2º Festival de Jazz e Música Improvisada da Parede, 29 de Setembro de 2015

2º Festival de Jazz e Música Improvisada da Parede

Para mais tarde recordar

foto-reportagem Carlos Paes

Os sons dissiparam-se no ar, mas as imagens ficam. Aqui está o álbum de fotografias do que foi no último fim-de-semana de Setembro o festival da SMUP dedicado à prática da improvisação… 

Mostra anual do que vai acontecendo nos domínios da improvisação no nosso país, o Festival de Jazz e Música Improvisada da Parede levou à SMUP, no fim-de-semana de 25 e 26 de Setembro, seis formações diferentemente orientadas. Se naquela instituição da vila do concelho de Cascais o sótão já criou fama, para além deste outros dois espaços foram aproveitados: o palco, com o público junto dos músicos, para concertos mais intimistas, e o salão para os mais expansivos. O fotógrafo (e também ele músico) Carlos Paes foi lá e estas são as suas impressões… 

Abdul Moimême / Eduardo Chagas

 

A guitarra eléctrica de Abdul Moimême não parecia uma guitarra – antes um bloco de madeira com cordas a atravessá-la. Mas pouco se viu, porque sobre ela tinha uma enorme chapa, manipulada pelos mais estranhos dos objectos metálicos. Os sons produzidos eram pouco reconhecíveis como vindos do instrumento inventado pelo jazz: mais pareciam tempestades à distância, lentamente se aproximando. O trombone de Eduardo Chagas atravessava essa nuvem ameaçadora, ora com a leveza de um sopro, ora com imponência de trovão. Foi tão negro quanto belo. 

Signs of the Silhouette & Hernâni Faustino

 

O grupo Signs of the Silhouette mostrou-nos que também há improvisação no rock, podendo esta ser tão determinante quanto no jazz e definir uma semelhante utilização exploratória dos instrumentos. Para isso foi beber aos tempos em que rock era sinónimo de “jamming” e em que se chamou psicadelismo às viagens cósmicas pelo interior da mente. Hernâni Faustino, membro de um dos mais importantes grupos de música livremente improvisada em Portugal, Red Trio, acrescentou o seu baixo à massa sonora e Miguel Opes utilizou dois retroprojectores e muitos líquidos para colar na parede as estranhas imagens que aqueles harmónicos sugeriam. 

Maria Radich / José Bruno Parrinha

A voz de Maria Radich tem muitas vozes dentro. E tem milhentas expressões de rosto, muitos braços, corpo. É uma voz de bailarina. Para com ela dialogar, José Bruno Parrinha foi trocando de instrumentos: dois clarinetes, um soprano e um alto, e um saxofone soprano, por vezes clicando com a ponta do pé em pedais de efeitos ou rodando botões numa mesa de mistura. Era um duo, mas multiplicou-se. Ainda assim, o registo foi sempre intimista. Cada peça tocada surgia com um motivo, e este era minimalisticamente trabalhado até à exaustão. Com uma naturalidade, uma fluidez, que encantava. 

Maria do Mar / Ricardo Ribeiro / Ricardo A. Freitas

 

Música de câmara improvisada. Com elementos clássicos, com elementos do jazz, com outros sem definição possível. Nas abas, o violino de Maria do Mar e os clarinetes de Ricardo Ribeiro; no centro, a guitarra baixo de Ricardo A. Freitas. A disposição dos músicos correspondia aos equilíbrios procurados, contrastando agudos com graves ou puxando a música para baixo e para cima. Quando Freitas deitou a guitarra sobre o colo, ligou o “delay” e manipulou as cordas com um arco instalou-se uma atmosfera de leveza quase gasosa. 

Paulo Curado Trio

 

Paulo Curado tem-se centrado cada vez mais na flauta e foi esta apenas que tocou na ocasião, deixando os saxofones de lado. Com argumentos sempre renovados e com técnicas e abordagens distintas. E se a flauta talvez seja o instrumento mais próximo da voz humana, a música do trio de Curado com Ricardo Jacinto e Miguel Curado jogou esse carácter orgânico com as extensões proporcionadas pela electricidade: Jacinto “robotizava” por vezes o violoncelo com um pedal de distorção e o jovem Curado, filho de Paulo, trocava as percussões pela guitarra eléctrica ou aplicava-as sobre a dita. Resultado: uma música que era tão frágil quanto poderosa, e precisamente pelas mesmas razões. 

ZNGR Electro-Acoustic Ensemble

 

Três “laptops” com maçãs a brilhar. Um violino (Carlos “Zíngaro”), uma guitarra (Emídio Buchinho) e uns microfones de contacto (Carlos Santos) que eram passados pelos pêlos da barba, provocando estranhos crepitares. O conjunto soou como uma orquestra sinfónica transformada pela tecnologia digital. A música tinha várias camadas, ora densificando-se, ora perdendo espessura, com dinâmicas a fugirem por todos os lados. Eram vários os violinos, aquele que se tocava em tempo real e uns quantos violinos fantasmas. Pelo meio das elipses de som com várias cores surgiam ocasionalmente algumas figuras rítmicas, lembrando vagamente os “beats” do techno. Tão belo quanto uma tela de Rothko.