto arrancou: o saxofone de Moimême em rugidos, as electrónicas de Filinich e Santos a dispararem faíscas, num arranque abrupto que surpreendeu. Contudo, rapidamente a toada abrandou: o sax passou a explorar um registo mais contido e a dupla electrónica foi trabalhando ao mesmo nível.

Para quem estava a assistir tornava-se difícil distinguir as origens dos sons electrónicos, que ora vinham de Filinich, ora de Santos, mas a massa sonora comum soava coerente. Renzo Filinich e Carlos Santos trabalharam texturas e com elas construíram um fluxo não estático de elementos. Uma música nebulosa, que se movia lentamente, arrastada, mas numa evolução constante. Apesar da coerência do som, cada elemento ia lançando ideias, sugerindo pistas e caminhos.

A meio da actuação (cerca de vinte minutos), Abdul Moimême voltou a ganhar destaque, assumindo o papel de principal instigador, com a electrónica a responder atentamente, com equivalente a dose de energia. O trio voltaria depois a reduzir a velocidade, avançando para um final mais tranquilo.