Monkey Plot, 8 de Outubro de 2015

Monkey Plot

Um caso à parte

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O grupo norueguês esteve por Portugal para um punhado de concertos que passou pela Parede. Aí ouvimos a sua música muito marcada pela folk do Norte da Europa – e do mundo, reivindicando influências de Nick Drake e Neil Young – e que destoa de tudo o que costumamos ouvir nos domínios aparentados do jazz e da música improvisada.

Tocaram no Porto, em Coimbra, em Lisboa e na Parede, numa pequena digressão por Portugal que nos trouxe um pouco das invulgares sonoridades que, nos campos do jazz, da improvisação livre, do experimentalismo, da folk, do rock e da pop (por vezes combinando todas estas linguagens musicais, ou alguns dos seus aspectos, num só projecto) vão sendo cozinhadas na Noruega e compiladas pela editora Hubro. Apanhámo-los na SMUP, em mais uma sessão da Combat Jazz Series numa noite fresca, a de 7 de Outubro, que teve pouquíssima assistência. Christian Winther, Magnus Nergaard e Jan Gismervik, os três Monkey Plot, tinham passado a tarde a nadar na praia da Parede, o que não podem fazer nesta altura do ano no seu país. E estavam felizes, mesmo que só uma dezena de pessoas tivesse aparecido para os ouvir.

A verdade é que a sua música foi concebida para pequenos espaços com públicos reduzidos. É essa a condicionante do seu estilo intimista e que dispensa o recurso a quaisquer tecnologias. No sótão da SMUP não havia microfones, amplificadores, cabos, mesas de mistura, nada que alterasse o som acústico dos três instrumentos do grupo: uma guitarra clássica, um contrabaixo e uma bateria de dimensões reduzidas. Se só isso é, hoje em dia, invulgar, também as propostas dos Monkey Plot não correspondem aos modelos habituais. É por isso, aliás, que recusam a categorização de “música improvisada”, apesar de a composição no momento ser o seu método.

Os próprios papéis instrumentais são distintos do que costumamos ouvir. Esperar-se-ia que Winther fosse o solista, mas não. O músico ia introduzindo pequenos motivos com as seis cordas, repetindo-os até à exaustão ou derivando-os subliminarmente até partir para outras situações. Fazia-o compulsivamente, obsessivamente, entre tons formais, dissonâncias, atonalismos e entre acordes, muitos acordes, ou simples escovadelas, raspagens e batimentos. Fraseados melódicos e texturas de ruído sucediam-se, enovelavam-se, até deixarmos de perceber qual era, realmente, o mote de condução.

O que fez estava algures entre John Russell, John Fahey e Ralph Towner, numa terra de todos e de ninguém. Quando parecia entrar nos domínios que identificamos como sendo os da música popular (os da guitarra de caixa, o mais popular dos instrumentos – sendo que os Monkey Plot reivindicam as influências de Nick Drake e Neil Young), ou introduzir uma cadência definida, tudo isso era desmanchado, para mais além ressurgir. O contrabaixista, Nergaard, e o baterista, Gismervik, enchiam o espaço à volta, como abelhas atarefadas, mas sempre também com os mesmos elementos minimalistas. Nos conteúdos que não necessariamente na quantidade de notas e no volume: se alturas havia em que imperava o silêncio, noutras a intensidade era enorme, bem como o “drive”, a pulsão, a entrega às tramas.

Coube ao contrabaixo corresponder às convenções jazzisticamente estabelecidas, e Magnus Nergaard fê-lo com um foco e uma imaginação prodigiosas. Ficou claro nesta actuação que é ele o pilar dos Monkey Plot – se ao nível dos processos essa função cabe a Winther, enquanto pivô do trabalho de estruturação, o factor referencial, discursivo, está entregue ao contrabaixista. Já Gismervik esteve no mesmo plano do guitarrista, embora com tarefas de desenvolvimento. Se a generalidade dos bateristas tem como centro de acção a tarola, este colocou-o nos pratos de choque. A variedade de abordagens que apresentou com tão pouco – lembrando mesmo alguém que foi reduzindo a bateria até ficar com quase nada, John Stevens – foi surpreendente. Criar mais com menos é, sem dúvida, o princípio seguido por esta formação do Norte da Europa.

Assistimos, pois, a algo que nos remetia para as brincadeiras de criança com objectos que produzem som, ou o que fazem os primatas quando se divertem a bater em algo – e daí, com certeza, o nome Monkey Plot –, mas que, com meios e materiais simples, despojados e muito limpos, ganha uma dimensão inaudita em que tudo, absolutamente tudo, cabe, sem incongruências ou contradições de maior. Tão natural era uma melodia e um padrão rítmico quanto as “bruitages” escutadas, com mútua relativização das suas cargas estéticas.